segunda-feira, 30 de outubro de 2017

DE SANTA LUZIA À TRAVESSA DE SÃO LUIS

DE SANTA LUZIA À TRAVESSA DE SÃO LUIS

Era pela tarde ensolarada que subia o Caminho de Santa Luzia. Passava pela Igreja e virava na segunda à direita. A placa com fundo negro indicava Travessa de São Luis. A pequena artéria, ainda em pedra era difícil de caminhar. Rodeada de muros altos, casas térreas junto à berma da via ou escondidas em quintais profundos onde sobressaíam fazendas de bananeira, corriolas de pimpinelas ou videiras. Pequenos mirantes alongados por assentos de cimento, davam o seu ar de mistério em cantos de sombra onde vizinhas costuravam, bordavam alguma toalha ou simplesmente deitavam olhares fugidios a que passava no caminho. Nos pequenos degraus, acompanhados por alguns vasos de orquídeas, azáleas, crótons e antúrios, cujas folhas alongadas espevitavam para o Sol, sobressaindo dos cântaros de barro. Nos canteiros de terra seca, nasciam sem lei, estrelícias, jarros ou patas de veado mal cuidadas a implorar água.
Eu empurrava o velho portão de ferro carcomido onde o verde da tinta, à muito mostrava as suas mazelas, quer pela idade quer pela chiadeira onde a ferrugem não perdoava. A minha catequista, aos primeiros sinais de que alguém forçava o gradeamento, esperava-me a um canto do terreiro num minúsculo banquinho de madeira, quase ao nível do solo. Empunhava um velho livrinho de catequese de folhas gastas, amareladas pelo uso de dedos cansados em tirar dúvidas às orações, ladainhas e Padre-Nossos, teimosos Actos de Contrição a que eu persistia em não decorar. A sua idade já muita avançada, a dedicação religiosa e experiência nestas coisas da fé, seria uma derradeira oportunidade de me tornar num discípulo com a minha primeira comunhão em mente, e a iluminação divina de Santa Luzia minha devota paróquia. No entanto, a sua fé não bastava! Precisava antes de um milagre vindo dos céus para que eu encarreirasse de vez nas orações do seu pequeno livrinho. Enfim ninguém é perfeito!

Era nas manhãs de Domingo, após o repicar dos sinos da Igreja de Santa Luzia. Pelo Caminho, paroquianos iam subindo ou descendo, contornando o vasto pátio onde árvores pareciam paradas no tempo. A Igreja com os seus candelabros iluminados, resplandeciam até nos cantos mais sombrios, onde imagens de santos suplicavam orações de paroquianos ávidos. Eu olhava o altar, temeroso como era, às iras dos Céus, dos púlpitos onde sacerdotes prometiam as desgraças do mundo ou os caminhos do Inferno a quem não se penitenciasse. Eu tremia que nem varas verdes com as vozes estridentes nas homilias. Os homens a um canto com chapéu na mão aguardavam aquele final onde a palavra Amém, era o derradeiro suspiro de alívio. As mulheres de véus brancos ou negros, conforme a sua condição, colocavam o seu olhar numa imagem do Redentor, ou no chão de sobrado onde a cera dada na véspera, fazia realçar  o   brilho. Das malas saíam ou escondiam os missais de capa negra onde letrinhas em itálico, traduziam orações do latim. Mas era no final da missa, que os seu súbditos se precipitavam para o largo de calhau rolado, entre cumprimentos e opiniões sobre as últimas novidades da semana, o alívio de que felizmente o mundo ainda não tinha terminado. Entretanto, eu já sonhava com o almoço que viria a seguir, sem lágrimas, sem Padre-Nossos ou Actos de Contrição mal soletrados, o que eu queria era ver de novo o sorriso na cara da minha mãe.                   

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A MULHER QUE PLANTA FLORES DOURADAS

Tem perto de oitenta anos. A fechada curva da sua coluna, as rugas na sua face não enganam. Diz que se sente muito cansada, quando lhe perguntam a idade e o que a faz todas as manhãs subir a íngreme colina, que separa a sua casa da longa baía que circunda a pequena ilha onde habita. Na ilha, vivem aproximadamente quarenta pessoas, todas com mais de setenta anos. O marido faleceu à muito! Desde que casou, à mais de sessenta anos, decidiu fazer daquele pequeno espaço de terra entre o mar um jardim de flores. Para tal, foi plantando marigold de cor alaranjada em longos caminhos de terra, carreiros certinhos, alinhadas, onde nasciam flores vermelhas, amarelas ou roxas. Eram tantas e tão coloridas que chamou a atenção de jornalistas para aquele pedaço de terra tão colorido. Diz que não vende flores, a quem as quer comprar. Prefere vê-las assim em longas linhas paralelas, falar-lhes todas as manhãs, regá-las e manter a sua mente ocupada, a sua pequena ilha como se fosse um arco-íris de pétalas douradas.  

(Baseado em factos reais.) 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

SOFIA, ENCANTADORA DE HISTÓRIAS


Sofia sorri
Sofia emana emoção, brinca connosco.
Quer ser o centro do universo, quando desabrocha o poema, a história
A expressão facial, um sorriso de criança, o mundo na sala, crianças atentas
E Sofia agradece
Sofia engrandece e se deslumbra em mímica, sons guturais, dúzias de onomatopaicas
Em risos e palmas a lembrar Marcel Marceau

Sofia encanta em cada palavra dada.

A Sofia Maul - Contadora de histórias

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA - Parte 2

Esta fotografia mostra as oficinas do antigo IFAS. Estas, situavam-se na parte interior da Rua do Castanheiro, num vasto pátio circundante dos prédios das Ruas Câmara Pestana, Rua das Pretas e Nova de São Pedro.  
Foto retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira"

Eram assim todos os santos dias! Logo pela manhã, entravam dezenas e dezenas de operários atravessando um pequeno túnel entre a entrada principal e o local de trabalho. Dentro do túnel mal iluminado, estava a porta de pequeno gabinete, talvez mais parecido com uma cabine de controlo dos empregados, onde um encarregado verificava as fichas de presença. Depois os homens para o lado esquerdo (precisamente o mesmo lado onde foi tirada a fotografia anexa) entrava nas esconsas instalações mal iluminadas onde do teto de ripas de madeira, estavam penduradas luzes "alumia mortos". Operários tratavam o vime, molhavam vezes sem conta para que não partisse. aparavam os nós e passavam numa pequena máquina que descascava em tiras. Aqui o vime estava pronto para "encher" garrafas; cestas, pequenos baús, cestos para proteger garrafas de vinho, etc... Do lado oposto, mulheres de todas as idades, bordavam, passavam a ferro tratavam de fazer bolsas em forma de meia-lua. Haviam também casais que se viam forçados à separação, como se fossem desconhecidos dentro do local de trabalho.
Pelas cinco e meia, quando um pequeno apito anunciava o fim da jornada, saíam do túnel e desembocavam na Rua do Castanheiro. Era um imensidão que descendo a referida artéria, se cruzava entre si. Os tais casais desciam dando a mão, jovens raparigas acompanhadas de namorados, idosos que se arrastavam, uns que coxeavam, outros sem um braço. ao chegarem junto à Papelaria do Colégio, separavam-se uns para a esquerda em busca do autocarro de São Gonçalo, (naquela época, os autocarros de São Gonçalo tinham o seu terminus junto ao actual Palácio da Justiça) outros caminhavam rumo a casa. Fazia-me impressão em especial um casal que morava lá para os lados da Boa Nova. Ele com um bordão parecia remar e a mulher completamente cega, amparava-se como podia tentando guiar-se no atravessar as passadeiras ou esperando na paragem. Era a tristeza do Castanheiro! Saindo de tocas, os cidadãos menos afortunados que não tinham apoios do Estado, mas tinham um reles trabalho, que não não tinham reformas, mas conseguiam ter algo para comer, viviam como podiam sem lamentações, de olhos encovados olhando o basalto do chão.
E continuo a ter visões perseguindo-me no tempo.   

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA NA RUA DO CASTANHEIRO - Parte I

Rua do Castanheiro, antigas instalações da Comissão Distrital de Assistência da Madeira e IFAS, Instituto da Família e Acção Social da Madeira. Actualmente neste edifício recuperado encontra-se um hotel.
Fotografia retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira".


A Rua do Castanheiro era uma artéria funchalense "sui generis"! Nos anos 60' do século passado, a Rua tinha como principal característica, do seu lado esquerdo até ao cruzamento da Rua dos Netos e Rua Nova de São Pedro, pequenos refúgios a que não posso chamar de quintais, antes pequenos pátios empedrados que serviam de "refúgio" ao estacionamento de veículos, de pequenas oficinas, casas de bordados e de vimes. Do lado contrário, o comprido muro que circundava o quartel militar colado à Igreja do Colégio.

Era muitas vezes logo pela manhã que ficava na varanda, a ver todo aquele movimento. Conseguia espreitar o que se passava na parada. Os soldados marchavam e contornavam o recinto, vezes sem fim. De vez em quando um graduado batia nos soldados rasos, obrigando-os a acertar o passo, chamando nomes ou ameaçando-os. Confesso que apesar da minha pouca idade, ficava um pouco enervado ao ver chicotear quem não cumpria zelosamente ordens superiores. Depois, agrupamentos marchando sem parar, saíam pela porta superior, onde entravam e saíam veículos militares. Camiões com equipamentos, transportando soldados aconchegados como sardinhas em lata, rumo a outros locais. Outros saíam, desciam a Rua do Castanheiro, a Avenida Zarco e seguiam em "manobras" até à Avenida do Mar ou ao Palácio de São Lourenço. Depois, haviam as tradicionais paradas militares em dias de juramento de bandeira, geralmente destinadas ao Largo do Colégio, local privilegiado com direito a palanque, onde diversas entidades davam o seu "amém", o apoio do regime, as altas individualidades da época,  faziam juras e mais juras com a "benção" de um qualquer bispo que prometendo o paraíso, encomendava-os para a Guerra Colonial. Eram horas amargas, com o destino marcado num qualquer navio da Companhia Colonial de Navegação e/ou Nacional. No Cais da Pontinha, soldados faziam as suas despedidas sempre muito rápidas aos familiares, tudo sob a supervisão de superiores, de Pides e Polícia Militar. E eu assisti a muitos casos... Mas o mais dramático e traumático, foi ter assistido a jovens que se atiravam borda fora completamente desesperados, tentando a tudo o custo fugir ao controlo.                

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O DIA QUE NUNCA DEVIA TER EXISTIDO

Hiroshima 

Ontem, passaram 72 anos após a deflagração da primeira bomba nuclear. Assisti a uma parte das comemorações diretamente da NHK a televisão japonesa. Alguns discursos, pedidos de preces pelas vítimas e longos documentários. Este dia, deveria ser relembrado em todos os países como o dia que nunca deveria ter existido, o dia em que os homens deixaram de ser humanos, o dia que é o mais vergonhoso da sua história. Para além de muitas opiniões, assisti a uma entrevista com o bisneto do presidente Truman, condenando o lançamento da bomba nuclear, japoneses antigos sobreviventes que dialogavam com americanos e vice-versa tanto no Japão como na América. Junto ao Memorial, crianças brincavam, adultos contemplavam as ruínas causadas pela devastação ou circundavam o jardim, onde placas identificavam fases do desastre. No Museu das vítimas do Holocausto, fotos duras e comoventes, mostravam cenas impressionantes. Uma jovem sobressaía numa fotografia. Tinha, no seu pouco tempo de vida que lhe restou, feito dezenas de origamis, símbolos da amizade e da paz entre os povos. Uma lição de vida!
   Resultado de imagem para origamis

segunda-feira, 31 de julho de 2017

AZUL ELZELINA EHLERS

Agora que se encontrava reformada, levantava-se bem cedo e desfrutava do seu pequeno quintal com vista para o Mar do Norte. Abria o guarda-sol com riscas coloridas, sentava-se na sua mesa de ferro pintada de branco imaculado, tirava a sua caixa metálica de aguarelas, os pinceis e as folhas de papel Canson. Depois, deixava-se embalar pelas ondas de espuma, pelos sonhos de Hemingway, de lutas de marinheiros, de viagens tropicais em navios de cruzeiros. Da sua casa triangular a lembrar as casa típicas de Santana, via o movimento no porto, as pontes móveis que ora subiam ora desciam, acompanhando o tráfego marítimo. E desenhava navios belos como o “France” ou o “Queen Elizabeth” com minúcia ou aguadas sempre muito coloridas. Queria a própria vida sempre colorida, confidenciava-me várias vezes. Eu acreditava na sua palavra de maruja, quando aportava a Bremerhaven, sempre Bremerhaven Stadt am Meer. Tinha curiosidade em saber da minha predilecção pelos faróis da costa, e a Ilha de Sylt ou de Helgoland, enquanto pedia-lhe para pintar “Funchais”, navios do passado, âncoras e cabos. E das folhas A3, navegavam e navegavam entre ondas revoltas, pintas de azul cobalto, azul ultramarino, sempre aquele azul anilado entre vagas e mais vagas. Um dia, pôs-se a caminho! Ou melhor, embarcou num Queen, atravessou Atlânticos para cá e para lá, desfrutando o que lhe restava da vida, como se a vida dependesse dos portos por onde passava. Depois resolveu descobrir Lisboa e na mesmo noite, queria ver a Torre de Belém, em diversas horas do dia, os tons coloridos do Tejo, as velas brancas dos iates, e partia de novo. Voltava à sua cidade do mar, ancorava como navegadora solitária ao cais do seu quintal e entre telas e navios, deixava-nos atónitos para sempre.  

Elzelina continua viajando, cruzando oceanos de azul. Obrigado pelos "Funchais" coloridos de espuma.