domingo, 20 de abril de 2008

INTERROGAÇÃO

INTERROGAÇÃO
Para quê?
Tanta ansiedade, tanta margura
Se revolve em meu peito?
Tanta dor tanta doçura
Duma recordação
Que o tempo não apaga.
Tanto querer
Será meu castigo?!...
Aquele louco olhar
Que ao meu se prendeu
Num desafio?
Oh coração porque bates
Porque não estalas de dor?!...
Bem vês que é loucura
Ter ilusões!
Saudade! Ah saudades
Da sua voz querida
Da visão que me prendeu
Deixando a alma cativa
Mas rendida

A OUTRA ANDORINHA SINHÁ

Aguarela CAM
O Gato Malhado, andava cabisbaixo
triste e obcecado, por ver a Andorinha Sinhá saltitando
de ramo em ramo, feliz e despreocupada. O Gato suspirava poder um dia, voar tão alto
como a sua amiga: ... conhecer novas terras, novos amigos... como deve ser feliz a Andorinha Sinhá!
E, dava ais a tarde toda, como se toda a sua nostalgia, fosse o não poder voar.
Enganava-se! Toda a sua melancólica visão, não
passava de paixão... Isso mesmo! Paixão!... Estava completamente doente de amor!
Pensava falar com a Andorinha e desabafar tudo
o que lhe vai na alma. A Andorinha, ao saber o segredo do amigo, gozou a bom gozar...
- Gato é sempre inimigo! dizia
- Onde já se viu semelhante desaforo?!
O Gato ia perdendo o apetite, ficando cada vez
mais mirradinho e doente. Então certo dia, a Andorinha cheia de pena,
foi visitá-lo. Reconfortou-o! Falou-lhe! Aconselhou-o! Coisas da vida.... nada poderia fazer
Que procurasse outra companheira, uma amiga que o amasse
e o fizesse feliz! Levantou-se de mansinho, deu um beijo doce e puro
no Gato apaixonado e voou...
O Gato Malhado desde esse dia, ficava cada vez mais doente. Passava
as tardes ao sol, cochilando baixinho:
- Só posso amar a Andorinha Sinhá!... E suspirava ais de fazer dó
Que, de tanto sonhar acordado
morreu um dia um Gato Malhado, de AMOR
Carlos Monteiro
(Baseado no conto O Gato Malhado e a a Andorinha Sinhá - Jorge Amado)

sábado, 12 de abril de 2008

LE HAVRE ... et il arrive!

Le Havre - 12.04.2008
Mon ami Daniel Baccara envoie ce message:
Cher ami Carlos,
Merci pour les photos. Funchal est arrivé ce matin avec plus de 2h de retard. Il a subi une tempête dans le golfe de Gascogne avec des creux de 7m. et il a débarqué 2 blessés au Havre.
Je vous envoie quelques photos de ce matin. Demain j'aurai des photos prises en mer depuis le bateau-pilote.
Amitiés à vous et famille
Daniel

Em breve terei "online" fotos actualizadas de França sobre o navio Funchal, no meu site
http://shipsinsulana.planetaclix.pt

DRAGOEIRO À JANELA

Dragoeiro na estufa da Quinta das Cruzes- Foto CAM - do lado esquerdo a janela de casa
Velho dragoeiro que vigias a minha janela,
guardas os meus sonhos na tua frondosa copa.
Brincas comigo às escondidas!
Mas dos tapa-sois verdes, engano-te
e não dou por nada.

ASTOR PIAZZOLA NO MEU JARDIM

Aguarela CAM-2008
Numa tarde de Verão, fomos buscar o velho gira-discos e deitados na relva sonhamos ao som de Astor Piazzolla

PIAZZOLLANDO EN MI JARDIN
Tarde de Verano
En la gracia del cielo azul
cantamos boleros!
Te lanzo una mirada, al canto de tus ojos,
tan lejos soñamos, bravios bezos
en bardos verdes, te llamo en tu canto
dulces recuerdos a tu lado,
momentos de encanto.
En mi jardin, viejos tangos tócan, Carlitos
sin fin, y después bebemos tazas de cafe, escuchamos
poemas de Luis Borges y Mercedes Sosa. Quiero
morir de locura en tus brazos, que el reloj siga mis pasos.
Eternos boleros
dicen que sin ti no puedo vivir, y sin tu amos no soy nada...
Tarde de Verano
El la gracia del cielo azul
Toca Piazzola para nosoutros,
Tienes sabor de cafe en tus labios, negro disco si parar
toca canciones de cellos.
Astor Piazzola toca en mi jardin, contigo a mi lado
Y es mi mundo así !...

quinta-feira, 10 de abril de 2008

O Traço de Niemeyer - 100 Anos de Vida

O TRAÇO DE NIEMEYER



Deus Fez o Homem,
O Traço Niemeyer!

De plantas e alçados
Ergueu-se Brasília, rasgou-se
Horizontes, de linhas rectas, curvas
Rezam para o céu . Da grafite,
Nascem projectos, cidades, casinos, hotéis.
Em Niteroi voam objectos. Do traço
De Niemeyer nada é impossível.

E Deus dos altos céus, espreita e pensa:
- Deixai Niemeyer brincar!


quarta-feira, 9 de abril de 2008

Funchal a caminho de Le Havre

Foto CAM - shipsinsulana.planetaclix.pt
Navio Funchal saindo o Tejo em 09.04.2008, rumo a Le Havre
"... et mon coeur bat plus fort."

domingo, 6 de abril de 2008

Um artista de Bolos do Caco

O Senhor Manuel dos Bolos do Caco

Sempre tive uma profunda admiração pelos artistas culinários. Entre eles, o Senhor Manuel Faria faz parte de um conjunto de pessoas que através dos seus conhecimentos, deram mais sabor às nossa vidas.
Era um espectáculo vê-lo aquecer o fogão a lenha, preparar a farinha, bater a massa, e posteriormente fazer círculos com 3 ou 4 centimetro de expessura, para confeccionar os famosos bolos do caco. Finalizava arredondando na chapa de ferro, os bolos para que uniformemente a massa ficasse tostada mas não queimada.
Depois de prontos, colocava-os em cestas de vime longitudinais, em camadas tendo sempre o cuidado de forrar o cesto com toalhas meticulosamente alvas, e abafá-los q.b. com uma flanela mais espessa.
Ao fim da tarde, era vê-lo calcorrear o Cais da Cidade ou a Avenida do Mar, ou então junto ao Palácio da Justiça, terminal dos Autocarros da Companhia de São Gonçalo. Tinha os seus clientes habituais em certas zonas da cidade. Quando passava por mim, tinha sempre um bolo para me oferecer!
- Este é para o menino!... Era a sua maneira de mostrar afecto, pois conhecia-me desde o dia em que nasci.
Os anos foram passando, a sua saúde mais débil e a diabetes, faziam com que tivesse problemas de visão. Mas quando me encontrava, continuava a tratar-me como se fosse seu filho.
Por vezes dou comigo a sonhar com essas maravilhosas pessoas que já não estão entre nós. Uma profunda nostalgia atinge-me! Uma sensação de tristeza, abala a minha fragilidade. Tenho saudades dos seus maravilhosos pães, dos bolos do caco, cavacas broas e bolos de mel, com a qualidade dum mestre. O Senhor Manuel dos Bolos do Caco, é por si só o reconhecimento do seu valor, do seu amor.
Era vê-lo feliz, depois de esgotar num ápice tudo o que trazia nas cestas, rumar para o horário que o levava de volta a casa no Curral. Pedia ao bilheteiro para colocar as cestas nas bagageiras ou em cima do tejadilho, e partia!
Onde quer que estejas, nunca te poderei esquecer. Obrigado Amigo!

sábado, 5 de abril de 2008

A MILANO

MILANO

Linhas perfeitas
Quem embarca na Milano, sonhava
Estar à proa dum qualquer navio da Castle Line,
Vapor do Cabo, como se dizia.
A Milano era um sonho de banheira
De gente do povo a caminho da Costa Leste.
Em dias de mercado, traziam galinhas vivas,
As Marias enjoavam e rezavam pelo Gregório
Maneis trezandavam a vinho abafado e ponchas
Que do lado do Mercado dos Lavradores
“arrumavam qualquer doutor”.

Então, quando a Milano encostava ao cais,
Da amurada, o delírio apoderava-se da velha guarda
Sedenta por espiar os quem chegava e quem partia.
Chapéus surrados dos tripulantes, cansados
De noites em claro, o cheiro pestilento
Do gasóleo, o fumo a sair da chaminé
Vermelha e preta anunciava mais uma viagem.
Então, como por encanto, rajões e brinquinhos
Animavam bailinhos
E namoriscavam-se viloas de “pelo na venta”.
Tiravam lenços castanhos de rapé, e davam lustro a narinas
Embirrentas de tantos espirros.

A Milano era a felicidade!
Bastava pôr o pé na amurada
Para sentir a cabeça pesada. O mar deixava
De ser azul e, todos sentiam um aperto
no estômago, quando lentamente dobrava
O farolim da Pontinha. No cais, fico a acenar
Sorrateiramente dizendo:Byes!

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Calçada do Pico


Meio-Dia! Hora de almoçar!...

Calçada do Pico

(A minha casa)


Meio-dia! Sol impiedoso, castiga cocurutos
Desprevenidos. Na Calçada, odores de almoços
Requintados temperos, Maria donas de cozinhas,
Sinhás devotas, segredos nas colheres de pau.

Meio-dia! Meninos de sacolas, correm
Em busca do mundo, voam
Agarrando o futuro.
- Lá vai o Juca, rei dos moleques, sabor a felicidade.
Como é mágica a minha ladeira. Corpos exaustos, suores ofegantes
Cheiros de leiteiros, distribuidores de bons-dias, cansados
Batentes de portas. Rostos curvados, ponteiros oprimidos
No relógio das igrejas, monocórdios tiquetaques,
Desembucha a sirene dos bombeiros anunciando:
- Meio-dia! Meio-dia!
- Panela cheia, barriga vazia!

Nos passeios, lilazes flores de jacarandá, formam
Tapetes, pássaros sossegam pipios. Nas vendas, perfumam-se
Sumarentas papaias e bananas de S. João…
- Meio-dia? Quem diria?!
Nos estômagos mais afoitos, desejam desvendar
O conteúdo das fumarentas panelas ou peixes-espada
Postos a fritar.
E depois, que felicidade sentir o raspar
Das chaves na porta da rua, gritar para te beijar, olhos
Doces de criança a dizer-te muito baixinho…
- Anda vamos almoçar!.......

Quinta das Cruzes




Jantar Anual de 16-1-1915





quarta-feira, 2 de abril de 2008

Palmeira do meu jardim


Palmeira do meu jardim
(esboço de palmeiras de Max Römer)



Pela breve brisa
Que atravessa as tuas folhas, espreitam
Tardes de Verão. Céu
De anil e, eu descanso siestas. Arrastam
Sons do Caribe
Nos braços dos palmeirais.
Sonhos quentes! Transparente
Os ponteiros do relógio correm inquietos para nada.
Cheiros de jasmim, horizontes de saudade
Pássaros improvisam rumos
E a casa silenciosa, agradece
Ao vento, a tarde indolente
Vazia!

Palmeiras do meu jardim, folhas que se abraçam
Danças inconstantes, horas a fio. E eu do alto
da janela, petrificado
do imenso estio, digo
solilóquios, que és minha!
Gelosias verdes venezianas, o Sol
Lança o seu olhar brilhante,
palmeiras cochilam. De longos abraços
de sussurros gentios,
chegam melros pretos, esgravatando a relva, e
da terna tarde se faz noite.
Imensa!