sábado, 24 de abril de 2010

O SENHOR BARROS E AS SUAS ARARAS

Junto à janela da antiga Casa de Colombo, uma das araras da Quinta das Cruzes
Perco-me no tempo, quando tive o prazer de conhecer o Senhor Barros. O mais certo, deverá ter sido quando mudei para a Calçada do Pico e fiquei a seu seu vizinho, em meados dos anos 60', do século passado!
Era ele que tinha por incumbência garantir a segurança, controlar todo o pessoal que cuidava dos jardins, e todo um sem fim de tarefas dignas dum verdadeiro senhor da Quinta-Museu. Abria e fechava os portões, tanto do lado da Calçada, com do Largo das Cruzes, quem ligava a iluminação, e quem tinha aquele carinho por carregar todas as manhãs o T metalizado onde as duas araras deliciavam pequenos e graúdos, estrangeiros curiosos e demais visitantes. Como as aves dormitavam junto à casa onde habitava, podia ouvi-las logo pela frescura da manhã, "arrastando" os seus cânticos pelo jardim. Então, quando o Senhor Barros aparecia na curva do verde bucho, começava o ritual de dança, subindo e descendo o ferro onde se empoleiravam batendo as asas multicores. Pelo lusco-fusco, era o inverso do passeio para resguardar as araras da chuva e da humidade nocturna. Da minha janela, podia vê-las com as cabeças inclinadas, olhando de relance e com ar provocatório quem tentava imitá-las nos seus gritos. Por vezes, entrava a convite do amigo Barros e visitava-as longe dos olhares dos visitantes, do buliço quotidiano, mais pela calada da noite quando os jantares já fumegavam nas cozinhas. Foi a sua esposa, quem um dia após tem comprado uma máquina de tricotar me fez uma camisola de lã. Foram eles que viram a minha birra de primeiro dia de escola, as diversas etapas da minha adolescência, os meus momentos de paixão sentados nos verdes bancos de madeira, quem se despediram de amigos e familiares em dias tristes. O Senhor Barros eram um óptimo conversador, conhecedor de arte, e verdadeiramente apaixonado pelo seu "quintal" como dizia! Agora e apesar de já ter partido rumo ao infinito universo, continuo a visualizá-lo quando passo pelo portão da Quinta, dando-me os "Bons-Dias"! Talvez por isso continue a gostar tanto das aves que deram vida àquele espaço verde, e recorde com nostalgia a sua voz delicada de um homem que deu todo o esforço de uma vida à Casa Museu Quinta das Cruzes.

ACROSS THE UNIVERSE- John Lennon- Ravi Shankar

Nothing changes my world

sábado, 17 de abril de 2010

O PESO DA INFÂNCIA

APITOS NO TEJO
Eram precisamente 7h30' deste sábado quando acordei com três longos apitos do navio "Empress". Meio ensonado, abri os olhos tentando descobrir onde estava. A primeira reacção era a de estar no Funchal. O meu cérebro foi buscar ao sótão de recordações, o som de um navio a apitar. O ar mais condensado de humidade e o pouco barulho do tráfego neste dia, fez com que se fizesse notar aquele paquete a entrar o Tejo. Fiquei imóvel a tentar decifrar que aquele som me era ainda mais familiar. Então, comecei a pensar que navio tinha conhecido com o mesmo tom e, não me enganei ao descobrir que o navio português "Infante Dom Henrique" tinha muitas semelhanças. Achei fascinante ainda hoje saber que um simples som de sirene pode reavivar memórias. E fiquei nos meus lençois a sonhar como o poder da mente pode ter sobre os nossos sentidos.

BAILINHO DA MADEIRA by PERCY FAITH ORCHESTRA

Nada melhor neste fim de semana florido, do que ouvir este trabalho discográfico da grande orquestra do canadiano Percy Faith interpretando o tema "MADEIRA", incluído no LP "Passport to Romance". Soberbo!