segunda-feira, 28 de junho de 2010

NOVO LIVRO DE HELENA MARQUES


Um novo livro da escritora madeirense Helena Marques, será colocado à venda no próximo dia 18 de Julho. Com a chancela da Edições D. Quixote, e o titulo "O BAZAR ALEMÃO" é um romance passado na 2ª. Grande Guerra na cidade do Funchal. A sessão de autógrafos está ainda por anunciar!  

segunda-feira, 7 de junho de 2010

RUA DAS PRETAS OU RUA DAS MORNAS

Foto do blogue funchaldailyphoto.blogspot.com - Paulo Camacho

RUA DAS PRETAS OU RUA DAS MORNAS



A pequena e tortuosa rua do centro da cidade do Funchal, era durante a semana bastante movimentada. Para além dos seus estabelecimentos de pequeno comércio retalhista, alguns eram sui generis. A citada via, começa no Largo da Igrejinha e desagua no Largo de S. Pedro. Bem no começo da Rua das Pretas existia a famosa Salsicharia Bach, com porta aberta também para a Rua da Carreira. Nesse estabelecimento, deliciava-me a comprar patés, enchidos ou manteiga quando havia dinheiro para adquiri-los. Ali se instalou o primeiro supermercado na Madeira. Estávamos na primeira metade dos anos sessenta do século passado, e este acontecimento foi muito importante na época. A compra de produtos frescos a horas pouco comuns, para quem não podia ir ao Mercado dos Lavradores, ou a introdução de produtos alimentares que até então, não eram primordiais, passaram a fazer parte das nossas vidas. Do lado esquerdo, abriram-se residenciais. Do lado direito, a Casa Martins; a Pastelaria Íris; os estabelecimentos Brendle com a sua maquinaria “Made in Germany”; a Casa da Covilhã e os artigos em lã provenientes da zona da Serra da Estrela; a lavandaria Donini e uma série de outras pequenas lojas, como a Casa Campos; a Casa Electro-Radio; a Confeitaria Felisberta ou os estabelecimentos e Casa de Bordados junto à Igreja, bem como o Restaurante e snack-bar São Pedro. O movimento de veículos era intensíssimo durante a semana, quebrado somente aos Sábados e Domingos por uma calmaria desusada.

Ao final das tardes de Domingo, e depois do calor abrandar um pouco mais, era a hora do chamado passeio dos tristes. Ir até ao Cais da Cidade ou percorrer a longa Avenida do Mar, subir a Avenida do Infante até às imediações da Quinta Vigia. Mas dizia eu, que ao descer a Rua das Pretas, existia a já citada Lavandaria Donini (não sei se ainda existe este estabelecimento!!!). Por vezes ficava, imóvel, a olhar a maquinaria no interior da loja. Aquela azáfama de colocar peças de roupa por buracos metálicos que mais pareciam escotilhas dos navios ou escafandros de Cousteau. Ao Domingo, as máquinas silenciavam! A rua silenciava, as pessoas falavam num tom mais baixo, a pressa dava lugar à indolência, ao passeio higiénico, ao mostrar as roupas domingueiras, as últimas tendências da moda como se dizia. E eu encantava-me, por vezes parava entre os veículos, para escutar as senhoras já uma certa idade que por cima da lavandaria, cantavam e encantavam com a sua voz quente de Cabo Verde. Seria uma família de lavadeiras oriundas daquele arquipélago que nas suas “mornas” choravam saudades da sua terra, saudades de Cabo Verde distante. Estas mulheres que abandonaram as suas ilhas em busca de um futuro melhor, refugiavam-se nas canções harmoniosas das “mornas e coladeiras”, para despejarem a dor do seu passado. E como eu adorava ouvi-las cantar!…