quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A ÚLTIMA VIAGEM DO COMANDANTE TOLENTINO ANDRADE

Foto do Comandante Tolentino Andrade - D.Noticias do Funchal

A última viagem do Comandante


Desde a infância que me lembro de ver o Comandante Tolentino Andrade no Cais da Cidade, a conversar ou a dar a sua opinião aos antigos marinheiros das lanchas ou dos pilotos do Porto. Vezes sem conta, via toda a azáfama das manhãs, tardes ou noites que o movimento portuário criava. Desde os lança-cabos, os agentes de navegação na velha “Mosquito” ou o ronronar dos  “Ponta do Garajau” ou “Cabo Girão”, davam para me manter agarrado às verdes amuradas no velho cais, durante horas a fio até o meu estômago reclamar que estava na hora do almoço. Eu ancorava  diariamente pela fresquinha das 9 horas matinais em busca de sombras no horizonte ou iates que acabados de chegar, deitavam as pequenas ancoras e procuravam abrigo. O Comandante chegava e metia conversa com velhos lobos do mar. Cheirava aquele sabor a maresia, o ar límpido, aqueles raios de Sol a ferir a vista vindos de Este. Sentia-me um pequeno marujo enferrujado à amurada. Sempre que havia navios da Insulana no porto, era certo e sabido que estaria a bordo do “Funchal” ou “Angra do Heroísmo”, que deitaria uma olhadela aos sacos de caramelos vindos das Canárias, às caixas de folha circulares com bombons da Mackintosh estampadas com as figuras de um soldado britânico e uma senhora de cor púrpura. Na parte inferior, o slogan “Quality Street”. 

Mas falava eu no velho Comandante conhecedor de meio mundo, de navegar pelos sete mares, de grande contador de histórias, daquelas que só os grandes escritores tinham coragem de colocar no papel, e acima de tudo do seu vasto espólio que durante décadas sem fim continuavam arquivados na sua memória.

Fez agora precisamente um ano que nos encontramos no Hotel Madeira. Estivemos presentes numa Conferência sobre “O Futuro do Transporte Marítimo na Madeira”. Na mesa de honra, reconheci-o de imediato. Era o mesmo Comandante da minha infância! Sereno, confiante, sonhando tempos passados, viagens pela Terra Nova, cruzando oceanos.

Faz hoje uma semana que se despediu do mundo. Partiu para a derradeira viagem, o derradeiro mar, aquele cheiro a salitre que os navios adquirem no seu interior de tanto navegarem. Quantas histórias ficaram por contar, quantos sonhos por concretizar, levados nas águas mansas da baía. O seu olhar fitando o horizonte, colocando a mão direita sob a testa, perdurará durante anos no velho cais da cidade. Na minha memória estou vê-lo descer a íngreme calçada a caminho do seu mágico mundo azul.