sábado, 23 de outubro de 2010

I left my heart in San Francisco - Tony Bennett

As pedrinhas do jardim ainda lá estão à minha espera... Se quiser comprovar, basta clicar na foto e poderá vê-las, redondinhas pelo tempo, gastas por serem pisadas, mas as mesmas da minha infância. -  Foto Cam

http://www.youtube.com/watch?v=ryF9p-nqsWw

Do tempo em que não tinhamos TV, o rádio era o único meio de nos aproximarmos do resto do Mundo. O velhinho Philips, despejava músicas através das ondas hertezianas. Pelas noites mal dormidas, pelas insónias do Verão, pelas viagens de Verne ou os livros dos cinco de E. Blyton, pelos desenhos do Walt Disney sorvidos nun ápice, a Voz da América era a doce tentação das vozes de ouro. E lá estavam o Percy Faith, o irreverente e electrizante Elvis, as mágicas canções "Stand by Me"; "I can't Stop loving you"; Blue Velvet, Nat King Cole e "Mona Lisa" Johnny Mathis, o Pat Boone and The Platters "Smoke gets in your eyes" o Bobby Darin e "Dream Lover"ou Frankie e "Strangers in the Night", o Roy Orbisson e "Pretty Woman", The Birds e "Mr. Tambourinne Man" ou os Beach Boys em "Good Vibrations" ou "Light my Fire".
A magia da rádio era divina! Experimentem subir o Cabo Girão ao som de "I Left my Heart in San Francisco" e desfrutem da noite estrelada, do negrume do imenso mar e dirão UNFORGETTABLE

  http://www.youtube.com/watch?v=nitiMG81DRc

Janis é eterna - SUMMERTIME

Janis Joplin é a irreverência da minha juventude, a revolta pelos mais preconceituosos tabus da sociedade dos anos 60'. Aquele viver sem fronteiras foi demasiado para JJ, o tempo demasiado fútil, quase fulminante dos seus olhos (aqui na foto, ainda infantis) em total desprezo pela vida. E a vida fez-lhe a vontade levando-a prematuramente, mas não a sua voz nem as suas canções.  

http://www.youtube.com/watch?v=A27FF2T2z2k

LA FÊTE - by Rodrigo Leão - A Solange en Flandres

LA FÊTE - por Rodrigo Leão
Sempre da minha preferência, Rodrigo Leão tem-nos brindado pela qualidade dos seus trabalhos musicais.

Chére Amie Solange,
Écoutez ce magnifique Fête. Vive la Fête!

http://www.youtube.com/watch?v=4nTBKRGIKQQ

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

UM CAFÉ MATINAL

O CAFÉ MATINAL     (Às minhas colegas do Funchal)


Esta noite sonhei que estávamos a tomar café como de costume na nossa longa mesa comunitária. Eu sei que a Filomena, a Fátima a Clara e a Bernardete encontravam-se em animada “cavaqueira”, contando as últimas da manhã, as últimas do dia anterior ou as últimas acabadas de acontecer. Diria que aquele café da manhã ainda sabia à noite mal dormida, ao acontecimento mais anedótico nas notícias do telejornal. Por isso, quando sentávamos naquele precipício de um banco corrido à beira da copa, os nossos sentidos agrupavam-se em conversas mais ou menos barulhentas, quiçá levianas das vidas pessoais. Cada um, como cada qual tentando ouvir-se em longa chinfrineira, causas de acordos e desajustes de opiniões pessoais. Aquele café da manhã, sabia a bica retardada, a desilusão de amor, a fracasso sem sentido. Depois, a chegada da directora arrefecia os ânimos. Cada um entregava-se à sua tarefa diária. E lá vinham as eternas promessas que nos nossos pensamentos acalentavam sonhos dourados. Não fossemos nós seres humanos cheios de pródigos paraísos.

Esta noite sonhei que tomávamos café juntos, como se todo este tempo não tivesse passado, não fosse tempo do tempo e as vozes das amigas e colegas ficassem no ar, aquele tom de voz, aquele olhar mais terno, aquele sentido de vida que em cada xícara de café atormentava o nosso paladar. E não havia pacote de açúcar que aguentasse!...

Eu sei que gastam o tempo a ler as minhas palermices, mas que posso fazer, quando diariamente continuam a juntarem-se para o seu café matinal, longos anos a fio, como se o tempo se mantivesse na longa curva da juventude, na mesma mesa comunitária de tampo branco, em animada algazarra. E o café ainda terá aquele travo a madrugada mal dormida, a cigarro apagado esquecido num cinzeiro qualquer.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

AOS AMIGOS - FERNANDO PESSOA

"Um dia a maioria de nós irá separar-se.


Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,


das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,


dos tantos risos e momentos que partilhámos.






Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das


vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim...


do companheirismo vivido.






Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.






Hoje já não tenho tanta certeza disso.


Em breve cada um vai para seu lado, seja


pelo destino ou por algum


desentendimento, segue a sua vida.






Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe... nas cartas


que trocaremos.


Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices...


Aí, os dias vão passar, meses... anos... até este contacto


se tornar cada vez mais raro.






Vamo-nos perder no tempo...






Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e


perguntarão:


Quem são aquelas pessoas?


Diremos... que eram nossos amigos e... isso vai doer tanto!






- Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons


anos da minha vida!


A saudade vai apertar bem dentro do peito.


Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente...






Quando o nosso grupo estiver incompleto...


reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.


E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.


Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes


daquele dia em diante.






Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a


sua vida isolada do passado.


E perder-nos-emos no tempo...






Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não


deixes que a vida


passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de


grandes tempestades...






Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem


morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem


todos os meus amigos!"

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A NOVA HISTÓRIA DA CAROCHINHA

Era uma vez uma carochinha que um belo dia andava a varrer a casa e encontrou uma moeda nova. Bem, não era pro- priamente uma moeda, mas apenas um papelinho, chamado Tratado de Maastricht, que dizia que, se ela se portasse bem, um dia podia ter a moeda única. A carochinha ficou muito contente, vestiu o seu melhor vestido e pôs-se à janela a cantar:

- Quem quer casar com a carochinha, que é formosa e bonitinha?
 
Passou por ali naquela altura um leão, chamado Cavaco, que disse: "Quero eu! Quero eu!" Mas o leão rugia muito alto, e garantia que para ter uma moeda única era preciso trabalhar, ter competitividade e vencer o desafio europeu. A carochinha respondeu:
 
- Ai que voz essa? Com tanto barulho não me deixas dormir! Contigo é que não quero casar!
 
O leão foi-se embora, voltando para a sua universidade, e a carochinha tornou a cantar:
 
- Quem quer casar com a carochinha, que é formosa e bonitinha?
 
Passou então um pato chamado Guterres, que disse "Quero eu! Quero eu!" O pato Guterres tinha uma viola e cantava muito bem sobre diálogo, coração, paixão da educação e outras coisas lindas. Foi então que veio a notícia de que a carochinha tinha sido aceite na moeda nova, o euro. Ficaram os dois muito contentes e, como estavam mesmo a planear casar-se, o pato comprou um grande caldeirão.
 
Durante um tempo os dois pareciam muito felizes mas, como o caldeirão tinha um furo, o pato gastava cada vez mais dinheiro para o encher e começaram a endividar-se nas mercearias das redondezas. A dívida externa da carochinha, que era de 8% do PIB quando o pato chegou, já ia nos 50%. Então o pato fugiu. Diz-se que foi cantar para a ONU, e de vez em quando ainda se ouvem as suas músicas na televisão.

A pobre carochinha, com a moeda única e a dívida do caldeirão a subir, foi de novo pôr-se à janela à procura de marido, cantando a sua canção. Nessa altura passou por ali o coelho Barroso, muito saltitão, que disse "Quero eu! Quero eu!"
 
Quando viu a situação, o coelho Barroso achou que a carochinha estava de tanga e começou a rugir como o leão. Só que agora, como de qualquer maneira não conseguia dormir de aflição por causa da dívida, a carochinha lá se conformou com o barulho, desde que se fizesse alguma coisa para resolver o buraco no fundo do caldeirão.

O coelho até tinha bons planos, mas um belo dia passou por ali uma carochinha belga, muito bonita e muito rica. Ela e o coelho apaixonaram-se e fugiram juntos, deixando a carochinha outra vez sozinha com a moeda única e o caldeirão. E já voltou a pobre à janela e à sua canção.
 
Até que passou por ali o belo galo Santana, que cantava muito bem. Só que o pai da carochinha, que não gostava nada de galos, expulsou-o rapidamente e eles nem tiveram tempo de conversar.
 
Mais uma vez a pobre carochinha teve de regressar à sua janela e à sua canção, enquanto a dívida externa do caldeirão já ia nos 65% do PIB. Passou finalmente o José Ratão, que disse logo que resolvia tudo. Este não rugia, como o leão ou o coelho, nem cantava, como o pato ou o galo. O que ele fazia era falar. Falava, falava muito. Tinha imensas ideias excelentes. Dizia que a solução era o Simplex, as reformas da administração pública, Segurança Social e outras coisas, e até ia conseguir tirar do caldeirão grandes obras, como o TGV, aeroportos e auto-estradas, tudo em parcerias público-privadas baratíssimas.

A carochinha ficou apaixonada e decidiu casar-se depressa até porque, apesar da conversa do José, as coisas estavam cada vez pior. Não só a dívida já ia acima dos 100% do PIB, mas na aldeia falava-se de uma vizinha, a carochinha grega, também solteira e com um caldeirão ainda maior, a quem as mercearias já ameaçavam atirar ao lobo FMI. Mas o Ratão sossegou-a, garantindo que a culpa da situação era das agências de rating e que ele resolveria tudo com PEC. Só que, quando se debruçava no caldeirão para tapar o buraco com o terceiro PEC, caiu lá dentro.
 
Assim acaba a história da linda Carochinha que achou uma moeda e do seu José Ratão, que morreu cozido e assado no caldeirão.

César das Neves

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

SE NÃO HÁ ÁGUA...

Se não há água, como pode haver...cultura!
Por - Élvio Sousa, Arqueólogo e investigador

Foi com esta frase, que um agricultor gaulês, interrompeu o discurso do então secretário regional do turismo e cultura, João Carlos Abreu, numa intervenção da sessão solene do aniversário da freguesia.

Estávamos no limiar nos anos oitenta do século XX, e o problema da água de rega era a essência do dia-a-dia do agricultor, também ele fazedor de culturas.


A cultura é uma palavra complexa e tem um sentido abstracto conforme o estrato social que a consome e frui. Para o humilde agricultor, a cultura é sinónimo de sustento, é a sua vinha, as suas semilhas e o seu feijão, que tanto tarda em regar. Daí que a água é o garante da sua "cultura", é o seu "axis-mundi", enquanto houver terra e forças para tirar regos e mantas e, depois, regar.

João Carlos Abreu discursava sobre a riqueza da cultura gaulesa: terra de doutores, de adelos, de padres e de eminentes escritores. "Gaula é uma terra de Cultura", dizia.


Do meio do salão paroquial, interroga o senhor José, agricultor: "Mas, senhor ministro, se não há água, como pode haver...cultura!"

Artigo de opinião do amigo Élvio Sousa publicado no D.N. do Funchal em 13/10/2010

sábado, 2 de outubro de 2010

MIAU! O CAFÉ KIT KAT

Do lado direito da imagem, o Café KIT KAT foi dos mais luxuosos e concorridos da cidade do Funchal. Foi demolido para ser edificado o edificio da Agência Blandy em 1961, a que tive o prazer de assistir à sua inauguração.