sexta-feira, 12 de novembro de 2010

FAUT FAIRE AVEC - 100000 V





Et voilá Monsier Bécaud chante pour vous Solange. Faut faire avec...
http://www.youtube.com/watch?v=afvD6oQKjNg

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ELUCIDÁRIO MADEIRENSE - por Nelson Veríssimo

Quem pretender informação rápida e concisa sobre a Madeira, ou contenta-se com o velho, e ainda útil, 'Elucidário Madeirense' ou desiste do intento.

Isto não significa falta de produção científica. Pelo contrário, muito se tem editado. Mas está tudo disperso. São fontes conhecidas dos especialistas. Os estudantes e o grande público têm dificuldades em aceder a essa informação.
Por ter já abordado esta temática nestas páginas e ser, aliás, tão evidente, dispenso argumentos para demonstrar a importância de uma obra de fácil consulta - dicionário, enciclopédia, dicionário enciclopédico... - para divulgar a Madeira e, principalmente, educar a juventude.
Nos finais das décadas de 70 e 90 do século passado, a DRAC deu ténues passos para a elaboração dessa obra. Em resposta à segunda tentativa, o CEHA prometeu um Dicionário de História da Madeira, ainda não editado.
E, mal comparando, como diz o povo, enquanto aqui dominava a inércia e despontava a "guerrinha de capelas", com bênção de quem não devia, os açorianos trataram da sua Enciclopédia e de uma 'História dos Açores'.
Ficaram os madeirenses a perder, porque, para consulta ligeira ou primeira abordagem, apenas podem contar com o amigo Elucidário, publicado em 1921 e revisto para a segunda edição (1940-1946).
A elaboração de uma obra com carácter enciclopédico é projecto urgente e útil. Como requer tempo, seria a melhor forma de comemorar o Sexto Centenário do Descobrimento da Madeira, tal como o 'Elucidário Madeirense' no Quinto.

Artigo publicado no Diário de Noticias da Madeira, em 02 de Novembro de 2010

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A PASSAGEIRA DE BULAWAYO



A PASSAGEIRA DE BULAWAYO
Era um sábado deJulho de 1976. O telefone toca. Do outro lado da linha, os Serviços do Ministério dos Negócios Estrangeiros através da Embaixada  Portuguesa, solicitavam a nossa comparência no Aeroporto do Funchal. Teriamos de deslocar a tempo da chegada do voo Tap, vindo de Lisboa. A causa de tanto alarido era uma cidadã de origem madeirense que necessitava de apoio para o seu regresso à terra natal. Só tinhamos como referência o nome de Maria Natividade, nada mais!
A sua proveniência era um nome estranho chamado Bulawayo. Confesso que nem sabia onde ficava no mapa a cidade referida, mas consultei o atlas que apontava ser no Zimbabué.
O avião chegou à hora estipulada e após a saída de todos os passageiros, uma hospedeira entregou-nos uma mulher com a aparência de ter pouco mais de quarenta anos. Vinha pela mão da funcionária como se de uma criança se tratasse. Após identificação saimos da gare rumo ao taxi que nos esperava. A mulher mantinha um silêncio profundo, como se acabasse de chegar de outro planeta, perdida no tempo e no espaço. Após muita insistência, perguntamos se tinha familia? - Não! retorquiu. E de onde é? Onde fica a sua terra? São Jorge... Mas de que zona? - Não me lembro...
O taxista seguiu na direcção da estrada do Faial. O Sol era sufocante. Abri o vidro na esperança que a aragem conseguisse atenuar o suor de brilhava na minha face. Ao fim de mais de uma hora de viagem, chegamos a São Jorge. Natividade não reconhecia a sua terra. Problemas vários de saúde, o seu isolamento naquelas paragens africanas, o falecimento dos pais, fizeram dela uma mulher só, triste e com visiveis perturbações psíquicas.
- Então D. Natividade, consegue lembrar-se deste sitio? - Não! insistia.
- Não se lembra destes caminhos? Esta não é a minha terra... dizia!

Confesso que comecei a ficar preocupado com o rumo dos acontecimentos. Como iria resolver aquele problema se não encontrasse ninguém da familia ou que conseguisse tomar conta dela. O carro ia parando nas poucas vendas e tascas da zona na tentativa de identificar através do nome de familia, algum parente. Não!... Nada!

Rumamos ao Arco de São Jorge. Na estrada nem vivalma. Descobri um espaço escondido de uma pequena venda, escura e insocial. O vulto de um homem saiu da parte de trás do balcão, mero tampo de madeira enegrecido pelo uso e quehá muito não sabia o que era água. Soletrei os vários nomes possíveis, até referenciar-me um homem isolado no alto da encosta. Procure lá! dizia apontando com o indicador. Resolvemos subir o íngreme caminho de pedra miudinha. Eu ajudava carregando a trouxa com os míseros pertences daquela mulher que me parecia tão nova e tão estragada pelo tempo. À medida de caminhavamos, olhares indiscretos seguiam a nossa trajectória. De dentro de quintais ou pequenos terrenos agrícolas, vozes silenciavam-se à nossa passagem. Acercamo-nos de um pequeno casebre indicado. Um homem sentado olhava aquela movimentação, desconfiado. A Maria Natividade pela primeira vez, tomou a iniciativa do diálogo, como se ressuscitasse.
- Não és o primo João? O homem ficou boquiaberto! Primeiro a surpresa ao seu reconhecido por aquela alma vinda do fim do mundo. Depois, lentamente e à medida que as palavras corriam, tornava-se evidente que eram correctas a identificação dos nomes de parentes, figuras à muito desaparecidas. Reconheceu a prima vinda de África.
Senti-me aliviado, feliz com o desenrolar dos acontecimentos. Os primos ficaram abraçados a chorar, enquanto faziamos o sentido inverso rumo ao taxi que esperava na estrada.
Durante semanas andei a matutar a cena dos dois primos, das voltas e das pequenas partidas que surgem na encruzilhada de todos nós. Nunca mais soube da Maria Natividade que vinda duma terra com um nome esquisito de Bulawayo, retornou ao Arco de São Jorge, para viver o resto da vida. Talvez tenha recuperado dos maus momentos vividos no Zimbabué, tenho voltado a ser feliz. Quem sabe!...