domingo, 25 de dezembro de 2011

BLUE CHRISTMAS DAY


Photos from Solange in Flandres - Belgium 

A NICE CHRISTMAS DAY FOR ALL MY FRIENDS

terça-feira, 29 de novembro de 2011

UMA DANÇA COM A PROFESSORA JULIANA




 Com muita frequência via-a descer compassadamente a Calçada do Pico ou de Santa Clara. Apresentava já graves problemas de saúde quando parava ou monologava sem sentido para o imaginário. Seriam na maioria das vezes, conversas sem retorno ou então algum transeunte que a incomodava com provocações débeis e idiotas. Estou a revê-la com o peso da idade, do seu corpo volumoso em que sobressaíam as ancas disformes, que lhe conferia um bambolear como se fosse uma lancha em mar agitado. A miudagem escarnecia-a, abusando da sua figura. Mas ela mantinha-se umas vezes serena e confiante, outras, ameaçando com pragas e linguagem de quem se sente ameaçado pelo infortúnio da vida.

Sempre só, aprumada no seu vestir e com muita maquilhagem, “baton rouge” como uma romã, caminhava sem rumo . No entanto aqueles que a conheciam, fosse da zona onde morava nos Arrifes ou antigos colegas de outrora, sorria sempre e cumprimentava com o requinte de pessoa educada. Diziam que tinha sido professora de dança. O que saltava à vista, era a demência psíquica que o tempo não perdoava. Outros invocavam um caso de amor não correspondido para todo aquele desequilíbrio emocional em que os seus monólogos teimavam em denunciá-la. A D. Juliana era assim, figura incontornável duma cidade, cada vez menos hospitaleira cada vez mais afastada da família e da razão.

No entanto, sabíamos que quando se aproximava a época da festa dos finalistas do alunos do liceu, que D. Juliana aguardava com especial emoção. Primeiro, recebia um convite para estar presente nas ditas festas a que nunca renunciava. Nessa altura, procurava esmerar-se no rouge com que sublinhava o contorno dos lábios e da face sobressaiam as rosáceas bochechas, em constante movimento. Depois, descia até ao liceu e ficava à espera que a convidassem para dançar. Então, quando algum dos rapazes fazia como que uma vénia, D. Juliana nem pestanejava, atirava-se para os braços de quem a amparasse nas voltas e mais voltas da música. As meninas ficavam de olhos em bico, perante a destreza dos movimentos, fora de moda era certo, mas eram sincronizados e suaves de quem tinha tratado a dança por “tu”, sem tabus ou medos de cair no ridículo. E como voava D. Juliana emocionada pelos convites que a rapaziada lhe propunha. Uma após outra dança até ao final da festa. Depois, exausta mas feliz regressava ao gheto onde diariamente inventava monólogos indecifráveis e respondia aos mesmos sem sabermos a quem os endereçava.

sábado, 26 de novembro de 2011

TEN YEARS WITHOUT GEORGE HARRISON




TRUE LOVE - WITH GEORGE HARRISON -
TEN YEARS AFTER HIS DEATH

http://youtu.be/Sc01zF6DYXs

LEVADAS DA MADEIRA

Com a devida vénia, publico na íntegra o texto que acompanha as imagens do documentário do Professor Raimundo Quintal, sobre as "Levadas da Madeira".

Caros Amigos / Caríssimas Amigas,

As íngremes escadarias de poios e as levadas são as mais belas peças do património cultural madeirense. Com a construção dos pequenos tabuleiros de solos aráveis e a irrigação das terras mais secas e quentes do sul, sucessivas gerações conseguiram edificar espectaculares paisagens humanizadas, dignas de provocar admiração e impor respeito aos visitantes.

Ainda hoje pouca gente sabe que os túneis mais extensos da Madeira foram construídos para possibilitar a circulação da água do norte para o sul da Ilha, antes de haver farto dinheiro da União Europeia. O maior, com 5100 metros de comprimento, atravessa a cordilheira central entre a Fajã da Nogueira e a Ribeira de Santa Luzia, o segundo, com 4300 metros, perfura a montanha entre a Ribeira Grande de São Jorge e a Ribeira Seca do Faial. Ambos integram a Levada dos Tornos, que totaliza 106 Km de canais principais. Esta obra monumental, edificada na década de sessenta do século XX, foi projectada por competentes técnicos nacionais e construída por valentes operários madeirenses com equipamentos muito mais rudimentares que os utilizados na abertura da teia de túneis rodoviários da “Madeira Nova”.

Em 1991 escrevi os guiões de 6 documentários, com cerca de 30 minutos cada, sobre o sistema de irrigação da Ilha da Madeira.

A série LEVADAS foi exibida em 1992 na RTP-Madeira e em 1993 na RTP-Internacional, tendo sido nesse ano seleccionada para o Guia do Audiovisual Europeu.

Volvidas duas décadas, tomei a liberdade de partilhar convosco as imagens e as histórias de LEVADAS, que realizei com o apoio de uma extraordinária equipa técnica da RTP-Madeira de quem guardo uma gostosa saudade. Aqui fica, para já, o primeiro documentário, intitulado MONUMENTO OCULTO (http://www.youtube.com/watch?v=nSLaUNzLBYk), o único que também foi exibido em inglês (http://www.youtube.com/watch?v=SiAMAubo2TM).
Saudações ecológicas,

Raimundo Quintal

sábado, 19 de novembro de 2011

O CONSUL ALEMÃO EMIL GESCHE

O Consul passando revista aos militares de um vaso de guerra alemão no Porto do Funchal

Diário de Noticias da Madeira de 20/05/1960

"Faz hoje 50 anos, que foi assinado o EXEQUATUR acreditando o Consul da Alemanha nesta cidade.
Fixou residência nesta Ilha em Setembro de 1898 entrando em 1 de Novembro do mesmo ano, ao serviço da Casa de Bordados Wilhelm Marum, então estabelecido na Rua da Carreira, onde hoje está instalada a Farmácia Dois Amigos.

Em Outubro de 1900 foi transferido para a sede daquela firma em Colónia, donde regressou em Abril de 1901, investido nas funções de Gerente, lugar que ocupou até 1907, para depois fazer parte da referida firma como sócio-industrial.

Ligou assim o seu nome ao conjunto de casas alemães que foram percursoras da industria de bordados da Madeira. Como elemento curioso para a história daquela industria registamos o seguinte pormenor:

- O Senhor Emil Gesche e os seus colegas Welly Schnitzer e Georg Wartenberg tiveram a iniciativa de criar para as casas de bordados alemãs existentes no tempo - 6 - uma Caixa de Socorros para o pessoal de bordados através da qual todo este tinha assistência médica e medicamentos gratuitos. O médico desta "Caixa" era o falecido Dr. Carvalho, e para mantê-la, as firmas contribuiam com 50 reis semanais por cada empregado ou operário ao serviço, sem nenhum encargo para estes.

Em Julho de 1909, Emil Gesche fez uma viagem de estudo à volta do mundo e contactou com os diversos mercados, interessando-os na respectiva industria. Visitou a Inglaterra, EUA, Ilhas do Hawai, Japão, China, Macau, India, Egipto, Italia e Alemanha, regressando à Madeira em Fevereiro de 1910.

Nesta sua digressão, ao passar pelas Ilhas de Sandwich, contactou com muitos emigrantes madeirenses, trabalhando nas plantações de cana de açucar e ananazes. As mulheres dedicavam-se a bordar, vendendo aos particulares os seus trabalhos que eram muito apreciados.

O Senhor Emil Gesche teve então também a oportunidade de verificar que em Cantão se fabricavam bordados no género dos da Madeira, mas muito mal executados, especialmente o "bastido" que eram exportados para a América, o mesmo constando em Hong-Kong.

Foi depois de regressar dsta viagem, que foi nomeado Consul do seu país, nesta cidade. Em 1914, consornou-se com a Senhora D. Dorothea Sattler, filha mais nova do antigo Consul Alemão Dr. Georg Friedrich Sattler. A cerimónia do casamento realizou-se a bordo do navio de guerra alemão S.M.S. Hertha, no porto do Funchal, em 16 de Fevereiro. Do seu matrimónio teve 3 filhas e um filho: D. Hertha que é viuva e vive com os seus 6 filhos, na Alemanha; Kurt que em 1939 alistou-se com 18 anos como voluntário na Marinha de Guerra, morrendo com os seus camaradas em 1943, a bordo dum submarino no posto de guarda-marinha; D. Elizabeth, Enfermeira-diplomada por um hospital alemão e que vive em companhia do seu pai, e a  Drª.Melita Gesche, formada em Medicina pela Faculdade de Lisboa, actualmente na America do Norte, estagiando num hospital.

Em 1916 teve que deixar o Funchal depois de Portugal ter entrado na Guerra, seguindo para Espanha onde exerceu as funções de Consul em Algeciras. Terminada a Guerra regressou ao Funchal em 1920, depois de ter visitado a Alemanha. 

Em 1921, associou-se ao falecido Willy Schnitzer, formando a firma Gesche & Schnitzer, que se dedicou ao comércio de importação.

Muito embora desde 1945 até principios de 1957, estar encerrado o Consulado da Alemanha nesta cidade, as instâncias oficiais sempre que necessitavam qualquer informação ou serviço, dirigiam-seao Senhor Gesche, até que em Maio de 1957, foi novamente nomeado Consul da República Federal da Alemanha. 

O Senhor Gesche fez parte das direcções da Associação Comercial do Funchal, do Asilo de Mendicidade e Orfãos, da Associação Protectora dos Pobres, (Sopa Económica)  da Associação Protectora dos Animais Domésticos.

Em reconhecimento dos relevantes serviços prestados ao seu país, foi condecorado várias vezes, a última das quais em Julho de 1959, com a Grã Cruz de Mérito da R.F.A..

Como então noticiamos, na sua recente passagem pela Madeira, o Senhor Embaixador da Alemanha em Lisboa, fez entregar ao Senhor Emil Gesche em nome do seu Governo, duma salva de prata comemorativa do aniversário dos seus 50 anos de serviço em representação condigna da Alemanha.

Ao registarmos esta efeméride quizemos acompanhá-la d alguns elementos da giografia do Senhor Consul Gesche, para melhor poder-se ajuizar das suas afinidades à Madeira, ligando o seu nome à industria, ao comércio, e às instituições da caridade, pormenores que justificam, em absoluto, a consideração que goza nos nossos melhores meios comercial e social.

A  forma correcta de proceder, a fabilidade de su trato e fidalga maneira de a todos receber e atender dão juz ao prestígio de que disfruta nas esferas oficiais do país que tão dignamente representa há já 50 anos.

Como nota final, o consul Emil Gesche faleceu na cidade do Funchal em 1 de Junho de 1966. Quis o destino que no dia do seu funeral, estavam no Porto do Funchal os Cruzadores Deutschland e Ruhr que se associaram à cerimónia funebre prestando as honras militares. O seu corpo foi sepultado no Cemitério Britânico, presidido pelo Reverendo Volker.

Em 1978, tive o prazer de conhecer a sua filha Elizabeth Gesche, então Consul da Alemanha no Funchal, tendo esta oferecido um livro relacionado com a República Federal da Alemanha acompanhado de uma dedicatória. A Senhora Elizabeth presentemente tem 90 anos e vive na sua Quinta dos Cedros, nesta mesma cidade que a viu nascer.

O 1º. Automóvel no Sítio da Ilha - S. Jorge

Arco1.JPG
Foto do blogue
http://lotus2.blogs.sapo.pt/arquivo/003883.html

Transcreve-se a noticia do Diário de Noticias da Madeira, de 3/5/1966. (3ª.-feira)
"O Sítio da Ilha (em São Jorge) recebeu entusiasticamente a visita dos primeiros automóveis que se deslocaram àquela localidade".

- Na última 5ª.-feira deslocaram-se à Paróquia da Ilha, na Freguesia de São Jorge, dois automóveis conduzindo, respectivamente os Senhores Engenheiros João Alberto Silva Henriques da Direcção de Serviços de Urbanização e Humberto Cardoso, Chefe da Secção Topográfica das obras da Junta Geral do Distrito que ali foram em missão de serviço.

Como curiosidade, há dois anos foi inaugurada a sua igreja paroquial. Mais informava de que viviam na época 500 habitantes.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

“Registos Históricos” apresentado no dia 30

O livro “Registos Históricos”, uma colectânea de textos sobre acontecimentos importantes na Madeira, é lançado no próximo dia 30, no Museu Casa da Luz. Com Ximenes Belo a ilustrar a capa, a obra é editada com a chancela da editora O Liberal e pelos Escritores da Madeira. Integram textos de Duarte Afonso, Ana Maria Andrade, Lídio Araújo, Zita Cardoso, Octaviano correia, José Eduardo Franco, Irmã Diamantina Freitas, Manuel Pedro Freitas, João Luís Gonçalves, Emanuel Janes, Maria Benvida Ladeira, Duarte Mendonça, Rui Nepomuceno, Maria Helena Nunes, Constantino Palma, Lina Pestana e Gabriel de Jesus Pita.
Paula Abreu - Jornal da Madeira de 15 de Novembro de 2011



quinta-feira, 10 de novembro de 2011

SÃO JORGE

Arco de S. Jorge

A Associação Cultural dos Amigos de S. Jorge - Madeira, é uma Instuituição sem Fins Lucrativos que desenvolve actividades de índole cultural. Recebe para os seus arquivos todo o tipo de documentos digitalizados que possam servir de referência para as gerações vindouras, nomeadamente fotografias de acontecimentos registados no Concelho de Santana, fotos pessoais ou documentos diversos, receitas gastronómicas, etc. Para isso, basta digitalizar e enviar para:

Também recebe propostas para novos sócios, no blogue 

Façam uma visita e tenham especial atenção à sua GALERIA fotográfica com muito interesse.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MADEIRENSE VENCE PRÉMIO AGUSTINA-BESSA LUIS

O romance "Trás-os-Montes", de Tiago Manuel Ribeiro Patrício, venceu por unanimidade o Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís, no valor de 25 mil euros, disse hoje à Lusa fonte da Estoril-Sol que institui o galardão.

Tiago Manuel Ribeiro Patrício, 32 anos, farmacêutico, é o terceiro vencedor deste prémio que, além do valor pecuniário, garante a publicação da obra através da editora Gradiva.

Na ata do júri, presidido pelo escritor Vasco Graça Moura, a que a Lusa teve acesso, salientam-se "as qualidades de escrita reportadas à dureza de um universo infantil numa aldeia de Trás-os-Montes e à maneira como o estilo narrativo encontra uma sugestiva economia na expressão e comportamentos das personagens".

O Prémio, instituído pela Estoril Sol em 2008 por ocasião do seu 50.º aniversário, distingue um romance inédito de autor português até 35 anos, sem qualquer obra publicada no género.

O júri foi composto ainda por Guilherme d'Oliveira Martins, em representação do Centro Nacional de Cultura, José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Gil Loureiro, pela Direção Geral do Livro e das Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e ainda Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual, e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril Sol.

Os anteriores distinguidos foram Raquel Ochôa com "A Casa-Comboio" e que este ano publicou uma biografia da infanta Maria Antónia de Bragança, neta do Rei D. Miguel, e o neurologista Paulo Mourão com "A cabeça Séneca". Em 2008 o Prémio não foi atribuído "por falta de qualidades dos textos apresentados", segundo fonte do júri.

O vencedor deste ano, Tiago Manuel Patrício, nasceu no Funchal, é orientador de um curso de poesia no Hospital Psiquiátrico do Telhal e realiza uma residência artística no Estabelecimento Prisional do Linhó, no âmbito dos projetos EVA (Exclusão -- Valor Acrescentado). Trabalha como dramaturgo com várias companhias de teatro, nomeadamente o Teatromosca (Sintra), Estaca Zero e Ponto Teatro (Porto), para as quais escreveu diversas peças ("Paula Rego", "Hellen Keller", "Snipers" e "Lugares"). A sua peça "Checoslováquia" recebeu a Menção Honrosa no prémio luso-brasileiro de dramaturgia António José da Silva, obra que, em setembro último, foi apresentada no Teatro Nacional D. Maria II, numa leitura encenada.

Tiago Manuel Ribeiro Patrício, 32 anos, vencedordo Prémio Revelação Agustina-Bessa Luís com o romance "Trás-os-Montes",afirmou que começou a escrevê-lo "quando tinha 19 anos" quando tentou melhoria de nota para entrar na Universidade.Por não ter conseguido entrar no curso de Medicina, Tiago Patrício decidiu melhorar a média de acesso e começou a escrever o romance."Foi nesse ano sabático que comecei o meu primeiro romance, onde quis meter tudo, desde a primeira infância até à véspera, com mais de trinta personagens e histórias paralelas dos meus avós e bisavós. Era um texto em que queria justificar coisas, reabilitar-me", contou."Havia muitos diálogos ingénuos e sem fulgor nenhum, mas ficou o substrato daquela tentativa de escrever aos 19 anos um longo romance", referiu. Natural do Funchal, Tiago Ribeiro Patrício considerou nesse ano "aceitávela opção de passar um ano em casa a ler, todos os livros da biblioteca municipal". "Lia três a quatro livros por semana, daquela coleção 'Dois Mundos'[Livros do Brasil], desde Steinbeck, Camus, Hemingway, até Marguerite Duras,André Malraux, Kundera e Vergílio Ferreira, cujo texto 'Aparição', de leitura obrigatória no 12.º ano, intensificou a minha relação com a literatura elevou-me, pela primeira vez, a querer tentar escrever", disse. No ano seguinte voltou a falhar a entrada na Faculdade de Medicina e foi para a Escola Naval "por questões hereditárias". "Quase todos os meus tios passaram pela Marinha de Guerra e, além disso,achava que a única maneira de regressar ao Funchal, a cidade onde vivi até aos nove meses, seria a bordo de um navio", disse o autor. "Durante a infância em Trás-os-Montes, eu era o único que tinha andado de avião, que tinha visto o mar e que tinha nascido fora daqueles 30 quilómetros quadrados em redor da aldeia. Acho que desenvolvi uma certa obsessão pelo Funchal e pela ilha da Madeira e, por vezes, usava isso como ponto de fuga e dizia: 'Eu nem sequer sou daqui, o meu lugar é numa cidade grande no meio do mar e não aqui no meio dos montes'. Mas, apesar de rodeado de terra, Trás-os-Montes foi e é ainda um conjunto de ilhas isoladas". Regressou ao Funchal, aos 20 anos, incorporado na fragata Baptista de Andrade. Na Escola Naval nas "muitas horas de ócio, aproveitava para voltar à escrita do romance e à poesia". "Havia alturas em que escrevia um poema por dia, sempre em soneto", recordou. Em 1999, a "carreira definida até ao fim da vida e com todos os privilégiosde um oficial de Marinha" não se lhe mostrou atrativa e, em finais de 1999,ingressou na Faculdade de Farmácia de Lisboa. Concluiu o curso em 2007,no meio de "muitos projetos paralelos". Em 2001 fez escrita criativa na Aula do Risco e realizou vários cursos de aperfeiçoamento em imprensa no CENJOR, entre 2001 e 2003. Integrou a equipa do jornal Os Fazedores de Letras, de 2002 a 2007, e escreveu para o suplemento "DN Jovem" durante o mesmo período. Faz teatro desde 2000 e foi um dos fundadores do Grupo de Teatro Com-Siso,com várias peças apresentadas de 2002 a 2005. Em 2006, entrou para o Grupo de Teatro de Letras, onde fez formação intensiva com Ávila Costa e com o qual mantém, até hoje, uma estreita ligação. Poemas seus foram publicados nas coletâneas "Jovens Escritores" do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI), entre 2007 e 2010. Deixou entretanto de escrever sonetos e adoptou o verso livre, "depois de ler Fernando Pessoa, Ruy Belo, Mário Cesariny, Herberto Helder, João Miguel Fernandes Jorge e Al Berto". Em 2007, já pai de um filho, fez a sua primeira residência em Praga,através do CPAI, que assegura ter sido "decisiva": "Deu-me a entender que podia viver para a escrita. Mesmo sem saber se seria possível viver da escrita"."Depois da segunda residência em Praga, no outono de 2010, decidi preparar,finalmente, o meu primeiro romance, porque já era tempo e estava na altura de concorrer ao prémio Agustina Bessa-Luis". Quanto ao original que o júri escolheu por unanimidade revelou: "Entre as 400 páginas do manuscrito inicial, concentrei-me no final da infância das personagens e, a partir daí, desliguei-me da história biográfica e tentei dar-lhes a autonomia que eu considerava essencial, para construir uma série de momentos de tensão narrativa e de algum fulgor poético". "Nessa altura já tinha lido mais de dez livros da Agustina [Bessa-Luís]e de [António] Lobo Antunes, já tinha estudado a obra da Maria Gabriela Llansol e analisado quase todos os livros do Gonçalo M. Tavares". Ao lado das referências portuguesas há "os romances curtos de Peter Handke, Ian McEwan, Samuel Beckett, Virgínia Woolf, Clarisse Lispector, Flannery O'Connor e o teatro de Jean-Paul Sartre, Heiner Müller e GeorgeBüchner [que] também ajudaram a tecer as linhas mestras desta narrativa",recordou. "Desde o princípio que tentei manter uma atmosfera densa mas de leitura fluida e apostar numa riqueza formal, com um trabalho sobre a própria linguagem, sem perder a noção de economia narrativa. Porque em tempos de austeridade é necessário poupar nas palavras, mas sem abandonar o tom que seduz o leitore mantém o texto à distância da simples ilustração quotidiana".
D.N. do Funchal de 9/11/2011

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CEGONHAS, BLACK-OUT E FALTA DE PACIÊNCIA

Sempre pensei que as cegonhas traziam os bebés de Paris! Estava completamente equivocado aquando do célebre apagão que se registou em Portugal. Afinal, tinha sido uma cegonha a causa do black-out. Confesso a minha revolta por tamanha afronta de uma simples cegonha. Mas a história não acaba aqui! Vários anos passados, os portugueses veem a descobrir que várias cegonhas querem apagar o Metro de Lisboa.... 
- Duas é demais!... 
Deliciam-se os passarões, aves de rapina que proliferam pelo nosso espaço aéreo nacional em fazerem crer que o Metropolitano só pode andar nesta conjuntura até às 11 horas. Depois, só chichi e cama! Depois das 11, é o black-out institucional. Depois das 11, nem o Trem das 11 pode tocar na rádio. O tempo de antena expirou... Depois das 11, só malandro anda nas ruas do nosso burgo, quem não tem carro, tivesse...
- Três é escandaloso!...
Serem os pacatos cidadãos deste nosso burgo, ludibriados com os estudos recentes feitos por empresas de ranking piratas, pagas pelo hierário público de que teriam de fechar o dito meio de transporte para salvação de todos os males, é anedótico. Portugal poderá num futuro breve ser alvo de autenticas anedotas numa qualquer Wikipédia. Basta que se escreva meia dúzia de disparates do mais burro que há na nossa praça. Uma ministra que suprime o uso da gravata para poupar no ar condicionado, um ex-primeiro ministro que manda os jovens emigrar e agora esta semana um Secretário de Estado da Juventude dinâmico que afirma ser a melhor alternativa para a juventude portuguesa. Será que os filhos dele irão trabalhar no estrangeiro? A lata e o chico-espertismo de politicos sem credibilidade e sem carácter dá nisto, um best-seller anedotário que podemos sempre exportar para Bruxelas. Basta serem persistentes e trocarem por alguma esmola vinda da Comunidade Europeia. Até poderia acontecer que nos perdoassem 50% da nossa dívida por lhes causarmos tanta galhofa.
- Uf! Quem nos vale nesta longa agonia! 

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

HERBSTTAG - Rainer Maria Rilke

Autumn





The leaves are falling, falling as if from far up,


as if orchards were dying high in space.


Each leaf falls as if it were motioning "no."






And tonight the heavy earth is falling


away from all other stars in the loneliness.






We're all falling. This hand here is falling.


And look at the other one. It's in them all.






And yet there is Someone, whose hands


infinitely calm, holding up all this falling.


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Herbsttag  von Rainer M. Rilke



Herr, es ist Zeit. Der Sommer war sehr groß.


Leg deinen Schatten auf die Sonnenuhren,


und auf den Fluren laß die Winde los.


Befiehl den letzten Früchten voll zu sein;


gib ihnen noch zwei südlichere Tage


dränge sie zur Vollendung hin und jage


die letzte Süße in den schweren Wein.


Wer jetzt kein Haus hat, baut sich keines mehr.


Wer jetzt allein ist, wird es lange bleiben,


wird wachen, lesen, lange Briefe schreiben


und wird in den Alleen hin und her


unruhig wandern, wenn die Blätter treiben.






(1902, uit: Das Buch der Bilder)

AUTUMN IN FLANDERS



Autumn by clinical eye friend Solange.

domingo, 30 de outubro de 2011

MANIFESTO ANTI-DANTAS


TÃO ACTUAL QUE PARECE TER SIDO FEITO HOJE!!!!!!!!!!!!!!!!!

MANIFESTO ANTI-DANTAS - por José de Almada-Negreiros

POETA D'ORPHEU FUTURISTA e TUDO

BASTA PUM BASTA!
UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM DANTAS É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS! É UMA RÊSMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM DANTAS À PROA É UMA CANÔA UNI SECO!
O DANTAS É UM CIGANO!
O DANTAS É MEIO CIGANO!
O DANTAS SABERÁ GRAMMÁTICA, SABERÁ SYNTAXE, SABERÁ MEDICINA, SABERÁ FAZER CEIAS P'RA CARDEAIS SABERÁ TUDO MENOS ESCREVER QUE É A ÚNICA COISA QUE ELLLE FAZ!
O DANTAS PESCA TANTO DE POESIA QUE ATÉ FAZ SONETOS COM LIGAS DE DUQUEZAS!
O DANTAS É UM HABILIDOSO!
O DANTAS VESTE-SE MAL!
O DANTAS USA CEROULAS DE MALHA!
O DANTAS ESPECÚLA E INÓCULA OS CONCUBINOS!
O DANTAS É DANTAS!
O DANTAS É JÚLIO!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS FEZ UMA SORÔR MARIANNA QUE TANTO O PODIA SER COMO A SORÔR IGNEZ OU A IGNEZ DE CASTRO, OU A LEONOR TELLES, OU O MESTRE D'AVIZ, OU A CONSTANÇA, OU A NAU CATHRINETA, OU A MARIA RAPAZ!
E O DANTAS TEVE CLÁQUE! E O DANTAS TEVE PALMAS! E O DANTAS AGRADECEU!
O DANTAS É UM CIGANÃO!
NÃO É PRECISO IR P'RÓ ROCIO P'RA SE SER UM PANTOMINEIRO, BASTA SER-SE PANTOMINEIRO!
NÃO É PRECISO DISFARÇAR-SE P'RA SE SER SALTEADOR, BASTA ESCREVER COMO DANTAS! BASTA NÃO TER ESCRÚPULOS NEM MORAES, NEM ARTÍSTICOS, NEM HUMANOS! BASTA ANDAR CO'AS MODAS, CO'AS POLÍTICAS E CO'AS OPINIÕES! BASTA USAR O TAL SORRISINHO, BASTA SER MUITO DELICADO E USAR CÔCO E OLHOS MEIGOS! BASTA SER JUDAS! BASTA SER DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS NASCEU PARA PROVAR QUE, NEM TODOS OS QUE ESCREVEM SABEM ESCREVER!
O DANTAS É UM AUTOMATO QUE DEITA PR'A FÓRA O QUE A GENTE JÁ SABE QUE VAE SAHIR... MAS É PRECISO DEITAR DINHEIRO!
O DANTAS É UM SONETO D'ELLE-PRÓPRIO!
O DANTAS EM GÉNIO NUNCA CHEGA A PÓLVORA SECCA E EM TALENTO É PIM-PAM-PUM!
O DANTAS NÚ É HORROROSO!
O DANTAS CHEIRA MAL DA BOCA!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
O DANTAS É O ESCARNEO DA CONSCIÊNCIA!
SE O DANTAS É PORTUGUEZ EU QUERO SER HESPANHOL!
O DANTAS É A VERGONHA DA INTELLECTUALIDADE PORTUGUEZA! O DANTAS É A META DA DECADÊNCIA MENTAL!
E AINDA HÁ QUEM NÃO CÓRE QUANDO DIZ ADMIRAR O DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM LHE ESTENDA A MÃO!
E QUEM LHE LAVE A ROUPA!
E QUEM TENHA DÓ DO DANTAS!
E AINDA HÁ QUEM DUVIDE DE QUE O DANTAS NÃO VALE NADA, E QUE NÃO SABE NADA, E QUE NEM É INTELLIGENTE NEM DECENTE, NEM ZERO!
VOCÊS NÃO SABEM QUEM É A SOROR MARIANNA DO DANTAS? EU VOU-LHES CONTAR:
A PRINCÍPIO, POR CARTAZES, ENTREVISTAS E OUTRAS PREPARAÇÕES COM AS QUAES NADA TEMOS QUE VÊR, PENSEI TRATAR-SE DE SORÔR MARIANNA ALCOFORADO A PSEUDO AUCTORA D'AQUELLAS CARTAS FRANCEZAS QUE DOIS ILLUSTRES SENHORES D'ESTA TERRA NÃO DESCANÇARAM ENQUANTO NÃO ESTRAGARAM P'RA PORTUGUEZ, QUANDO SUBIU O PANNO TAMBÉM NÃO FUI CAPAZ DE DISTINGUIR PORQUE ERA NOITE MUITO ESCURA E SÓ DEPOIS DE MEIO ACTO É QUE DESCOBRI QUE ERA DE MADRUGADA PORQUE O BISPO DE BEJA DISSE QUE TINHA ESTADO À ESPERA DO NASCER DO SOL!
A MARIANNA VEM DESCENDO UMA ESCADA ESTREITÍSSIMA MAS NÃO VEM SÓ. TRAZ TAMBÉM O CHAMILLY QUE EU NÃO CHEGUEI A VER, OUVINDO APENAS UMA VOZ MUITO CONHECIDA AQUI NA BRAZILEIRA DO CHIADO. POUCO DEPOIS O BISPO DE BEJA É QUE ME DISSE QUE ELLE TRAZIA CALÇÕES VERMELHOS. A MARIANNA E O CHAMILLY ESTÃO SÒZINHOS EM SCENA, E ÀS ESCURAS DANDO A ENTENDER PERFEITAMENTE QUE FIZERAM INDECÊNCIAS NO QUARTO. DEPOIS O CHAMILLY, COMPLETAMENTE SATISFEITO DESPEDE-SE E SALTA P'LA JANELLA COM GRANDE MAGUA DA FREIRA LACRIMOSA. E ANDA HOJE OS TURISTES TEEM OCCASIÃO DE OBSERVAR AS GRADES ARROMBADAS DA JANELLA DO QUINTO ANDAR DO CONVENTO DA CONCEIÇÃO DE BEJA NA RUA DO TOURO, POR ONDE SE DIZ QUE FUGIU O CÉLEBRE CAPITÃO DE CAVALOS EM PARIS E DENTISTA EM LISBOA.
A MARIANNA QUE É HISTÉRICA COMEÇA DE CHORAR DESATINADAMENTE NOS BRAÇOS DA SUA CONFDENTE E EXCELLENTE PAU DE CABELEIRA SORÔR IGNEZ.
VEEM DESCENDO P'LA DITA ESTREITÍSSIMA ESCALA (sic), VARIAS MARIANNAS TODAS EGUAES E DE CANDEIAS ACESAS, MENOS UMA QUE USA ÓCULOS E BENGALLA E AINDA (sic) TODA CURVADA P'RÁ FRENTE O QUE QUER DIZER QUE É ABBADESSA.
E SERIA ATÉ UMA EXCELENTE PERSONIFICAÇÃO DAS BRUXAS DE GOYA SE QUANDO FALLASSE NÃO TIVESSE AQUELLA VOZ TÃO FRESCA E MAVIOSA DA TIA FELICIDADE DA VIZINHA DO LADO, E REPARANDO NOS DOIS VULTOS INTERROGA ESPAÇADAMENTE COM CADÊNCIA, AUSTERIDADE E IMMENSA FALTA DE CORDA...
QUEM ESTÁ AHI?... E DE CANDEIAS APAGADAS?
- FOI O VENTO, DIZEM AS POBRES INNOCENTES VARADAS DE TERROR... E A ABADESSA QUE SÓ É VELHA NOS ÓCULOS, NA BENGALA E EM ANDAR CURVADA P'RÁ FRENTE MANDA TOCAR A SINETA QUE É UM DÓ D'ALMA O OUVI-LA ASSIM TÃO DEBILITADA, VÃO TODAS P'RÓ CÔRO, MAS EIS QUE, DE REPENTE BATEM NO PORTÃO E SEM SE ANNUNCIAR NEM LIMPAR-SE DA POEIRA, SOBE A ESCADA E ENTRA P'LO SALÃO UM BISPO DE BEJA QUE QUANDO ERA NOVO FEZ BRÉGEIRICES CO'A MENINA DO CHOCOLATE.
AGORA COMPLETAMENTE EMENDADO REVELA À ABBADESSA QUE SABE POR CARTAS QUE HÁ HOMENS QUE VÃO ÀS MULHERES DO CONVENTO E QUE AINDA HÁ POUCO VIRA UM DE CAVALLOS A SALTAR P'LA JANELLA. A ABADESSA DIZ QUE EFFECTIVAMENTE JÁ HÁ TEMPOS QUE VINHA DANDO P'LA FALTA DE GALLINHAS E TÃO INNOCENTINHA, COITADA, QUE N'AQUELLES OITENTA ANNOS AINDA NÃO TEVE TEMPO P'RA DESCOBRIR A RAZÃO DA HUMANIDADE ESTAR DIVIDIDA EM HOMENS E MULHERES.
DEPOIS DE SÉRIOS EMBARAÇOS DO BISPO É QUE ELLA DEU COM O ATREVIMENTO E MANDOU CHAMAR AS DUAS FREIRAS DE HÁ POUCO CO'AS CANDEIAS APAGADAS. N'ESTA ALTURA ESTA PEÇA POLICIAL TOMA UM PEDAÇO D'INTERESSE PORQUE O BISPO ORA PARECE UM POLÍCIA DE INVESTIGAÇÃO DISFARÇADO EM BISPO, ORA UM BISPO COM A FALTA DE DELICADEZA DE UM POLÍCIA D'INVESTIGAÇÃO, E TÃO PERSPICAZ QUE DESCOBRE EM MENOS DE MEIO MINUTO O QUE O PÚBLICO JÁ ESTÁ FARTO DE SABER - QUE A MARIANNA DORMIU CO'O NOEL. O PEOR É QUE A MARIANNA FOI À SERRA CO'AS INDISCREÇÕES DO BISPO E DESATA A BERRAR, A BERRAR COMO QUEM SE ESTAVA MARIMBANDO P'RA TUDO AQUILLO. ESTEVE MESMO MUITO PERTO DE SE ESTRElAR COM UM PAR DE MURROS NA CORÔA DO BISPO NO QUE (SE) MOSTROU DE UM ATREVIMENTO, DE UMA INSOLÊNCIA E DE UMA DECISÃO REFILONA QUE EXCEDEU TODAS AS EXPECTATIVAS.
OUVE-SE UMA CORNETA A TOCAR UMA MARCHA DE CLARINS E MARIANNA SENTINDO NAS PATAS DOS CAVALLOS TODA A ALMA DO SEU PREFERIDO FOI QUAL PARDALITO ENGAIOLADO A CORRER ATÉ ÀS GRADES DA JANELLA A GRITAR DESALMADAMENTE P'LO SEU NOEL. GRITA, ASSOBIA E REDOPIA E PIA E RASGA-SE E MAGÓA-SE E CAE DE COSTAS COM UM ACCIDENTE, DO QUE JÁ PREVIAMENTE TINHA AVISADO O PÚBLICO E O PANNO TAMBÉM CAE E O ESPECTADOR TAMBÉM CAE DA PACIÊNCIA ABAIXO E DESATA N'UMA DESTAS PATEADAS TÃO ENORMES E TÃO MONUMENTAES QUE TODOS OS JORNAES DE LISBOA NO DIA SEGUINTE FORAM UNÂNIMES N'AQUELLE ÊXITO TEATRAL DO DANTAS.
A ÚNICA CONSOLAÇÃO QUE OS ESPECTADORES DECENTES TIVERAM FOI A CERTEZA DE QUE AQUILLO NÃO ERA A SORÔR ALCOFORADO MAS SIM UMA MERDARIANNA ALDANTASCUFURADO QUE TINHA CHELIQUES E EXAGEROS SEXUAES.
CONTINUE O SENHOR DANTAS A ESCREVER ASSIM QUE HÁ-DE GANHAR MUITO CO'O ALCUFURADO E HÁ-DE VER, QUE AINDA APANHA UMA ESTÁTUA DE PRATA POR UM OURIVES DO PORTO, E UMA EXPOSIÇÃO DAS MAQUETES P'RÓ SEU MONUMENTO ERECTO POR SUBSCRIÇAO NACIONAL DO SÉCULO A FAVOR DOS FERIDOS DA GUERRA, E A PRAÇA DE CAMÕES MUDADA EM PRAÇA DO DR. JULIO DANTAS, E COM FESTAS DA CIDADE P'LOS ANNIVERSÁRIOS, E SABONETES EM CONTA «JULIO DANTAS» E PASTAS DANTAS P'RÓS DENTES, E GRAXA DANTAS P'RÁS BOTAS, E NIVEINA DANTAS, E COMPRIMIDOS DANTAS E AUTOCLISMOS
DANTAS E DANTAS, DANTAS, DANTAS, DANTAS... E LIMONADAS DANTAS - MAGNESIA.
E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE UM DIA HOUVER JUSTIÇA EM PORTUGAL TODO O MUNDO SABERÁ QUE O AUTOR DOS LUZÍADAS É O DANTAS QUE N'UM RASGO MEMORÁVEL DE MODÉSTIA SÓ CONSENTIU A GLÓRIA DO SEU PSEUDÓNIMO CAMÕES.
E FIQUE SABENDO O DANTAS QUE SE TODOS FÔSSEM COMO EU, HAVERIA TAES MUNIÇÕES DE MANGUITOS QUE LEVARIAM DOIS SÉCULOS A GASTAR.
MAS JUYGAES QUE N'ISTO SE RESUME A LITTERATURA PORTUGUEZA? NÃÓ! MIL VEZES NÃO!
TEMOS, ALÉM D'ISTO O CHIANCA QUE JÁ FEZ RIMAS P'RA ALUBARROTA QUE DEIXOU DE SER A DERROTA DOS CASTELHANOS P'RA SER A DERROTA DO CHIANCA.
E AS PINOQUICES DE VASCO MENDONÇA ALVES PASSADAS NO TEMPO DA AVÔSINHA! E AS INFELICIDADES DE RAMADA CURTO! E O TALENTO INSÓLITO DE URBANO RODRIGUES! E AS GAITADAS DO BRUN! E AS TRADUCÇÕES SÓ P'RA HOMEM (D) O ILLUSTRÍSSIMO EXCELENTÍSSIMO SENHOR MELLO BARRETO! E O FREI MATTA NUNES MÔXO! E A IGNEZ SYPHILITICA DO FAUSTINO! E AS IMBECILIDADES DO SOUSA COSTA! E MAIS PEDANTICES DO DANTAS! E ALBERTO SOUSA, O DANTAS DO DESENHO! E OS JORNALISTAS DO SECULO E DA CAPITAL E DO NOTICIAS E DO PAIZ E DO DIA E DA NAÇÃO E DA REPUBUCA E DA LUCTA E DE TODOS, TODOS OS JORNAES! E OS ACTORES DE TODOS OS THEATROS! E TODOS OS PINTORES DAS BELLAS ARTES E TODOS OS ARTISTAS DE PORTUGAL QUE EU NÃO GOSTO. E OS DA AGUIA DO PORTO E OS PALERMAS DE COIMBRA! E A ESTUPIDEZ DO OLDEMIRO CESAR E O DOUTOR JOSÉ DE FIGUEIREDO AMANTE DO MUSEU E AH OH OS SOUSA PINTO HU HI E OS BURROS DE CACILHAS E OS MENÚS DO ALFREDO GUISADO! E (O) RACHITICO ALBINO FORJAZ SAMPAIO, CRITICO DA LUCTA A QUEM O FIALHO COM IMMENSA PIADA INTRUJOU DE QUE TINHA TALENTO! E TODOS OS QUE SÃO POLITICOS E ARTISTAS! E AS EXPOSIÇÕES ANNUAES DAS BELLAS ARTE(S)! E TODAS AS MAQUETAS DO MARQUEZ DE POMBAL! E AS DE CAMÕES EM PARIS! E OS VAZ, OS ESTRELLA, OS LACERDA, OS LUCENA, OS ROSA, OS COSTA, OS ALMEIDA, OS CAMACHO, OS CUNHA, OS CARNEIRO, OS BARROS, OS SILVA, OS GOMES, OS VELHOS, OS IDIOTAS, OS ARRANJISTAS, OS IMPOTENTES, OS SCELERADOS, OS VENDIDOS, OS IMBECIS, OS PÁRIAS, OS ASCETAS, OS LOPES, OS PEIXOTOS, OS MOTTA, OS GODINHO, OS TEIXEIRA, OS DIABO QUE OS LEVE, OS CONSTANTINO, OS GRAVE, OS MANTUA, OS BAHIA, OS MENDONÇA, OS BRAZÃO, OS MATTOS, OS ALVES, OS ALBUQUERQUE, OS SOUSAS E TODOS OS DANTAS QUE HOUVER POR AHI!!!!!!
E AS CONVICÇÕES URGENTES DO HOMEM CHRISTO PAE E AS CONVICÇÕES CATITAS DO HOMEM CHRISTO FILHO!
E OS CONCERTOS DO BLANCH! E AS ESTATUAS AO LEME, AO EÇA E AO DESPERTAR E A TUDO! E TUDO O QUE SEJA ARTE EM PORTUGAL! E TUDO! TUDO POR CAUSA DO DANTAS!
MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!
PORTUGAL QUE COM TODOS ESTES SENHORES, CONSEGUIU A CLASSIFICAÇÃO DO PAIZ MAIS ATRAZADO DA EUROPA E DE TODO OMUNDO! O PAIZ MAIS SELVAGEM DE TODAS AS ÁFRICAS! O EXILIO DOS DEGRADADOS E DOS INDIFERENTES! A AFRICA RECLUSA DOS EUROPEUS! O ENTULHO DAS DESVANTAGENS E DOS SOBEJOS! PORTUGAL INTEIRO HA-DE ABRIR OS OLHOS UM DIA - SE É QUE A SUA CEGUEIRA NÃO É INCURÁVEL E ENTÃO GRITARÁ COMMIGO, A MEU LADO, A NECESSIDADE QUE PORTUGAL TEM DE SER QUALQUER COISA DE ASSEIADO!

MORRA O DANTAS, MORRA! PIM!

José de Almada-Negreiros
POETA D'ORPHEU
FUTURISTA
e
TUDO





sábado, 29 de outubro de 2011

A VOZ - EUNICE MUÑOZ

A Voz

Não é de Sinatra ou Bennett que hoje me apetece escrever. A nossa memória é fantástica em especial quando somos criança e temos aquela sensação que nada nos escapa. A memória poderá ser medida em recordação ou esquecimento. A primeira, é tão próxima de nós quanto a queiramos. Basta algo para fazê-la renascer de novo como se acabasse de acontecer.

Aos sábados pelas 6 horas da tarde, o meu mundo parava. Havia aquela obrigação de largar tudo para ligar a velha Philips para a ex-Emissora Nacional em Lisboa e escutar, escutar no silêncio do quarto, o indicativo do Teatro Infantil. Sim, naqueles anos sessenta havia teatro infantil na rádio e, que coisa melhor do que imaginar e ouvir os sons através de um aparelho de rádio? Então, a voz de Eunice Muñoz etoava aos microfones. Era uma voz doce, delicada como a nossa avó à procura de uma história para nos contar. Eunice, ficaria para sempre gravada na minha caixa de memória e quando a ouvia na rádio ou na TV, instantaneamente associava e identificava-a. Anos mais tarde, ao vê-la em “Mãe Coragem” de Brecht fiquei de novo apaixonado pela sua figura, pela sua voz e capacidade de interpretar papeis com tanta qualidade que sempre senti uma pontinha de emoção pela sua pessoa.

E continua a ser a minha voz!








ELIS & JOBIM - AGUAS DE MARÇO



http://www.youtube.com/watch?v=Qle1OrunKnE&feature=colike

Pimentinha e Jobim! Quanta saudade, quantas noites ouvindo as suas vozes, sonhando com Niterói. 

ZELIA DUNCAN - CATEDRAL


Zélia Duncan

http://www.youtube.com/watch?v=-hKGjS4ZSkM&feature=colike

CHICO BUARQUE/SIMONE - IOLANDA


Chico Buarque de Hollanda e Simone em dueto numa linda música do compositor cubano Pablo Milanes

http://www.youtube.com/watch?v=dUzb8itPzwo&feature=colike

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

ABRE ESSA JANELA, QUE QUERO VER O MAR!


Estávamos dispostos a beber algo naquela tarde! O professor disse-me que o acompanhasse, e eu seguiu-o, com aquela sensação de irmos empurrados para o desconhecido. Após várias tentativas e várias negações, não conseguia reconhecer o seu aconchego de outrora. Mas após deambularmos pelas vielas, decidimos por aquele um pouco ao acaso.
- Vamos entrar aqui!
Procuramos um lugar esconso, um canto na velha tasca onde se pudesse comer um queijinho de Serpa e um copo de néctar.  A empregada tinha uma tez alva uns olhos profundos de azul anil, ondinhas no cabelo e voz a lembrar os sons das gaitas galegas. perguntei-lhe de onde era? Respondeu-me secamente: - De Galicia!... Mas insisti, enquanto ela preparava as tapas de queijo e o pão. Mas de onde? De que "Concello"? De Pontevedra! Coñeces?
Afirmei que sim, que às vezes sonhava com o sabor dos pimentos Padrón regados com azeite e sal numa frigideira acompanhados com sidra bem fresca! 
O seu ar seco tornou-se melancólico na quente tarde lisboeta. Saudades da sua terra natal??? Quem sabe o que vai naquela cabeça rendilhada de Camariñas?  Vendo-nos entusiasmados a discutir sobre livros estendidos no tampo da mesa, veio dizer-me: 
- Eu sou da terra de Rosalia de Castro! Conheces? Afirmei que sim. Que conhecia alguns trabalhos da poetisa. Então, da parte de dentro do balcão começou-me a recitar o mais conhecido poema de Rosalia. Confesso que fiquei petrificado. Queria falar-lhe mas não conseguia! Olhava para a sua tez alva, os olhos profundos de azul anil, nas ondinhas do cabelo e naquela voz a lembrar as gaitas de foles, mas o som não saía. A minha cabeça só pensava em Rosalia que na hora da sua morte, olhando para a sua filha Alejandra rogou um derradeiro pedido:
- Abre essa janela, que quero ver o mar!   
Casa-museo de Rosalia de Castro-Padrón, Pontevedra 

sábado, 22 de outubro de 2011

LEÓN - A CIDADE DOS MONUMENTOS








Em cada esquina, vemos monumentos e mais monumentos. Uma cidade murada mas cheia de gente jovem. O seu polo universitário, os seus inúmeros colégios dão um colorido e muita vida às suas "calles". Muitos jardins, praças e esplanadas apinhadas de gente sem pressa, sem stress. Enfim, uma cidade com muita qualidade!   

WHITER SHADE OF PALE - ANNIE LENNOX


DESIDERATA POEM

http://www.youtube.com/watch?v=RzTuK_pYx9k&feature=colike (Portuguese version by Rui de Carvalho)
You are a child of the Universe...

domingo, 16 de outubro de 2011

CATEDRAL DE LÉON











Ainda os Portugueses não tinham descoberto o Brasil e ela já existia! A Catedral de Léon dedicada à Senhora Branca, é divinal!
Após percorrermos todo o Planalto Leonês, entramos pelo Norte na cidade de Léon. Ruas enormes desenhadas a esquadro e compasso. A quilómetros já vemos os pináculos da grande igreja. Depois, é só atravessar a cidade com um transito muito ordenado e estamos na "baixa". Ruas cheias de flores, janelas cheias de flores, passeios cheios de flores e pensamos, mas por que não conseguimos fazer nada parecido? Será nossa incompetência? Será que os presidentes das autarquias não se interessam e só pensam em aparecer nos telejornais no pico da audiência para dizer mal do vizinho? Será! Será! Será! Acho-me pequeno no meio de tanta beleza e, penso:
- Mas Léon não tem o clima temperado como o nosso. Possui Verões e Invernos de extremos! Então...
Aconselho veentemente uma visita à sua Catedral! Ás muitas igrejas espalhadas pela cidade! À sua muralha e monumentos em todas as esquinas. E o que dizer à sua limpeza? À qualidade e ao luxo das suas esplanadas como não existe no nosso burgo??? Se eu fosse um Belmiro ou um Berardo, metia uns presidentes da nossa praça e levava-os a ver este cidade para APRENDEREM A NÃO SEREM BURROS" como se pode ter uma cidade de sonho com pouco dinheiro!