quinta-feira, 26 de abril de 2012

A SALSICHARIA DE HERR BACH

Herr Bach



O Senhor Bach (1) possuía, nos anos 50 / 60 do séc. XX, na cidade do Funchal, uma salsicharia alemã, na vizinhança da Botica Inglesa, ao Largo da Igrejinha. Como era um local central e de grande movimento citadino com os seus diversos serviços públicos da Junta Geral, do comércio em geral e da estação central dos Correios, no meu caso servia diariamente de passagem para a casa, onde habitava.

Ao final da tarde e após esperar a minha mãe que, na altura, trabalhava na Casa Americana, junto ao Jardim Municipal, de regresso a casa, percorria a Rua da Carreira e defronte aos Vicentes Photographos, aproveitávamos para comprar produtos do seu estabelecimento muito sui generis e da nossa predilecção. Herr Bach encontrava-se por detrás do longo balcão de mármore. Vestia a sua imaculada bata branca, sobressaindo pelo seu imponente porte, pelo seu sotaque algo estranho e amável tom de voz. Depois, sobressaía toda uma gama de artigos fora do comum: longos cordões de salsichas frescas, chouriços, carnes diversas, fiambres, patés e manteigas. Era nessa ocasião que então aproveitava, meio envergonhado, para puxar a saia materna e apontar com o indicador determinado produto da minha preferência. Era meio caminho andado para me banquetear, com as suas famosas salsichas. Herr Bach embrulhava em papel manteiga os produtos escolhidos e, com a sua saudação cordial de despedida, rumávamos a casa.
 
Certo dia, mandaram-me ir ao Senhor Bach comprar um prego! Um prego? Incrédulo e com medo de que fosse gozado, aproximei-me do longo balcão e pedi a medo: um prego! Herr Bach prontificou-se a executar o pedido, colocá-lo num papo-seco e a embrulhá-lo! Paguei e segui pelo passeio da Rua Câmara Pestana, rumo ao serviço da minha tia. Sentia-me feliz por ter desempenhado o meu recado na perfeição. Seria na minha memória a última vez que presenciei e contactei com o senhor alemão, famoso na cidade do Funchal pelo seu ofício de mestre salsicheiro. Poucos anos depois, o edifício foi vendido, renovado e transformado. Então, Herr Bach, sempre com o seu sentido empreendedor e inovador, abriu o primeiro supermercado da Madeira. Situado no início da Rua das Pretas, era, na altura, um luxo de estabelecimento, com talho; charcuteria; congelados, produtos frescos e… gelados. Quando sabia que a minha mãe pretendia fazer compras, procurava sempre aquele gelado que constava no expositor junto às caixas registadoras. Fui um cliente assíduo dos seus produtos, grande parte importados da sua terra natal até quase ao seu epílogo, mas conservo com saudade o seu pioneiro estabelecimento de charcuteria.
 
Por vezes, dou comigo a pensar nos possíveis diálogos entre Herr Bach e Herr Max Römer. Terá com certeza havido contactos entre estes dois germânicos. Cada um na sua especialidade, cada um mestre na sua arte, fossem enchidos ou pinturas madeirenses. Idealizei, então, uma troca de mercadorias, ficando cada qual com a sua feliz e dedicada preferência. O pintor hanseático Max Römer oferecendo uma das muitas aguarelas e recebendo em troca um volume considerável de enchidos da sua germânica pátria. Seria interessante saber qual deles ficaria mais feliz com tamanho intercâmbio!

(1) Nunca encontrei uma fotografia do senhor Bach. Se por acaso alguns dos leitores tiver alguma fotografia do estabelecimento e quiser partilhar, agradeço a sua colaboração.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O HOMEM DOS CESTOS

Já lai vai o tempo em que ninguém podia ir ao mercado sem levar ou trazer as compras num destes cestos misto de canas e vimes. Por vezes magoavam e cortavam quando batiam nas pernas, mas faziam parte da vida madeirense. Depois veio a era do plástico que modificou e encheu os nossos lares de lixo urbano. Estaria para chegar outra ameaça, a que definitivamente daria a machadada final, a dos vimes vindos do Oriente, nomeadamente da China e Filipinas que arrasou com a pequena economia madeirense.
Veja-se na foto, que os dois homens descem a modificada Avenida do Infante já com a rotunda ao fundo concluida e o risco da Avenida Arriaga até quase à Sé. Isto nos anos 50' do século passado.

domingo, 1 de abril de 2012

TODAS AS MANHÃS


Flowers and Gardens of Madeira - Florence and Ella du Cane   


Todas as manhãs era o mesmo! A mesma rotina, os mesmos gestos, os mesmos sabores.

Pelas sete e pouco, começava por fazer uma grande cafeteira de café. Depois de preparar em finas fatias o pão de cruz, para as torradas. Descia à porta da entrada que dava para a rua, curvava-se e apanhava o jornal que tinham introduzido pelo raiar da aurora, o jornaleiro. Subia a escadaria e sentava-se a saborear o café, as torradas e as noticias frescas. Procurava os títulos “gordos” no matutino, como se tivesse preguiça para ler o que considrava desnecessário. Depois, se eu chegava, murmurava pequenos decibéis, em geito de comentário:

- Lá está o homem do lenço! Referindo-se a Arafat ou “Arafatinho” como carinhosamente o mencionava.

- Passam a vida a atirar pedras e a matarem-se uns aos outros. Estes árabes são completamente loucos...

Enquanto em silêncio se concentrava nas letras negras da página, mordiscava a torrada cheia de manteiga. Por vezes, o barulho ao remoer o pão torrado, assemelhava-se a ratos. Outras, faziam-me lembrar uma serra a cortar madeira. Por fim, abria o jornal em busca das páginas interiores.

- Deixa-me ver quem morreu! Retorquia.

Eu acabava por deixar fugir um “francamente”…

- Acho isso tão mórbido! Ripostava.

- Gosto de saber, se conheço alguém!

Eu via na sua atitude, um pouco de ironia, de humor amarelo como se fosse divertido saber quem tinha falecido na véspera.

- Uf! Logo pela manhã com boas ideias. Eu desabafava sem conseguir demovê-la. Era impensável, fazê-la desistir da sua obcecação.

A xícara do café negro assentava no pires, de tempos em tempos, descansando da viagem em que longos goles de arábica, desapareciam na sua boca.

O início da manhã estava completo, quando por fim, o jornal era atirado para cima duma pequena mesa onde se encontravam pencas de bananas e outras frutas. O arrastar da cadeira com as entrelaçadas filas de palhinha amarela e gasta, escondia-se estacionada por baixo da mesa da cozinha. Agora, o Sol atravessava o transparente vidro da janela. As flores dos jasmins agradeciam os raios quentes e brilhantes. Estava na hora de iniciar mais um dia de trabalho e tudo o resto que estaria para acontecer.