sábado, 12 de maio de 2012

A MINHA PELIKAN VERDE


A azáfama dos primeiros dias de escola, levava os pais a caminho da Papelaria do Colégio, da Condessa ou do Bazar do Povo. A criançada arregalava os olhos para os lápis dos expositores que cercavam o balcão das lojas. Eu queria ter um apara-lápis em forma de televisão feito de plástico, onde bonecos pareciam movimentar-se conforme a posição preterida. Era as primeiras novidades "made in Japan" que estava na mesma linha dos dias de hoje onde o made in China é sinal de má qualidade. Tudo o que era bom vinha do Reino Unido, da Europa Central ou dos E.U. da América.
Mas fiquei completamente apaixonado quando vi aquela caneta verde da Pelikan. Era uma beleza de caneta de tinta permanente, como se dizia na época. E não descansei enquanto ela não fosse minha. Até que por fim, após tanta resistência passou a fazer parte do meu estojo. Pouco interessava se os lápis de cor em caixas de folha coloridas, tinham 24 ou 36. Pouco me interessava se o livro continha histórias de sonhar, eu só sonhava o dia em que podia escrever com a minha "verdinha". Na sala, a professora Sara dizia que só depois do Natal, deixariamos de escrever com o lápis e passariamos à caneta de tinta. Como eramos inexperientes por vezes um borrão caia na folha do caderno, a bata ficava cheio de nódoas azuis, os dedos passavam a ter manchas de tinta que alastravam quanto mais tentavamos limpar. Ao chegar a casa mostravamos com entusiasmo os troféus manchados, orgulhosos das façanhas que aquele objecto com uma pena metálica de iridium conquistava rabiscos de futuras frases, letras desenhadas entre duas linhas como se de carris de comboios se tratassem e viajassem nas nossas pastas. Foi amor à primeira vista, direi...

UMA AULA DAS IRMÃS CLARISSAS

Era assim uma aula dada pelas Irmãs Clarissas no Convento de Santa Clara. Um quadro de xisto e meninos a copiar nas suas ardósias.
Durante muitos anos, esta Congregação ajudou milhares de crianças a aprender a ler  escrever gratuitamente aqueles que com menores recursos não podiam ter os seus filhos em colégios. Dava gosto ver os "bandos" de meninos que todas as manhãs seguiam a caminho de Santa Clara. A velha sineta tocava pela manhã à hora da entrada e no final das aulas. Da minha casa, podia saber as horas sem consultar o relógio da sala. Depois era o retorno a casa com os irrequietos meninos que com as suas bolsas de pano e a cesta de vime brincavam e sorriam ao longo do trajecto. Outros tempos!