terça-feira, 26 de junho de 2012

ZÉLIA E CLARISSE (2)


Zélia e Clarisse (2)



Tinha acabado de comprar o Jornal das Letras e decidi que seria melhor sentar-me na esplanada do teatro. Pedi um café e estendi o periódico, absorvendo as “gordas”. Sou sempre assim, primeiro escolho os temas que mais me interessam, ficando o refugo para o final para o caso de ainda ter disposição de as ler. Foi quando senti um vulto perto de mim, e reconheci aquele tom de voz a interromper-me a leitura. Levanto os olhos por cima do jornal e vejo as manas Zélia e Clarisse. Primeiro passam a ronda pelas mesas do café, possivelmente tentando reconhecer alguém com quem possam desenferrujar a língua. Acabei por estar no seu ângulo de visão… Aquele olá!? Saiu-me um pouco entre espanto e o falso. Talvez seja paranóia minha… talvez!

- Há muito tempo que não te vejo! – Diz-me Zélia. A mana, mais introvertida deita o rabo dos olhos pela minha pessoa. Por breves segundos, bloqueio. Opino que tenho estado fora e só de quando em vez passo pelo Funchal. Saudades…. Que posso eu fazer!

- Podemos sentar na tua mesa? Claro, riposto. Depois faz sinal ao empregado com os dedos em V, em sinal que seriam duas bicas.



Sabia que estavam sós! Os pais já tinham falecido a algum tempo, deixando-as no apartamento em que sempre viveram na Rua dos Aranhas, fronteira com o antigo cinema, um vazio que só a forte ligação daquelas duas irmãs conseguiam manter. Eu tinha habitado o andar superior durante poucos meses, e desde então continuamos a manter algum diálogo de proximidade. Conversa de cortesia, ou apenas “visita de médico”. È certo que os nossos grandes intervalos no tempo nada influenciaram na nossa relação de amizade, embora por vezes de uma maneira um pouco tímida, insípida e fria. Outras, simples olhares que não passavam disso mesmo: miradas.



Ao fim de um pequeno diálogo a três, comecei a sentir-me impaciente, com vontade de arejar!

- Bom... Retorqui! Tenho de ir embora… Confesso que tinha esgotado todo o vocabulário possível. Zélia, tentava ser amável como fecho da nossa conversa. Por que não passas pela nossa casa um dia destes? Jantavas connosco… com certeza não esqueceste onde moramos! Acenei a cabeça em sinal afirmativo ao que acabava de exclamar.

- Claro, que sei onde moram! O problema é que estou cá pouco tempo. Na próxima semana, volto para Lisboa e ainda preciso de visitar uns familiares. Depois de deambular todo o dia, não me sentia com vontade de ir a jantares de cortesia.



Clarisse, olhava-me de soslaio. Possivelmente estava a fazer o seu diagnóstico visual aos meus cabelos brancos, comparando os tempos de crianças, com a actual fisionomia. Não sei! Passamos muitas transformações físicas e psíquicas. Os nossos momentos de glória desapareceram tão repentinamente que nem tivemos tempo de amadurecer ideias. Elas surgiam, intemporais, por vezes sem agirmos, sem nada contribuirmos para o desenrolar para o resultado final. Mas somos assim! Deixei-as de novo a sós nos seus pensamentos na solidão da mesa do café. Confesso que me sentia um pouco responsável por contribuir para aquele afastamento, uma certa frieza sem querer magoar. Preferia recordá-las sempre com aquele sorriso de meninas, aquele sabor a infância como quando sentimos ao chegar a casa, vindos de muito longe e nos socorremos em olhares doces que nos acalantam. Mas vivemos sempre de chegadas e de partidas, de viagens e solidão, de desejos e sonhos, incompreensíveis, difíceis e indecifráveis.



quinta-feira, 21 de junho de 2012

ESTUDO SOBRE REGIONALISMOS MADEIRENSES

Foi um autentico "sufoco" adquirir esta obra!
As grandes superficies não estão mínimamente interessadas em vender obras que à partida não lhes dê o lucro imediato. A FNAC é uma delas! Comprar nesta loja, ou é livros sem qualquer interesse mas vendável ou edição que se encontre à venda ao quilo. Já nos bastava os Correios a venderem toda a espécie de foleirice literária, ou os Paulos Coelho do costume, livros a granel que na minha opinião é uma autentica pimbalhada das letras. Valha-nos Santo Ambrósio... 
Ana Cristina Figueiredo, jovem Santacruzense, professora do ensino básico, apresenta um estudo sobre os regionalismos madeirenses que serviu de tese à sua licenciatura. Com prefácio do Professor Doutor João Malaca Casteleiro, é uma obra que relança o gosto por este tipo de pesquisa, um pouco esquecida mas que merece um carinho especial. A melhor maneira de adquirir um exemplar, é pedir diretamente à editora Fonte da Palavra, mais barato e com entrega no domicilio, sem termos de ouvir a frase do costume:
-Desculpe, mas não temos... 

THE SMELL OF ROSES

Thank you for your smile!   
Photo Solange De Ruyck - Flandres

AS CURVAS DA MADALENA DO MAR

sábado, 9 de junho de 2012

RASGAR ESTRADAS

Nem todos saberão o esforço hercúleo que foi rasgar os caminhos na Madeira. Para muitos, nem terão a mínima ideia de estarem amarrados com cordas ou alças de picareta em punho ou maços, na ingreme escarpa ao Sol e ao frio, para abrir novas estradas, levadas veredas ou caminhos. Talvez a Senhora Merckel desse mais valor aos dinheiros gastos em obras que por toda a ilha se concluiram, talvez a Senhora avaliasse que os valores não se medem ao quilometro, mas no esforço de contornar dificuldades.

domingo, 3 de junho de 2012

HITLER NA BIBLIOTECA

Residencial Santa Clara - Funchal


Nos finais dos anos 70 do século passado, por imperativos na minha vida acabei por optar residir durante aproximadamente uma década na Residência Santa Clara. Este estabelecimento turístico da cidade do Funchal, tinha a curiosidade de obedecer a um estilo arquitectónico “sui-generis” art-noveau com vários pisos e situada na zona da Calçada do Pico quase defronte do Museu das Cruzes. Esta pequena unidade hoteleira pertencente na época ao Padre Francisco Reis Macedo e a uma sua familiar, a professora Emanuela Reis.
Eram às sextas e sábados que tradicionalmente chegavam os turistas preferencialmente do Norte da Europa, em busca de em média duas semanas de descanso e muito Sol. Transportados pelas Companhias LTU, Condor, Transavia ou Germanair, enquanto uns chegavam outros partiam nos mesmos aviões de regresso aos seus países. Surgiam, nessas ocasiões situações de turistas cada um com as suas características, preferências ou curiosidades que mantinham um constante movimento de entradas e saídas, pedindo opiniões sobre as características da Madeira, informações locais de carácter geral, como um simples horário de um autocarro, uma farmácia de serviço etc.. Ora nessa altura surgiu um individuo de nacionalidade alemã Herr Franz, com características fisionómicas pouco germânicas em relação ao que tradicionalmente os portugueses designavam aos alemães, mais ao estilo de Helmut Kohl, bastante alto em relação á média portuguesa e por vezes com peso invulgarmente grande. Herr Franz ao inverso, era pequeno, magro mas mortífero nas suas decisões.
Por necessidade da limpeza diária do seu quarto, por vezes as empregadas comentavam que não conseguiam aceder ao de Herr Franz, por que recusava a entrada das empregadas ou de qualquer funcionário. Por vezes, aproveitavam a sua ida às compras onde frequentemente se deslocava ao mercado para comprar fruta ou legumes. Depois refugiava-se ora no quarto, ora na biblioteca que a residência tinha instalada no 1º. andar. Quando se instalava neste canto da habitação, fechava-se não permitindo a entrada a qualquer intruso no seu espaço. Gritava que não saía a quem o tentasse dissuadir a abandonar a instalação. Depois colocava um aparelho sonoro e era o bom e o bonito. Pelos quatro cantos da Residência entoavam vozes em altos berros, discursos inflamados acompanhados de vivas e palmas. Através das verdes venezianas, ouviam-se no exterior do jardim que rodeava o citado edifício. Quando tal acontecia, já sabíamos que Herr Franz estava de mau humor e que não permitia ser incomodado.

- Não saio! – dizia em voz inflamada. Raus!

Ora certo dia, um amigo meu e grande conhecedor da língua de Goethe elucidava-me que afinal toda aquela gritaria na biblioteca era provocada pelos discursos histéricos do ditador Hitler, dirigindo-se aos nacionalistas da sua amada Germânia. A partir daquele momento, ficamos elucidados que Herr Franz teria tido qualquer simpatia com o regime ou um possível saudosismo da sua juventude que embora passados mais de três décadas continuava a pesar no seu subconsciente. Nesse dias inflamados, era como se Hitler estivesse ali mesmo ao lado, na sala da biblioteca e imaginávamos os seus longos discursos na tribuna da cidade de Nuremberga distante!