domingo, 26 de maio de 2013

UM DISCO-VOADOR À JANELA (2ª. PARTE)


Um disco-voador à Janela (2ª. Parte) 

O telefone tocou! Do outro lado do fio, a voz da tia Conceição dava-me a notícia. Tinha acabado de chegar a Lisboa, e queria que a fosse buscar ao aeroporto. Saí apressado ao seu encontro no local previamente combinado.
Depois dos abraços e beijos, de lágrimas disfarçadas, emoções fortes e olhares silenciosos, encostou a sua face ao meu ouvido e sussurrou-me:
- Eu vi! Podes crer que eu vi… E descrevia-me minuciosamente cada etapa do acontecimento. Imagens relembradas daquele estranho objecto que ora brilhava intensamente, ora parecia mudar os tons da luminosidade e tudo sem o menor ruído.

Durante muitos anos em Portugal, a literatura publicada sobre objectos estranhos era praticamente proibida, de repente após o 25 de Abril, o tema desperta a atenção das editoras, dos meios de comunicação. Quando terminava o seu dia de trabalho, aproveitava para descontrair e mirar atentamente as montras da Livraria Figueira, Condessa ou do Colégio, sempre em busca das últimas novidades. Quando avistava algo de novo, era certo e sabido que comprava. Era uma noite de insónia a devorar o conteúdo até à última página. Só depois de consumada a maratona da leitura, pousava o livro na mesa de cabeceira e dizia-me: - Agora, já o podes ler!…. Era a minha vez de folha após folha, deleitar-me com as noticias mais mirabolantes, as teorias mais desconcertantes e plausíveis sobre a Ufologia, assim designado e derivado do inglês UFO (Unidentified Flying Object). As prateleiras dos armários onde depositava cada um dos exemplares, estavam cheios de temas relacionados com a exploração espacial desde os seus inícios com o Sputnik, Gemini, até à era Saturn, os últimos da Missão Apollo. Por vezes dava comigo a pensar como na época, poderia uma mulher ter tanta afeição e gosto por estes temas tão masculinos. Escondido, tinha aquele livro já meio desbotado, amarelecido pelo tempo de George Adamsky. Era uma velha edição da Europa-America, onde o escritor contava as suas peripécias e o seu contacto com extra-terrestres, marcianos ou coisa que o valha, acompanhado com fotografias de naves “vulgo disco-voadores ou charutos naves-mãe” polémicas e ridicularizadas por uns, veneradas por outros mesmo na América profunda e fresquinha de acontecimentos que iriam mudar a face da Terra, em Junho de 1969, com a chegada do Homem à Lua. Armstrong acabou por desmistificar e lançar de novo a polémica de que poderíamos não estarmos sós no Cosmos. Aliás já Sagan tinha dito e colocado muitas interrogações sobre este mesmíssima questão. Em Portugal só o Professor Eurico da Fonseca, tinha bagagem para falar abertamente sobre o assunto.

Uma noite, subíamos quase ombro com ombro, como se fossemos um casal, o velho e inclinado Caminho da Torrinha. A iluminação vinda dos candeeiros da estrada era fraca quase impercetível à escuridão das pedras. Após avanços e recuos, comentava-me:
- Como podem ser as minhas irmãs tão ingénuas ao acreditarem piamente em tudo o que digo, em tudo o que imagino ao descrever as cartas do Tarot… Acreditam obcecadas que se algo de mal ou de bom, está nas cartas, irá passar-se em breve nas suas vidas. E ria-se de si mesma, pela façanha de “conquistar” os outros pelo lado mais volátil a sua incompreensão para pensarem um bocadinho. 

Anos a fio, mantinha uma certa confusão! Será que me quis ludibriar? Será que foi mesmo verdade? Ando à procura de uma resposta concisa na imprensa regional, décadas depois...  

quinta-feira, 23 de maio de 2013

L' AMI DE PORTUGAL



O amigo de Portugal partiu hoje! Moustaki deixou-nos e para mim foi tão importante as suas letras e músicas. Foi marcante ouvir as suas mensagens, as suas lutas que desde o Maio de 68 até ao nosso 25A, levaram aos quatro cantos do mundo.
Na hora da despedida, a Chanson pour elle...

  http://youtu.be/ojRSG8vw2kY



sexta-feira, 17 de maio de 2013

OS SONHOS DE ANA E DE CAROLINA


Nos últimos tempos a nível profissional, tenho assistido a situações muito tristes da população portuguesa. Diariamente recebo pessoas com dificuldades familiares, dignas de um estudo mais profundo sobre a matéria. São casos de cidadãos que nem têm dinheiro para renovar uma simples documentação, isto para não falar nos mais básicos bens, como água cortada, eletricidade ou não poder cozinhar por não ter gás na sua habitação. 
Os políticos da nossa praça, vão “assobiando para o ar” ora fazendo novas promessas ora empurrando de serviço em serviço, até ao desatino completo dos cidadãos. Jovens com fome, idosos sem medicamentos, rendas ou acções de despejo de pensionistas completamente desorientados. Será que nos resta, voltar aos tempos das barracas? Às novas Brandoas dos anos 60’, às malas de cartão passadas pelas fronteiras deste país?

Nada mudou, por que não se mudam as mentalidades dos políticos, dos seus vícios e acima de tudo dos seus privilégios. Ainda esta semana a Comunidade Europeia, doou 520 milhões para o Mali, para a sua reconstrução. Possivelmente os seus governantes irão investir em jeeps de gama alta ou Mercedes, ou armamento... Existem cheques chorudos para outros países fora da Comunidade, mas, e para os de cá? Nem pensar… Enquanto o Presidente Cavaco vai lamentando-se que ganha pouco, em especial depois que perdeu muitas das suas economias no BPN,  resolveu dedicar-se a ir a Fátima rezar. Faz muito bem!!! Que reze, pode ser que o Divino lhe abra a mente, pois os ares de Belém andam demasiado poluídos. Ou então que se dedique às hortas por detrás do palácio, onde pode passar horas a fazer plantações. Sempre vai desanuviando a mente, e até podia ajudar alguns políticos pobrezinhos…
Os políticos nas campanhas eleitorais privilegiam sempre os pobrezinhos, os velhinhos ou as criancinhas. Dão-lhes votos! Dão-lhes status, ficam bem praticando caridadezinha e, sempre serão uns pontinhos nos seus currículos rumo ao Reino dos Céus. Agora conhecerer a realidade dos cidadãos, isso é mais complicado! Verem in loco como vivem e passam dificuldades, ascultarem a alma dos portugueses… nem pensar! Dá trabalho…

Ontem, assisti a mais uma situação triste! Passava por mim Ana e Carolina. Jovens irmãs que desistiram dos seus cursos superiores por falta de dinheiro. Ana, invisual, era a que mais lutava contra a indiferença, as dificuldades económicas da mãe, sem pão para lhes dar, sem dinheiro para as propinas ou para o passe. A universidade não aceitou o seu pedido de bolsa, por ter chegado fora de prazo. Ana resistia e explicava-me que já não tinha internet, já não tinha eletricidade e nada lhe restava. A irmã Carolina, sentia o peso da ocasião, calada a maior parte do tempo, não conseguia falar incomodada por se exporem à minha frente, envergonhadas da sua pobreza e eu sentia-me incomodado, revoltado, ao ponto de desviar o olhar para não verem nos meus olhos sinais de nevoeiro, gotículas de lágrimas contidas.  

Entretanto vamos vegetando neste quintal à beira-Atlântico, até à banca rota final, enquanto os seus cidadãos vão morrendo por dentro, pelo seu lado mais profundo que é a sua alma, a alma de um povo vergado pela corrupção e por vigaristas que teimam em controlar-nos.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

OS NÚMEROS DA RAQUEL GONÇALVES


Os números


 Eu, que sempre gostei de palavras, que me baralho nas contas, que troco as datas, senti, esta semana, que os números podem ter o peso de algo mais concreto e duro do que a sua soma e a sua certeza. Senti que há números que são difíceis de esquecer.
Retenho, por uma questão de proximidade e de coração, os 28 profissionais que deixam o DIÁRIO, nos quais me incluo. Retenho o número de camaradas de redacção, os que foram e os que ficam, e espero que a matemática vença as incertezas e multiplique por muito mais anos este centenário matutino independente, sem o qual a imprensa, a liberdade e a democracia serão rudemente abaladas neste lado do mar.
Mas, e porque as notícias exigem uma memória mais profunda do que aquela que vive debaixo da nossa pele, retenho ainda que na Madeira o desemprego atinge uma em cada cinco pessoas e que apenas 100 mil madeirenses têm emprego.
Alargando o horizonte, há outros números que me assaltam e, no calafrio, retenho que 4,8 milhões de portugueses dependem da Segurança Social, num momento em que apenas 4,5 milhões contribuem para esse mesmo regime com os descontos do seu trabalho.
Podia continuar a soma que nos deixa perdedores, derrotados, tristes. Mas, neste caso, os números têm sempre a mesma solução em sentido negativo. Por isso, prefiro, se calhar, voltar às palavras, mesmo quando estas se mostram insuficientes para contar o que já não nos devolve a esperança.
E as palavras levam-me à denúncia dos que continuam a preferir a ilusão de outros números, os resultados de glórias passadas, ou o número de ilusionismo que mais não pretende do que mascarar a realidade. Neste número cai quem quer, quem gosta ou quem prefere ignorar números e palavras, mesmo quando estes   gritam alto a nossa matemática de desvantagem.
D.N. de 12 de Maio de 2013
PS- Esta é a dura realidade! 28 jornalistas despedidos sem apelo nem agravo do Diário de Noticias da Madeira. Seremos nós apenas números? O D.N. também tem a sua parte de responsabilidade, pois deveria competir à entidade patronal, saber gerir o seu património humano procurando ser um exemplo, uma referência na sociedade madeirense. Um momento bem triste de ultrapassar... e todos nós somos pessoas com família que merece respeito.