segunda-feira, 19 de agosto de 2013

A SÉ NÃO CAI

Domingo era por norma sempre o mesmo ritual. Na época, era a missa da uma hora da tarde, uma das mais concorridas na Sé. Embora não fosse a hora da minha predileção, pois queixava-me sempre do excesso de calor, de ter fome ou uma soneira tremenda, o certo é que após o ato religioso, a maioria dos fieis ficavam com o resto do dia livre para dar uma volta, visitar parentes e amigos ou preparar os trabalhos para o início de uma nova semana.A grande vantagem era quando o Cónego Damasceno de Sousa celebrava a missa! Primeiro por ser uma pessoa muito enérgica, prática e frontal,  a sua homilia era feita de rompante. Depois de rezar as orações, desenvolvia o tema em 10 ou 15 minutos, aquilo que a maioria dos sacerdotes demoravam uma eternidade, repetindo-se vezes sem conta até `a exaustão. Confesso que o admirava quando chegava à hora da comunhão, as pessoas ajoelhavam no degrau e quando dizia: - Corpo de Cristo! - ainda nós não tínhamos dito – Amém, já ele tinha colocado a hóstia na boca do mais comum dos cristãos e seguia o seu caminho. A rapidez com que terminava a missa sempre antes do relógio caminhar para as 2 horas da tarde. Batia sem dúvida o recorde das missas mais rápidas da Madeira. 

Ora certo domingo, a meio da liturgia, algumas areias começaram a cair do teto da Catedral em cima dos fieis. O alvoroço foi de tal maneira que as pessoas acotovelavam-se, empurravam-se a caminhos das diversas portas de saída em busca de refúgio. Alguém gritava que a Sé iria cair…. E tudo desapareceu num ápice. Eu tremia agarrado às saias da tia que com toda a calma do mundo, respondia-me assegurando-me que a Sé nunca cairia. As pessoas, essas iriam cair primeiro!.... O padre esse continuava imune a toda a barulheira e bagunça, olhando por cima dos óculos mantendo-se sereno e continuando o acto religioso. Por fim a missa chegou ao fim! Só me acalmei depois de ter transposto a porta principal e sentir a leve brisa na rua. 


Vezes sem conta olhava o tecto de cedro da catedral, e pensava se todas aquelas traves aguentariam durante séculos o templo mais importante da Madeira.  Certo é que as pessoas vão caindo com os anos, mas a Sé continua inamovível ano após ano recebendo todos os que a visitam. No entanto, quando transponho o átrio principal, dou comigo a olhar para o alto negro como que a desconfiar se um dia virá abaixo… é por que quero ser o primeiro a correr para a rua, e já não tenho as saias da minha tia para me agarrar e pedir a proteção divina. Quanto ao Cónego António Damasceno, esse continuava a vê-lo vezes sem conta, na sua figura imponente,  a conduzir o seu carocha branco, a lembrar D. Camillo, (alcunha como era conhecido), mas isso eram outras histórias inventadas por Giovanni Guaresci.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

AS PEDRAS

As pedras


Souvenir

Contornava o calhau da Praia Formosa quando resolveu curvar-se para apanhar aquela pedra. Inúmeras e minúsculas crateras decoravam a negrituda da pequena rocha. Estaria ali desde os primórdios do mundo, desde que a Madeira se formou e de incandescente a lava rompeu o oceano. Lembrou-se de colhê-la, de acaricia-la com se fosse um gato ou um cão. Abriu o saco e deixou-a cair junto às toalhas. Mais tarde, embrulhou-a e trouxe-a como recordação. Aquela era uma pedra viajada, muito “pra-frentex” que tinha o privilégio de andar de avião. Mais tarde, acabou no parapeito da janela da cozinha, como se estivesse aninhada a ver a paisagem, a relembrar a sua terra o seu mar. A seu lado, fazia-lhe companhia uma pequena estrela do mar de esbatido vermelho perdida no tempo. 


Uma pedra não faz o caminho, muitas fazem a estrada!


Carlos Drumond de Andrade dizia que havia uma pedra. Penso que existem muitas. Umas passam a vida a levam pontapés de um lado para o outro como se fossem bolas. Outras acabam em jardins decorados, em canteiros contornando verdes relvados. Existem as que são aduladas, as preciosas que acabam em primorosas jóias. Depois existem as melhores amigas das mulheres: os diamantes são eternos!... Outras acabam por ser polidas, gastas por máquinas que cortam, modelam, brilham em tampos de mesas em qualquer lar. Por vezes são manhosas, inconvenientes! Esta semana soube que uma ministra andava com uma pedra no sapato. Não é que seja raro, mas andar tanto tempo a moer-lhe o calcanhar, deixa marcas… e uma pequena pedra num sapato de uma governante causa dor na consciência. Mesmo que admita que não está a mentir, interiormente a sua consciência dita o contrário! E nem o facto de ter que fazer uma ginástica para manter as aparências do que está “politicamente correcto”, aquela dorzinha marota, faz-se notar quando procura manter o seu movimento indelével, mantendo a compostura no andar.
Ah, se não fossem os paparazzi, os jornalistas sempre em busca de notícias sensacionalistas, os telejornais sempre em busca de espaço para “encher chouriços”, dava-lhe tanto jeito descalçar e sacudir o sapato, para que aquela pedrinha deixasse de magoá-la. Mas isso era intolerável numa reunião com os outros ministros, na tomada de posse em frente ao senhor presidente. O que haveriam de dizer nas suas costas? Os comentários, as anedotas, etc… não ficava bem! Já bastava o caso anos antes em que o senhor presidente que se enganou ao comprar uns sapatos com um número abaixo do que estava estipulado pelo orçamento de estado e, inflamou o dedo grande do pé. Coitadinho, andou a coxear durante uma temporada até conseguir mandar ao sapateiro para colocar numa forma de ferro feita precisamente para alargar sapatos presidenciais.
  

Intifada Made in Portugal


Davam jeito as pedras da calçada portuguesa arremessadas como se fossem chuva de meteoritos. Era a “intifada” made in Portugal. Como se fossem pequenos Davides contra Golias e no fim da história os Davides liliputianos vencem sempre os Golias ou não teria graça nenhuma.   


Nome de mulher


Quando ela nasceu, gerou-se uma grande discussão. Qual seria o nome a dar à sua filha caçula? Mãe e pai degladiavam-se tentando arranjar motivos mais que válidos para os nomes que serviriam de tão importante escolha. Por fim, ela resignada, esgotada por tantas propostas inválidas, tantos insucessos e interrogações, gritou-lhe:
- És mesmo calhau… teimoso que nem uma pedra!
Então fez-se luz! Eureka! Iria chamar-se Petra Stone… e ambos concordaram!


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A IMAGEM DE SANTA CATARINA


A IMAGEM DE SANTA CATARINA

No início dos anos 60’ do século passado, a Capela de Santa Catarina, sofreu obras de restauro. A passagem da capela da família Blandy para as mãos do Patriarcado, o estado de abandono a que se viu votada, o imenso mato que proliferava, metia dó! O encerramento do Cemitério das Angustias, a falta de acessos, e o prometido parque da cidade que o Município do Funchal prometera, dava ao local mal frequentado por vagabundagem e alvo fácil de assaltos e proxenetismo. Depois da Câmara Municipal do Funchal decidir criar o Parque de Santa Catarina, optou-se por ter vigilantes permanentes, 2 guardas, um sistema de iluminação adequado ao espaço, de modo a tornar o local acolhedor e seguro aos seus visitantes. Depois, rasgaram-se passeios, plantaram-se novas espécies de flores e árvores, colocou-se gradeamentos e pequenos lagos artificiais. Abriu-se espaços panorâmicos e escadarias envolventes. A capela possuía apenas alguns santos e abria ao público uma vez por ano para a celebração do dia da Santa. Nessa ocasião, muita gente acorria à missa mais por curiosidade de visitar o seu interior.
Era precisamente nessa ocasião, que sobressaía o seu altar de talha dourada, a imagem de uma pequena criança espreitando debaixo da saia de Catarina.
Confesso que apesar da tenra idade, passava o tempo do acto religioso, embasbacado com o por quê de tão singular imagem? Jamais vi ou ouvi argumento válido que pudesse desvendar o mistério da Santa Catarina de Alexandria. A imagem, essa actualmente deverá estar no Museu de Arte Sacra do Funchal… pelo menos deduzo, de um Monumento Nacional espera-se isso…