segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A PRIMEIRA EXPOSIÇÃO

A  PRIMEIRA EXPOSIÇÃO


Ele acabara de ver uma exposição de trabalhos escolares que a Escola de Artes e Ofícios tinha delineado para apresentação do final do ano escolar. De calções curtos e camisola colorida, os seus seis anos de menino, ficara hipnotizado pela imensidão das pinturas; construções em madeira ou papel, maquinetas futuristas e outros tipos de actividades que os alunos mostravam para o encerramento do ano lectivo.

Chegou a casa cheio de energia, ideias para colocar em prática no seu quarto de leitura, a sua primeira exposição. Começou por seleccionar da sua pasta de cartão, os melhores desenhos. Surripiou alguns pioneses para prendê-los à parede de estuque. Depois, as dezenas de pauzinhos dos gelados Olá e Rajá, serviriam para construir aviões, navios com linhas dinâmicas. Quando achou que estava pronta, abriu a porta e convidou os seus amigos.
- Entrem! Entrem!...
Em fraterno diálogo consigo próprio, imaginava conversas.
- Então? Está a gostar da exposição? Olhe, este é o navio que pintei! Aquele pertence à companhia do Cabo! Veja o novo avião da Air France com as cores da bandeira francesa! Do outro lado da barricada, o mesmo menino, que inventava a apresentação, colocava-se do lado do público.
- Está bonita esta aguarela… linhas elegantes… um aluno com veia de artista… etc.etc…
O menino deliciava-se com estes “diálogos” imaginário, vozes inglesadas que transformavam os sins em “yes! All right! Very nice! As mesmas que ouvia vezes sem conta da boca de ingleses que andavam em luxuosos táxis, divertiam-se a tirar fotografias aos carros de bois ou aos cestos de vimes do Monte.
Nesta miscelânea entre sonhos, diálogos e solilóquios, nem reparou que à porta estava especada a sua mãe, intrigada com os diversos tipos de sons que saíam do quarto. Perante o mistério daquela algarviada, em imitar vozes desconhecidas, ela perguntou?

- Mas o que se passa aqui? Pronto, o menino ripostou que estava a inaugurar a sua exposição de pinturas e convidou-a a visitár. Só depois reparou que tinha sido apanhado de novo a falar para personagens imaginárias. Mas elas estavam ali tão pertinho dele que não achava diferença nenhuma. Além do mais se não falasse com elas, com quem mais poderia conversar???
  

CAM


sábado, 19 de outubro de 2013

OS CEM ANOS DE VINÍCIUS

A semana que agora terminou, comemorou-se os cem anos do nascimento do "poetinha" Vinicius de Moraes. Apesar de algum alarido da comunicação social sobre o facto, o certo é que foi mais "fogo de vista", de procura pelo sensacionalismo e pouco ou nada pelo verdadeiro cerne; a sua obra poética. A RDP-Antena 1, primou por fazer quatro programas de 60 minutos, em que conta um Vinicius em visita a Portugal nos finais dos anos 60'. Quanto à sua obra, pouco muito pouco. É sina dos poetas serem esquecidos e poesia não se vende! Preocuparam-se mais em dar ênfase aos nove casamentos, "encher chouriços" como se diz na gíria jornalística.
No que diz respeito à minha pessoa, ninguém influenciou tanto, nem mesmo Drummond através da sua poesia ao longo da vida. Vinicius foi desde os tempos do liceu, adorado, idolatrado, venerado quanto baste até à exaustão. 

sábado, 12 de outubro de 2013

ODÍLIA

Odília tinha cabelos longos
Cuidadosamente penteados. Olhos 
doces que acompanhavam o seu falar
cativante. Comparava-se a Ophelia!
Possivelmente recebia cartas de amor
bilhetes doces, pensamentos, olhares.
Odília cheirava a flores
Penso que eram jasmins perfumados
Ou Eau Jeune de Paris!
Desconheço se Ophelia usava perfume
Se Fernando lhe oferecia Água de Colónia 
Mas ambos sonhavam e sonhavam sem fim 
A sua bela amada. Se era Fernando ou Pessoa, não sei!
Ou seriam os dois? E eu pensava,
copiava sonetos, desenhados em cartões couché
para lhe enviar pelo correio.

CAM

CALINAS

O meu cão Calinas
dá em rosnar quando ouve falar 
em coelhos, na televisão.

Oh Calinas morde, morde
Ferra nas canelas
Desses políticos fatelas...

O Calinas mostra os caninos,
Arreganha a dentuça e fica alerta
Pronto a atacar.

Ah grande Calinas!
Cerra a boca, morde esses traseiros,
mesmo a jeito
de levar um pontapé a preceito, 
Desses doutores politiqueiros.

Oh Calinas morde, morde
Ferra nas canelas
desses políticos de meia-tijela! 

CAM

CABEÇA NA LUA

O menino começava a andar
queria correr mundo, caminhar.
Copiando em cada passo, 
Elevando-se no espaço, imitando
Gagarine, seria nos desenhos
que ambicionava expôr, grafites, Picassos 
em papel almaço.

CAM 

LOS TRES PABLOS

Pablo Casals numa pintura de Rafael Serrano Muñoz


Picasso, Casals e Neruda
Encontram-se no infinito.
Picasso desenhava, Casals tocava e Neruda
declamava poesia. Todos eles
elaboravam arte 
no Céu em exposição.

CAM

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A FORÇA DE MALALA - "EDUCATION FIRST!"

Photo CNN

Existem pessoas assim! Com uma força impressionante capazes de mover montanhas, de transformar o mundo num local onde podemos ser felizes. A menina de 16 anos Malala Yousafzai, depois de ter sofrido um atentado que lhe danificou o cérebro, que lutou contra as armas dos Talibans, teve a coragem de dizer numa conferencia de imprensa na BBC que gostaria de ver um mundo onde as jovens pudessem ter oportunidade de estudar e de ir à escola deu uma uma lição ao dizer numa simples frase poderosa:
- Education first! Até uma menina vitima de violência e candidata ao Nobel da Paz, vê a força da educação. Por cá, os nossos governantes fazem-se de ceguinhos...
- Que Malala consiga o prémio Nobel, é o meu desejo! Que Malala dê uma bofetada de luva branca ao mundo, pois bem merece todos os prémios, todos os sorrisos, todo o nosso respeito e admiração.
- Bem haja Malala!      

domingo, 6 de outubro de 2013

CHAPÉU DE PAPEL

Chapéu de um velho jornal,
pena de galinha,
pau de vassoura, espadachim,
bibe com uma joaninha estampada no azul bebé.
Cerejas, brincos de princesa pendurados nas orelhas
Olhar de pirata mal humorado, perna de pau
coxeando qual Saci.

E eu olhando para ti...

Conquisto o galinheiro
Enloquecem patos e galinhas, 
perus danados.
E eu com o chapéu de um velho jornal
pena de galinha,
pau de vassoura, em duelos sem fim
Conquistando o mundo de aves voando alvoroçadas
fugindo, fugindo de tão louco espadachim.

Atrás de mim, marchando a preceito, cantas:

- Rataplão, rataplão, rataplão
- Toca a marchar, toca a marchar,
- O rataplão!
- À frente o galo có-ró-có-có, 
- depois a galinha cá-rá-cá-cá
- E o pintainho quí-ri-qui-qui
  

CAM - 2013