sábado, 2 de novembro de 2013

AO DOMINGO

AO DOMINGO

Ao domingo, o ceguinho sentava-se na soleira da porta da Travessa de São Paulo. Pela manhã, esperava os clientes que saiam da missa, predominantemente crianças.  Pela tarde,  grupos de rapazes seminaristas atravessavam a cidade. Desde o edifício na Encarnação, em fila indiana e com as suas vestes negras, passavam pelo Pombal;  Largo da Cruz Vermelha; Cruzes; final da Carreira, Cabouqueira e Ilhéus a caminho do campo dos Barreiros. Era a tarde das emoções futebolísticas! Criadas em tarde de folga, saíam de mão dada com os namorados rumo a um qualquer banco da cidade. Eu passava pelo ceguinho com uma moeda de alpaca de um escudo, aguardava que enchesse um copo de vidro a servir de medida, e despejava num cartucho de papel, tremoços amarelos. Ficava perplexo com a destreza em reconhecer o valor das moedas. Depois era descer a Ribeira de São João, contornando velhos autocarros estacionados e encostados aos velhos plátanos.


Junto ao cais, vendedores ambulantes em pequenos carrinhos com rodas de bicicletas, encantavam os transeuntes. O cheiro do amendoim acabado de torrar espalhava-se abrindo o apetite dos que passavam. O homem dos sorvetes tirava cones de baunilha e sabor de banana e morango. O seu reino tinha agora a concorrência do quiosque feito em fibra e que vendia Olás e Rajás fresquinhos. Eram mais higiénicos e tinham pequenos brindes de plástico que deliciavam as crianças. Quem não colecionava figuras do Walt Disney ou do Carrocel Mágico? Mas nada melhor do que disfrutar a ensolarada de domingo, com um pacote de amendoins, junto à rotunda do velho cais. No horizonte, o imenso azul do oceano, caminho e destino de quem ansiava ver o mundo além da curva do Garajau, onde os velhos vapores sumiam deitando fumo das esguias cheminés. Tal como a negra fumaça desvanecida no ar, sonhávamos o mundo em fotografias de jornais.

A mulher vendia guloseimas! Eram guarda-chuvas de chocolate, tabletes da Regina, rebuçados com riscas coloridas, gamesses na linguagem dos pequenos. Por vezes, e antes de esgotarem, a vitrine ostentava queques de laranja, cornucópias e bolos de arroz feitos pela madrugada. Rosquilhas, bolos do caco, cavacas e até caramujos com sabor a maresia, apanhados no calhau. De uma esguia cheminé metálica, saía aquele inconfundível cheiro a amendoim convidando os domingueiros a gastar as pequenas moedas guardadas da mesada.