segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MARIA... GORETE

Um dia destes, dei comigo a pensar na influência das igrejas na vida das pessoas! Do mesmo modo de que as casas nos cativam, nos envolvem de saudade, de momentos ternos e familiares, o mesmo se passa com os templos; as ruas, as estações do ano ou ainda e mais complicado as próprias pessoas. É precisamente isso que irei exemplificar em pequenas histórias!


A Igreja de Santa Luzia, tanta saudade nas suas paredes e no seu adro.
Foto CAM


IGREJA DE SANTA LUZIA 
Funchal  - I


Ela vinha de vestidinho branco, sapatos brancos, meias brancas. Na cabeça, um pequeno véu rendilhado branco, nas suas pequeninas mãos um rosário de contas brancas e um livrinho de orações. 

Ao longo do adro da igreja de Santa Luzia, meninas rodeavam as suas catequistas, enquanto os meninos corriam e gritavam quando eram agarrados no jogo da apanhada. Os pais, mantinham o controlo dos seus rebentos, ora chamando a atenção para qualquer pormenor que tenha fugido à revista antes de sair de casa, ora pedindo silêncio. O sino, esse anunciava pelas longas badaladas que a hora da missa das crianças, estava para breve. Pequenos grupos iam agrupando-se à medida que em fila, entravam no recinto da igreja. 

Eu estava nervoso com a aproximação da primeira comunhão. Não continha em mim, a ansiedade e o nervosismo que o momento significava. Lá dentro, as meninas ficavam nos bancos corridos da frente, seguidos dos rapazes e só no último terço, os pais e restantes fieis. O padre Neves no altar, dava início à homilia. Eu olhava para a menina que estava no banco da frente. De joelhos, aproximei-me do seu rosto e sussurrando chamei-a: 

- Maria! Maria! - Ela nem ousou virar a cara ou responder ao meu chamamento, pelo que insisti; - Maria!... Então respondeu ao meu apelo, sorrindo. Aquele sorriso igual às imagens com anjos dos livros, das estampas de santos ou das pinturas das igrejas, e respondeu-me:

 - Não sou Maria... chamo-me Gorete!... Virando-me  as costas, manteve silêncio profundo até ao final da missa. 

Procurei-a de novo quando se levantou do banco e já caminhava na direção da porta principal. Aqueles olhos amendoados e doces, sorriu-me, repetindo: 

- Não me chamo Maria... sou Gorete! Pelo tom da sua voz, senti que parecia ofendida pelo meu erro grosseiro.

- Desculpa, eu pensava que todas as meninas tinham Maria no nome... como é que adivinhava que eras Gorete?... 

Seguia-a já cá fora no amplo adro de pedra negra e enormes plátanos. Enfrentei-a quando das minhas mãos segurava uma pequena flor amarela, um "dente de leão". Ela, desviou o seu olhar na direção do chão e seguiu rumo aos pais, enquanto ficava especado, paralisado pelo erro de a chamar de Maria. Um turbilhão de ideias sem nexo, ecoava vezes sem conta dentro da minha cabeça e dava resposta ao pensamento.
- Mas, como é que ia adivinhar que ela não era Maria.......
- Gorete?... Que raio de nome... E eu a pensar que as meninas eram todas Marias....

Parado, junto à grade de ferro que separa as duas partes do adro, remexia o botão do meu casaco de malha! Gorete.... Gorete.... Segui para casa que a hora do almoço já anunciava pela badalada do relógio da Sé. 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

AS PÍLULAS DO DR. ROSS

As gavetas da velha cómoda estavam cheias de objectos preciosos capazes de contagiar pequenos e graúdos. Eram caixas em madeira de frutos secos de Évora; pedras trazidas do vulcão do Vesúvio; cromos; moedas da monarquia; aparos de canetas; compassos sem peças; um cão de fila dos Açores em madeira; bonecas de porcelana e papel maché do início do século XX e muitos almanaques das Missões, entre os quais havia um que me dava cabo da cabeça... o famoso Almanaque do Dr. Ross. Fazia-se anunciar como as pílulas de vida que curavam tudo e todos. Desse Almanaque incluía um livrinho miniatura (na imagem) com a história do "País de Liliput" o famoso gigante aprisionado pelos Liliputianos. 
A capa do citado Almanaque, eram profusamente decorada e colorida com imagens, onde incluía um círculo mágico com um horóscopo, dividido em dezenas de triângulos. A cada uma, correspondia números, uma espécie de roda da sorte ou de um alvo onde se atiram pequenas setas. O pequeno livro estava com a capa plastificada, e apresentava sinais de muito uso ao longo dos tempos dentro da velha cómoda. Entre rolos, pentes, artigos de manicure, era alvo da cobiça das crianças ávidas de quererem saber o futuro numa simples roda. Depois, tínhamos de fechar os olhos, e com o polegar dar voltas e mais voltas até parar num dos espaços. Os números que iam saindo do circulo correspondiam a um labirinto de perguntas e respostas, até estarmos completamente saciados da sorte que nos tinha calhado na solução final. Fazia-nos lembrar uma velha cartomante tentando adivinhar as voltas da vida. Todos delirávamos ou não com a resposta final, aquela que realmente importava. Havia crianças que levavam a peito, casamentos e viagens, felicidade, dinheiro etc., tudo graças aos "milagres" de um senhor Ross, que se dizia doutor com ares de charlatão ao curar tudo o que havia neste mundo e ainda por cima, nos amarrava ao futuro para sempre. O famoso livrinho esfumou-se, talvez cansado de pregar felicidade em doses de simples pílulas num frasquinho esguio de vidro. Mais tarde, vim a conhecer na montra da Botica Inglesa, um velhinho que graças à suas habilidades e força, dava voltas e mais voltas numa trave de ginásio, graças aos milagres do alho. Era o outro doutor Rogoff! Só que eu saiba, as pílulas do Dr. Rogoff não traziam um livrinho com todas as instruções sobre o nosso futuro...

O EDIFICIO GIRASSOL



  
EDIFÍCIO GIRASSOL


O edifício Girassol fervilhava de jovens estudantes. Embora não tivesse nenhuma das características modernas para servir como escola, pois não fora concebido de raiz para esse efeito, mas sim como escritórios, o facto de haver necessidade de albergar um número muito grande de estudantes liceais após o 25 de Abril, optara-se por transformar um espaço bem no centro da cidade para esse fim. O resultado era um emaranhado de plásticos e vidros insonorização pouco eficaz para dar aulas. O excesso de vidro as altas temperaturas, a localização junto ao Mercado dos Lavradores, com toda a confusão de trânsito e barulho, causavam problemas na concentração dos alunos e dificuldades acrescidas aos professores afónicos. A parte positiva era situar-se junto ao edifício mãe o Liceu Jaime Moniz, sendo esta opção o mal menor. Às horas do final da manhã e da tarde, grupos de estudantes caminhavam pelas principais artérias funchalenses, procurando um transporta de regresso a casa ou um espaço onde pudessem conviver. Para trás ficavam as matérias, quando o Apolo, o Café Funchal ou a Coral, eram bem mais importantes para arejar a mente. De livros em cima das mesas, era vê-los discutindo os últimos vídeo-clips ou namoriscando, enquanto se cravava um cigarro ao parceiro ou se bebia um café deslavado. Ainda não havia net, nem telemóveis com sons irritantes e quando se queria telefonar íamos aos correios ou a uma cabine de rua, desde que tivéssemos a correspondente moedinha que nem sempre estava ao alcance da nossa paupérrima carteira.




JECA TATUZINHO - UMA DELÍCIA

"Numa casa de sapé

Lá na beira do caminho

com dois filhos e a "muié"

Mora o Jeca Tatuzinho.

No terreiro uma galinha

um galo velho e um leitão

e o quintal sem plantação

Jeca vive descansando

Nunca tem disposição

Passa o dia se espreguiçando

Diz que pro trabalho

Não tem vocação.

Numa tarde que chovia

Um doutor por lá passou

Vendo Jeca que sofria

Um remédio receitou

E lhe disse: meu amigo,

Não ande mais de pé no chão:

Sua doença é amarelão

Jeca comprou sapato

Prá família e prá a toda a criação

Dava gosto a gente "vê"

galinha de botina

e galo de botinão.

Quem passar pelo caminho

Fica logo admirado

Já não tem mais o ranchinho

No lugar tem um sobrado

Hoje em dia, o Tatuzinho

É o maior dos "fazendeiros"

Tem saúde e tem dinheiro

Sua história é uma lição

Prá quem anda de pé no chão

Sapato no pé
prá não "entrá" os "bichinho"
É a receita do
Jeca Tatuzinho".

Monteiro Lobato

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

JOBIM - 20 ANOS DEPOIS

António Carlos Jobim, já tem a sua merecida estátua! Trata-se de 20 anos após a sua morte, homenagear o grande compositor brasileiro e nada melhor do que o calçadão da bela praia de Ipanema onde na companhia de Vinicius tantos momentos inesquecíveis passaram. E direi eu, se a bela Heloisa por lá passar, com certeza irá dar uma "olhada". Que venham muitos Jobins apaixonados pela boa música brasileira.
Foto O GLOBO

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CARICATURAS


CARICATURAS


De caneta em punho
Olhar sério e distante
Passava a manhã
A desenhar caricaturas. Procurava defeitos,
Traços característicos nos rostos deambulantes
Sonolentos pela alvorada seminua.

Riscava e riscava sem fim
O homem que vendia bananas
Junto à posta da Indiana. Chapéu de abas largas, longas suíças
Ou a mulher atónita ao movimento de carros, que parecia tomar
Balanço para atravessar a rua.
Inflexível, entre a agonia duma beata mal apagada, o homem
Riscava e riscava para a posteridade, traços de vida.


ESPERA (À MARTA CAIRES)

ESPERA

Estudei o teu rosto
Entre chávenas de café,
Intervalos, doses de cigarros
Poemas escondidos
Na esquina do caderno amarrotado.
Puxo do meu Ronson prateado e a longa
Chama, incendeia-me de esperança.
- Quem me dera escrever assim!...
Transpor para o papel quadriculado
Teoremas sem significado,
Doses de versos em inglês
Roubados ao Leonard Cohen.
E enquanto espraiava o meu olhar
Pela rua esguia, a tua sombra negra e fugidia,
Se acerca da porta do liceu.
E dir-te-ei, e dir-me-ás
- Estavas à minha espera?...



A CONCHA

“A CONCHA”

A rua escura dobrava-se
Pelo peso das imperiais
Tremoços amarelos, reluzentes.
Balcão rebaixado do snack
Entre jogadas e fintas, escorriam
copos de cerveja, espuma alva.

- Quem se levantar dos redondos bancos!... Falhava
A jogada, o remate ou o golo anulado.
A Concha era uma universidade, donde sai 
as bifanas e os pregos, batatas fritas em palitos
A fumegar… e quem vai ao mar perde o lugar!


terça-feira, 11 de novembro de 2014

O CÃO QUE ADORAVA AMORES DE BURRO

Na foto, Birte estava radiante com o Bobi depois duma grande banhoca...

Não adiantava dar-lhe banho! Num ápice, Bobi desaparecia no verdejante jardim. Bastava gritar-lhe:
- Bobi, banho!... Todo ele tremia de medo. Medo da água, da monumental esfrega e do duche à mangueirada que muito dificilmente conseguiria escapar. 

Logo depois do banho, escapulia-se para o pequeno relvado, arrastando-se nos canteiros de rosas. Nem valia a pena amerçá-lo com a cana da india ou enxotá-lo. Depois, aparecia com aquele cheiro nauseabundo, nariz enfarruscado de sementes negras e pontiagudas dos amores de burro. Adorava aquela erva pestilenta o que por vezes me obrigava a novo banho e a esfrega dupla.

Depois ou ficava preso com a coleira ou era certo e sabido que iria andar a vadiar pela fazenda exalando o pivete daquelas plantas.

Amores de burro Nome Científico: Bidens pilosa - Foto do blogue http://circulosagrado-essenciasflorais.blogspot.pt/2013/03/picao.html
Nomes Populares: Picão-preto, Amor-de-burro, Amor-seco, Carrapicho, Carrapicho-agulha, Carrapicho-cuambu, Carrapicho-de-agulha, Carrapicho-de-duas-pontas, Carrapicho-picão, Coambi, Cuambri, Cuambú, Erva-de-picão, Erva-picão, Erva-pilão, Fura-capa, Furacapa, Goambú, Macela-do-campo, Paconca, Picacho, Picacho-negro, Picão, Picão-do-campo, Pico-pico, Piolho-de-padre

sábado, 1 de novembro de 2014

MARIA PAULISTA

Maria não teve infância! Maria não teve adolescência!
Maria começou a trabalhar desde tenra idade. Primeiro, ajudando os pais nas lides caseiras na quinta. Para ela, os meninos do seu tamanho iam à escola aprender a ler e a escrever. Maria, ficava em casa, quando muito podia espreitar as imagens que os verdadeiros meninos traziam nos livros dentro da sacola. Ela tentava imaginar o conteúdo na junção das letras, transformadas em palavras. Depois, foi crescendo e com o tempo, os tostões nada valiam numa vida de nada. Já com dezasseis anos, saiu da sua ilha, deixou o seu Vale de Machico e como tantos outros, rumou às Terras de Vera Cruz. 
Cruzou o oceano e desembarcou em Santos. O porto de Santos era na época a principal entrada no imenso Brasil. Depois, quase sem saber como descobriu a imensa metrópole paulista. Acabou por encontrar Vila Isabel, um enclave dentro da cidade, um bairro que a acolheu sem entraves. Na sua modesta habitação, os anos foram passando, décadas de duro trabalho, salário baixo, longa agonia. O tempo escorrendo pelas calejadas mãos, nada trazia de novo à sua vida. 
Um dia, deu consigo a pensar que teria pouco tempo para viver. Com a mãe à beira dos oitenta anos, resolveu que teria de ver uma última vez a sua terra, aquela que apesar de tudo ainda lhe trazia doces lembranças de quando era pequena, o seu cantinho. Maria era pequeno em estatura, mas grande na alma. Passou aquele ano de 1978 deitando contas à vida. Trocou os seus cruzeiros por dólares no mercado negro, o fio de ouro com a libra Rainha Victória e privando-se, encolhendo o magro salário, resolveu viajar. Aproveitou uma excursão da igreja paroquial, onde muitos outros emigrantes tinham em mente o mesmo sonho, o mesmo desafio.

Certo dia de Junho, o telefone tocou. Do outro lado do fio, Maria com sotaque paulista tentava desesperadamente identificar-se no tempo. Eu não a conhecia, mas passei o ascultador à minha tia. Depois foram minutos de espanto, diálogos continuamente interrompidos, soluços e pequenas lágrimas de emoção e saudade. Pedia autorização para ficar na nossa casa por alguns dias, enquanto durasse a estadia na Madeira.
- Claro que sim! Com todo o gosto...

Fomos buscá-la ao aeroporto. Estou a revê-la nas minhas memórias. Um metro e meio de gente, mas uma força de viver imensa, determinada e simpática, desculpando-se que não queria ser incómoda mas somente tornar a  ver os que ainda estavam vivos. Foram cinco dias de encanto, de verdadeira lição de vida o que esta mulher nos deu. Maria queria voltar a ver o seu cantinho, os primos que mal se lembravam, reconhecer lugares no tempo como se fossem os últimos instantes na sua vida. Mas o tempo não parava, dizia que a mãe velhinha estava com uma vizinha que a ajudava na alimentação e medicação. 

Era hora de partir para Vila Isabel, para o carinho da mãe que a esperava. Prometia conta-lhe todos os pormenores, todas as conversas, todos os caminhos percorridos. No seu abraço de despedida, confidenciou que agora podia morrer , tinha realizado o seu último sonho ver pela última vez Machico. E como tinha valido a pena aquele momento mágico! Nunca mais soube de Maria, no entanto jamais a esquecerei a sua grandiosa generosidade de viver. 

Llanto-Aguaviva

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

terça-feira, 26 de agosto de 2014

TRANSPORTES CITADINOS


Do meu blogue
insulaefortunatae.blogspot.pt

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

UM GOLDEN POUCO DOURADO


A notícia caíu hoje na imprensa madeirense! O mais famoso café da Madeira fechava por dívidas de quase 50 ME. Não sei se foi graças à banca hávida e intolerante, se má gestão, se desvios para off-shores, se ...
mas a cidade ficou mais pobre, mais vazia de história. A "Esquina do Mundo" merecia melhor!

sábado, 2 de agosto de 2014

AS SELECÇÔES



As Selecções

 Nos primeiros dias de cada mês, procurávamos nas Papelarias a chegada de mais um número das Selecções Reader’s Digest. Uma revista com o formato A5, que se revelava um sucesso de vendas em Portugal. Lá em casa, existiam às centenas, havendo edições dos anos 50 e 60’ do século XX, altura onde a edição em português ainda era feita no Brasil. Só em 1968, passou a haver uma edição impressa em Portugal e outra no Brasil. Mas dizia eu, que as Selecções Reader’s tinham capas sempre muito vistosas, pequenas obras de arte que guardávamos para futuras consultas. Graças a esta pequena revista, descobri pela primeira vez o grande artista americano Norman Rockwell, as paisagens tropicais da Bahía e dos seus saveiros, a belíssima imagem da barca “Guanabara” futura “Sagres”, etc. Dos seus muitos artigos, haviam alguns que sobressaíam e que me despertavam a curiosidade, entre eles estava um que se intitulava de: “Enriqueça seu vocabulário”. Tratava-se de um artigo de Aurélio Buarque de Holanda, profundo conhecedor da Língua Portuguesa e autor de um dicionário. Confesso que me divertia a tentar adivinhar o significado das palavras, muitas delas eu nunca tinha ouvido falar. Depois numa outra página, ia consultar as respostas certas e saber através da pontuação qual a correspondente classificação. Eram pequenos momentos que instruíam os leitores, onde para além de assuntos de economia e política, tinham sempre em destaque um tema condensado de uma obra literária. Eram outros tempos, onde as edições em português não eram fáceis, numa ilha isolada com a sua imprensa regional muito fechada sobre si mesma e com dupla ditadura. Só nos finais de 60’ apareceu a “Vida Mundial” uma lufada de ar fresco escrita pelas mãos dessa grande senhora açoriana Natália Correia.


terça-feira, 22 de julho de 2014

Antonio Carlos Jobim- Matita Perê

Tom Jobim: Garota de Ipanema (com Vinicius de Moraes)

RUA NASCIMENTO SILVA 107


Vinicius de Moraes e Tom Jobim
Vinicius e Heloísa - A Garota de Ipanema


Rua Nascimento Silva

Passei pela rua
Olhei obcecado para tua janela
Vi que estavas debruçado nela. Olhando o tráfego, pensando tema para poesia, e aquela letargia. Depois, acordes de piano inundaram a atmosfera e Heloísa
saiu correndo, correndo rumo a Ipanema. Sempre bonita, sempre 
charmosa, encantada no seu balançar. Dei comigo sentado na esplanada mais bonita, 
som de bossa perfumando o ar.
Heloisa continuava passando e passando no meu olhar!
Impávido, imóvel, explicando waves, que a avenida não consegue explicar.

Meu bom Tom, que fazes tanta falta, e tanta falta há-de faltar, Jobiniando nas nossas vidas,
que botequins te abraçavam pelas noites de desvario, Tom e Vinicius abraçados em cachaças e sonetos, desalinhados na madrugada.

Passei pela rua, 
Toda a poesia naquela janela. As meninas do Quarteto, 
ensaiavam com Dorival a sua Bahia. Só a força dos dedos 
iritava o teclado, desalinhado pela saudade.

Passei pela Rua Nascimento Silva
Vi Tom Jobim debrçado naquela janela, sorrindo
No asfalto dançava um samba. Falava dela
Heloísa, continua olhando, sem saber que é o mundo 
que olha pra ela!

CA

domingo, 6 de julho de 2014

AEROPORTO INTERNACIONAL DE PORTO DO MONIZ

Já tinhamos o Aeroporto de Beja abandonado. Agora, no Dia da Região um "iluminado" presidente de Cãmara resolveu botar discurso e sugerir um porto de acostagem para ferries no Porto do Moniz. Pensei que fosse alguma anedota ou que o senhor em questão estivesse grogue. Mas perante tal parvoice, sugiro ao dito senhor outra... E QUE TAL UM AEROPORTO INTERNACIONAL NO PORTO MONIZ!!!!
Senhor Presidente do Porto Moniz, p.f. não seja modesto! Invente algo mais grandioso, mais de acordo com o seu estatuto e com a sua lucidez intelectual. Vá lá, não se iniba... aproveite agora que o AJJ está de bom humor e peça-lhe um aeroporto, pois um heliporto já existe. Agora não peça ferries, onde vai você arranjar navios para acostar às rochas???    

RUSH TIME

Hora de ponta! O emaranhado de carros de bois, veículos, turistas e agentes de casas comerciais ou de navegação, fazem o resto. A cidade crescia à medida que o comércio e o turismo em paralelo, se desenvolvia em dias de navios no porto.
Da foto em questão, penso ser na zona do Pombal. Os carros de bois, tinham numeração com identificação do proprietário e número de licença, no caso "CLARA DE FREITAS - CASA BRANCA - LIC. Nº. 80

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Chico Buarque - Construção

PARABÉNS SEU CHICO DE BUARQUE E DE HOLANDA

Chiquinho faz 70 anos!

A primeira vez que tive conhecimento de Chico, teria 6 ou 7 anos. Ouvia "A BANDA" na rádio e trauteava a música que a Filarmónica passeava pelo Jardim Municipal com os músicos vestidos de índios peles-vermelhas como se tivessem acabado de chegar de Manaus ou da Bahia. Depois, eu fui crescendo e acompanhando a sua música. Mas quando Chico inventou a "CONSTRUÇÃO" achei que era a melhor canção do mundo. Chico Buarque d' Hollanda tinha tocado no céu e falado com os deuses. Ele foi o grande responsável pelo meu conhecimento do Brasil, de descobrir Juscelino e Niemayer, de Bethânia e Caetano, do Tropicalismo e de querer imitar o meu Woodstock com o Phonopoesia. As letras verde-amarelas chegavam ao meu liceu e continuaram a correr com "JOÃO E MARIA" ou a OPERA DO MALANDRO.
Para seu Chico, um abraçaço...    

OS LOUROS AOS HEROIS

Confesso que gosto muito desta fotografia. Anos 30', num qualquer sitio ermo da ilha. As crianças dão o que têm, pequenos jarros brancos, camélias ou hortências tanto faz. Erguem para que todos as vejam, turistas endinheirados disparam chapas, gravam para a posteridade duas crianças que só têm para dar um sorriso envergonhado. E o mundo continua cirandando, cirandando sem fim!

sexta-feira, 6 de junho de 2014

PEQUENOS CANTORES DE VIENA

Os Pequenos Cantores de Viena, deram um concerto na Sé completamente lotada. Fiquei impressionado com aquela pequena farda azul escura e começou a tentativa de que me conseguissem fazer uma igual. Eu iria usá-la nas minhas viagens transatlânticas ao cais da cidade. Empoleirado no rebordo das velhas lanchas, seria um verdadeiro "marine" como se acabasse de chegar de um qualquer porto da velha Europa. Eu olhava os marinheiros franceses que usavam um "babete" na farda e um boné com uma borlota vermelha. Um babete? Possivelmente era para não deixar cair comida na farda... pensava eu!

sexta-feira, 30 de maio de 2014

NO DIA DA CRIANÇA

Pouco muda! Mudam os tempos, as vontades! Os sonhos? Persistem! Nesta foto, meninas sem sonhos, sem infância, sem brinquedos pousam para a camera. Alguém que achando a pobreza extrema digna de gastar um clic, um negativo cheio de ternura de crianças madeirenses paradas no tempo. E contudo, se calcorrearmos o interior da sua alma, os mesmos sonhos persistem.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A MALA DE MARSELHA


Necessitava chegar naquela quarta-feira sem falta ao Funchal. No dia seguinte teria de estar já no serviço e como tal, só me restava ao contrário do que era habitual, conseguir um voo a todo o custo. Os voos do final da tarde estavam todos esgotados, mas excecionalmente surgiu um voo ao início da tarde.
Entro no avião! O longo corredor estava deserto. Passageiros seriam pouco mais de uma dezena. Optei por viajar no centro da aeronave num lugar à janela. Depois, enquanto colocava o cinto e me certificava da minha bagagem de mão, um passageiro com ar de andar meio perdido, após fazer uma panorâmica do interior, decidiu sentar-se a meu lado. Confesso que fiquei ligeiramente irritado, por não poder disfrutar de maior privacidade. Com um avião vazio, vai logo sentar-se a meu lado???  O homem acondiciona uma mala diplomática de cor negra, entre as pernas. A hospedeira passa a ronda para confirmar se tudo está dentro das normas de segurança. O avião inicia a marcha. Primeiro, lentamente! Depois,  à  medida que ganha confiança, vai contornando as riscas desenhadas no asfalto da pista. Por fim, posiciona-se na longa reta enquanto aguarda ordem de partida. Ouve-se um diálogo de fundo entre o comandante e a torre de controlo e, quase de imediato, o avião da Tap arranca, fazendo com que as minhas costas se colem à cadeira. Sobrevoa-se a cidade coberta por nuvens poluídas. O avião vai subindo, subindo até sentirmos o toque de que podemos libertar-nos do cinto. Olho o azul no horizonte e o homem a meu lado, tenta meter conversa. Primeiro, quase murmurando, meio monólogo entre dentes, vai dizendo que está de regresso à Madeira trinta anos depois… Trinta anos? Ripostei… isso é uma eternidade! Por fim à medida que ganha confiança, vai desbobinando que deixou Marselha e vai regressar à sua Calheta natal. Pretende investir num negócio, mas não sabe bem o quê! Tudo muito vago, quase sem sentido.
- Tenho muito dinheiro para investir! O que me aconselha? Confesso incomodado com o rumo da conversa. Digo-lhe que não tenho jeito para negócios!
A hospedeira vai distribuindo bebidas e bolos secos. O passageiro a meu lado, inclina-se para a mala diplomática, toca nos fechos de abertura, levanta a tampa, vira a maleta na minha direção. Dentro estão alinhadas centenas de notas de francos amarradas com cintas de papel. Declara-me o valor em causa e, au ainda mais incomodado com o que via, procuro elucidá-lo de que é um autêntico perigo, que pode ser assaltado a qualquer instante. Ele nem pestaneja! Diz que isso não o afeta, encostado a um dos cantos está uma pequena arma acondicionada.
Pergunto-me vezes sem conta por que raio teria de me calhar este “embrulho”. Depois, pede-me que lhe indique o melhor hotel do Funchal! Promete-me boleia para a cidade, enquanto vou insistindo que não necessito por que tenho um táxi reservado e pago para me levar a casa. Mas vai insistindo, insistindo, insistindo que paga a viagem até ao Funchal. Por fim decido-me a levá-lo no táxi que está `a minha espera. Dou indicações ao Senhor Macedo para que leve o passageiro ao Casino Park Hotel. O táxi parou à porta de casa e deu ordem para que não recebesse o valor da deslocação. Por fim já em casa, senti que tinha acabado o sofrimento daquele voo e da famosa mala cheia de francos que vinha de Marselha. Eu já pensava em máfia marselhesa, em tiroteios e emboscadas visto em filmes franceses de Jean Gabin.

Para meu espanto, dois ou três dias depois, vou encontrar o passageiro vindo de França, na Avenida Arriaga. Logo que me viu, agradeceu-me o excelente hotel. Tinha depositado o dinheiro num banco e andava a sondar um possível investimento. Nunca mais tive qualquer tipo de notícias, se foi bem ou mal sucedido, mas quando entro num avião vem logo à memória a cena da mala diplomática cheia de dinheiro e um revolver pronto a disparar.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

A CADEIRA DOS MILAGRES

A CADEIRA DOS MILAGRES
(Uma cadeira de lona foi mais importante para a história de Portugal do que mil homens. A cadeira do Forte de S. João do Estoril, teve o condão de fazer cair um regime podre, com um ditador "gagá" que assim teve um derrame e, acabou por sucumbir. Quanto à cadeira, deveria estar exposta no Palácio da Ajuda para que outros se pudessem sentar e ter o mesmo tratamento. Faziam um bem ao país. Afinal eles também nos matam, só que lentamente….)
  
  
  • Existem muitas semelhanças entra uma América Latina e uma Europa Latina. Mais do que possam parecer à primeira vista, comparar a dita PIGE-designação que os países mais “ricos” designam à Europa do Sul (Portugal/Itália/Grécia e Espanha) que não conseguem sair da mediania económica e politica e, mais ainda, da mediocridade cultural. É claro que os políticos destas regiões sabem que ao baixo índice de educação, está sempre associado uma série de fatores que controlam toda uma sociedade, aniquilando, empobrecendo e atrofiando mentes.

  • Vem a este propósito a atual condição que países saídos de ditaduras sejam elas de tipo for, mas no caso da ditadura militar grega, da fascista de Itália, da franquista ou salazarista, prevalecerem ao longo de décadas com as suas regras delineadas. A grande maioria do povo nem se apercebe da instrumentalização em que através dos órgãos de informação nomeadamente a televisão, que cada vez mais empobrece a nossa sociedade, (só dá o que lhes convém, o que é fácil, o que não faz pensar o que distrai). Nada mudou: pão e circo são desde os tempos do apogeu da civilização romana até ao presente, contudo, tão verdadeiro.

  • Vemos e ouvimos políticos que se mantém no poder colados que nem lapas durante décadas e décadas, declararem frases pomposas, agressivas e falsas, para um minuto depois contradizerem-se. Faz lembrar os tempos da polícia politica em que por vezes se diziam frases contra o antigo regime, para depois se apanharem e prenderem cidadãos cujas ideias eram contrárias; "apanhar moscas com mel"!

  • À pouco tempo dizia-se à boca cheia que tinham votado no nosso primeiro ministrozinho por que era bonitinho e charmoso. Agora apanhamos porrada destes senhores, perdão badamecos sem qualidade, cultura ou níveis de educação. Podem rirem-se à vontade, por vezes tenho a noção que o povo gosta de sofrer, de apanhar, desde que não o façam pensar. Isso dá muito trabalho. O povo quer é divertir-se, rir muito, ver telenovelas e muito futebol.
  
  • Depois o clero cuida da parte espiritual de cada um de nós. Dá-nos boas lições e encaminha-nos nas alturas mais difíceis da vida, para o único caminho futuro, a vida eterna. Existe coisa melhor? À bem pouco tempo, impingiam-nos a ideia que quanto mais sofremos na nossa vida térrea, melhor pois maior e mais feliz seriam a vida eterna. Balelas… afinal o clero que toda a vida nos lixou a vida neste país, foi também ele grande braço direito do antigo regime. Não nos podemos esquecer de um cardeal Cerejeira, braço direito do Salazar, foi comparsa e tão fascista como os que se alimentavam do regime. Depois veio a Primavera Marcelista e a queda de um regime já por si mesmo podre. As principais estruturas do país já não aguentavam mais. Os mesmos que durante anos a fio nos davam palmadinhas, material de guerra que nem para a Feira da Ladra, serviam agora, atacavam-nos que nem cães mordendo-nos a mão. Queriam as nossas ex-colónias com o recheio que nelas existiam. Quanto à capital do Império, outros iluminados passavam a vida na pedinchice, pedindo e pedindo sem fim, dinheiro ao estrangeiro dizendo que era para a nação. Mas o que eles queriam era poder  serem eles a gerir esse mesmo dinheiro, para contas corruptas.

  • Houve uma altura em que os carros todo o terreno, eram mais do que as mães. Pessoas que não trabalhavam, passavam a vida a viajar para o estrangeiro, a fazer férias em locais exóticos deste planeta. De que viviam? Desconheço… mas constava-se que da bolsa, da especulação… as viagens para o Brasil estavam mais cheias do que os autocarros para a Costa da Caparica. Os BMW e os Audis, esgotavam! Agora nem se fala...

  • Obras faraónicas proliferam anunciando-se serem sempre, a maior da Europa, a mais moderna da Europa, ou a mais comprida ponte ou auto-estrada do burgo. Vivíamos felizes, contentes e com alguns trocos no bolso e no banco. É claro que a banca espreitava. Queria sempre mais e mais. Quando já não dava mais para aguentar, a bem da economia planeavam-se mais infraestruturas. O TGV vinha a caminho! As Câmaras andavam à batatada, por que todas elas queriam uma estação. Para o Campeonato da Europa de Futebol, eram necessários 4 a 6 estádios, fizeram-se 8. De novo, todas as cidades queriam um ou mais estádios topo de gama. Agora nem para galinheiros servem e ainda nem pagos estão – Algarve, Leiria ou Aveiro, sem contar com o caso Boavista. O Rei da Batata, anos a fim envolvido em negócios profundos, vivia na agonia. Arranjavam-se esquemas para conseguir dinheiro fácil. Vendiam-se carruagens de comboios, lucravam os intervenientes. O dinheiro escorria para as contas particulares na Suiça ou para off-shores nas Ilhas Caimão. Os políticos esses, iam lucrando como convém. Contas douradas, cartões dourados, máfias …

  • São quarenta longos anos de agonia e de dependência. E enquanto uns vão-se libertando e morrendo, outros vão vivendo e cantando um longo e triste fado.
  
  • Na Madeira, AJJ mantém-se à vários anos, ameaçando vezes sem conta que vai bater com a porta. As manchetes anunciam a “bold” que o Presidente está farto… engraçado não é ele que está farto, somos nós que estamos fartos das palhaçadas, da sua má educação, das suas birrinhas, das suas bebedeiras vinícolas, dos seus ajudantes de campo que durante essas mesmas décadas são autênticos lambe botas. E são tantos… aqueles que graças às piadinhas sem graça, à senilidade do staff dos secretários & secretários limitada. Será que não existem cadeiras de lona na Madeira?


Mandem vir a cadeira do Forte de S. João!                      

25 DE ABRIL

25 DE ABRIL

O tempo voou
pelas ruas, a chama da esperança
nos gritos e palavras de ordem. 
A magia da liberdade
nos sorrisos do povo. Nos cartazes, 
nas paredes, frases poderosas, pinturas murais
com cravos. E o povo, e o povo!
De mãos dadas, cantamos até à exaustão, 
rouquidão... 
"- A canção é uma arma..."
Nas janelas sobem bandeiras
coloridas como a vida, nos teus braços
abraços esmagam a nossa felicidade. No ar,
aquela liberdade, liberdade, liberdade...  

C.A.  

domingo, 13 de abril de 2014

O PASSAGEIRO FORA DE HORAS


Navio "VENUS" da Companhia Bergen Line, no Porto do Funchal

Seria Maio? Possivelmente! Sei que os dias eram claros, solarengos, embora por vezes caíssem monumentais chuvadas. Maio era assim, incerto na mudança entre a Primavera e o Verão que se aproximava.
Na baía, o navio sueco “Vénus” era na altura, habitual frequentador em cruzeiros vindos desde a longínqua Escandinávia, para a Madeira. Traziam turistas com fome de Sol; calor, promessas de belas paisagens e de descanso. Cruzeiros do Sol, como eram chamados! Faziam escala no porto de Southampton, onde recolhiam turistas britânicos. Mas dizia eu, o “Vénus” lançou ferros logo pela manhã. Forasteiros calcorreavam as principais artérias funchalenses ou deslocavam-se em excursões de autocarro pelos principais pontos turísticos.

Pelo final da tarde, o navio estava de novo pronto a zarpar rumo às Canárias ou de volta às terras de origem dos seus passageiros. Seriam umas seis da tarde, quando vi o radar começou a dar voltas sem fim, enquanto das suas chaminés listadas, espesso fumo negro surgia rumo ao céu anil. O rebocador estava já de alerta, pronto a esticar cabos, arrancando o navio do molhe e encaminhando-o para o longo oceano. Depois, dos seus canos ouvimos vezes sem conta, o volume da sirene. No entanto continuava imóvel, como se recusasse a partir! Achava que algo se passaria, mas o reconhecer dos seus últimos três silvos prolongados e definitivos, davam razão ao seu derradeiro adeus. O rebocador deu um puxão, esticaram os cabos da popa e da proa, o navio descolou do cais e após ganhar folga, larga rumo ao horizonte. Passou frente ao cais da cidade, onde me encontrava debruçado na amurada de ferro verde escuro, e continuei a ouvir o silvo inexplicável da sua sirene. O paquete tomou balanço e iria em velocidade moderada, quando dos fundos do cais, um homem apareceu a correr e a gritar gesticulando com os braços. Era um retardatário passageiro que não se tendo apercebido da hora de partida, acabava de perder o direito a regressar a casa. Nas escadas do cais, um agente de navegação apressou-se a dar ordem à lancha “Mosquito” para que largasse amarras em perseguição do navio. A sua buzina era no entanto surda. A bordo da pequena lancha, abanavam os braços, gesticulavam  no entanto segundo após segundo, a distância era cada vez mais pronunciada ente o paquete e a minúscula “Mosquito”.  Especado, eu via a cena e, tomando partido pelo infeliz passageiro
Que não teria alternativa senão regressar a casa noutro navio ou esperar que voltasse na quinzena seguinte, o “seu” barco.
Coisas que acontecem a quem anda distraído na hora da partida ou com o relógio com as horas trocadas.
             
  

sábado, 22 de março de 2014

GOLDEN GATE

Golden Gate - A esquina do mundo! A Avenida ainda tinha "americanos" nos seus longos carris, homens de palhinha e senhoras que sentadas nas cadeiras de vime olhavam a magia da fotografia.

sábado, 15 de março de 2014

CUSCUZ DA MADEIRA


Hoje vou falar de um produto regional que nos últimos anos tem vindo a sofrer uma quebra no seu consumo e na sua procura. Muitos madeirenses não conhecem ou não sabem confecionar os verdadeiros cuscuz madeirenses. Embora de origem magrebina, os cuscuz da Madeira não têm nada a ver com o mesmo produto que vemos nos supermercados e que eu chamo de "alpista".
Basta ver as fotos para concluir que a sua textura, e eu gosto bem grados e sem pó. Sendo eu um grande apreciador deste produto e tendo chegado pelo correio uma encomenda da produtora da Ponta do Sol, a D. Maria da Luz que os faz no seu estabelecimento, não resisto a colocar no meu blogue para que outras pessoas possam apreciar este produto.
A sua cozedura assemelha-se ao arroz com um pouco mais de água, acompanhado com pequenas folhas da tradicional segurelha. Basta colocar numa panela um dente de alho picado, um pouco de manteiga para alourar ou um pouquinho de azeite se preferir. Depois juntar água e um pouco de sal. Após esta se encontrar a ferver, adicione os cuscuz (a mesma quantidade que costuma usar com o arroz). Deixe cozer e quando estiver no ponto ou seja com aqueles característicos furinhos que o arroz faz, desligue o fogão tape a panela durante 5 minutos e está pronto a servir. Esta é a maneira mais simples, mas pode levar num pirex ao forno a gratinar ou adicionar outros produtos como o tomate ou caril. Acompanha com a tradicional galinha, com carnes ou peixe e é difícil encontrar nos restaurantes madeirenses onde a preferência pela espada preta dá uma imagem distorcida da culinária madeirense. Parece que existe falta de imaginação na rica cozinha da Madeira e neste caso nos seus restaurantes. 
Experimente e vai ver que se torna adepta deste produto!
Após o encerramento em Lisboa do Super Sá, a melhor opção é comprá-los directamente na Ponta do Sol ou pedir pelo telefone 291974432, A D. Maria da Luz é duma simpatia extrema e com certeza envia para qualquer canto do mundo via correios.

sábado, 1 de março de 2014

SOLITUDE by Rodrigo Leao (+lista de reprodução)

TELMA MONTEIRO EM OURO


Poucas vezes falo de desporto. É uma ironia, para quem como eu fui atleta do S.L.Benfica e vice campeão de Portugal. No entanto, hoje deu-me para homenagear a nossa Telma. Somos da mesma família desportiva e o Judo continua a entusiasmar-me ao longo de muitos anos. Hoje, em Varsóvia somou mais uma vitória de ouro ao ser campeã europeia. É só mais um titulo a juntar a outros europeus e mundiais. Por isso decidi-me a homenageá-la pelo seu carácter e força. E a "palmeirinha" que é feito dela???

O MEU CAVALO E O CAVALO DE NERUDA


O cavalo mantém-se na sala da Casa de Pablo Neruda

O MEU CAVALO POBRE E O CAVALO RICO DE NERUDA

O cavalo pobre vivia numa humilde casa! Era feito de papel maché, pintado com anilinas castanhas e pretas e, não me lembra a sua proveniência. Talvez a banca do mercado, a loja da Exposição Alemã ou a do velho Talassa que tinha porta aberta na Rua de João Tavira. O certo é que cumpria as suas funções para que tinha sido feito; alegrar crianças. Vivia o dito cavalinho preso com cola a uma tábua de madeira sobreposta de quatro pequenas rodas que lhe davam vida ou melhor locomoção. Empoleirado sobre o seu dorso, crinas reluzentes sobressaiam enquanto me apoiava para não cair. Terminava o velho amigo com uma majestosa cauda feita de sisal aparado que mais parecia uma pequena vassoura. Pouco interessava esses itens. Eu descia a caminho do velho Oeste, pelas pradarias rumo à Padaria Conceição, atravessava a Ponte Nova, os grandes declives das Montanhas Rochosas da Rua 5 de Outubro e, sempre pelo passeio de pedra calcária, parava junto ao quartel dos bombeiros. Em cima do seu dorso, olhava embasbacado os veículos bronzeados de vermelho vivo com as suas crinas douradas. Carros dos bombeiros era coisa do outro mundo que apetecia subir para o seu dorso e caminhar pelas ruas com as sirenes em fúria.
Um dia, esqueci-me do inseparável amigo no quintal. Tinha chovido toda a noite e quando dei conta, o Rocinante estava desfeito, esventrado e com o cartão desbotado à mostra. Foi uma agonia a nossa separação! Cavalinho pobre, morreu ensopado para sempre, acabou provavelmente no lixo, abandonado e só em longo martírio.


Neruda apaixonou-se desde o primeiro dia em que na montra duma loja, viu aquele imenso cavalo de madeira. Toda a vida suspirou em possuir aquela magnifica peça na sua coleção. Levar o cavalo para sua casa, coloca-lo na sala, dar-lhe vida, adotá-lo à  sua família.
- Ah que me dera ter aquele cavalinho! – dizia… tenho de comprá-lo custe o que custar!

O dono da loja era continuamente alvo de assedio por parte de Pablo Nedruda, que teimava em possuir a peça, Mas o dono ignorava o seu pedido, pois tinha com aquele cavalo a mesma paixão. Sempre se recusou apesar das investidas do poeta em se separar do equídeo. Mas um dia a loja ardeu! Poucos foram os artigos que escaparam à fúria das chamas. Para espanto de Neruda, veio a ter conhecimento que o seu adorado cavalo, embora chamuscado e sem rabo, tinha sobrevivido. Ao saber que o artigo iria ser posto à venda, procurou de imediato adquiri-lo e, conseguiu. 



Levou-o para casa como se fosse um trofeu! Colocou-o na sala, convidou os amigos e  fez uma grande festa para mostrá-lo. Perante o facto do velho cavalo cansado pelo tempo não possuir cauda, convidou os presentes a oferecerem um rabo. Dos presentes vieram então três propostas ! Como não havia consenso quanto ao que melhor se adequava ao cavalo de madeira, resolveram que o melhor seria colocar não um mas três caudas. Assim na sua Casa Museu do poeta Neruda, se mantém imóvel, feliz , adorado pelo público um cavalo “sui generis” adotado e senhor de três caudas!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

VENTOS CRUZADOS

VENTOS CRUZADOS

Ana Rita, tinha um inexplicável encanto para mim! Era uma mulher organizada, honesta e muito limpa, aqueles atributos que qualquer jovem constatava serem primordiais para um relacionamento a dois feliz. Confesso que andava um pouco preso pelo beicinho. Era a sua simplicidade e o seu sorriso que me cativava. Mas para quê, tentar descrever uma coisa que não se consegue explicar quando se está apaixonado? O certo, é que após tanta insistência para que pudesse conhecer a sua família que vivia no Arco de S. Jorge, um sábado dei comigo a comprar um bilhete na velha garagem dos Autocarros de São Roque do Faial, ali para os lados do Jardim Municipal. Era uma odisseia, levantar bem cedo para chegar à hora do almoço a S. Jorge. O autocarro ia cheio. Pessoas acotovelavam-se em busca do melhor lugar para a longa travessia. Confesso que quando fez a primeira paragem no Poiso, sai para desentorpecer as pernas, apanhar ar e tomar um café. A Casa do Poiso, era um autêntico buliço. Empregados tratavam os clientes como se fossem gado, enquanto ponchas e cafés aguados, corriam a rodos. O Palinhos, um empregado anãozinho, despejava borras e água escura “tintada” em copos de vidro, emborcados a eito pelos muitos viajantes que se acercavam do polido balcão de madeira. Por fim, enquanto uns iam a caminho da casa de banho, outros encaminhavam-se para o autocarro, para continuar o doloroso calvário de curva e contra curva, descendo até ao Faial e subindo para Santana. Quando por fim, apareceu no horizonte a igreja de S. Jorge, local determinado para sair, dei comigo na presença de um formigueiro de familiares e amigos da menina prendada. Confesso que não me agradou nada, ser alvo de uma autentica manifestação de boas vindas, como se fosse um qualquer presidente, desses que passam a vida a abrir os braços, dar beijinhos em, criancinhas e prometer mundos e fundos. O meu sábado, estava agitado!
Depois, a curiosidade dos locais, virou-se para os meus ténis Adidas de cor azul ultramarino. Uns miúdos perguntavam-me se eu não tinha dinheiro para comprar sapatos, pois andava com uns de pano… aí comecei a ficar levemente irritado! Que diabo uns ténis Adidas não é propriamente feito de trapos. Depois de ser apresentado às altas individualidades da casa, de ter dado uma volta pelas fazendas e ouvir explicações dos mais velhos sobre as questões mais pertinentes da agricultura local, foi a vez da investida da mãe. Puxando-me para um canto do terreiro, foi direta ao assunto:

- Então, o senhor viveu em Lisboa? Deve ser muito rico! – Confesso que me sentia assaltado! Faltava-me o ar! Tinha dificuldade em expressar-me. Contudo, argumentei que vivia do meu modesto salário; que por acaso ainda dava para pagar à Empresa de Tabacos Madeirenses, uns escudos em maços de tabaco; gastar no snack A Flor, uns cafés, pagar algumas refeições no Restaurante A Rotunda ou uns aperitivos no Apolo. Depois ainda tinha o jornal “A Bola”, o “Cambio 16” e a "Newsweek" reservadas quinzenalmente, ou algumas revistas que comprava na Cabana do Jardim. Pouco restava no meu porta-moedas mensal. No entanto, não conseguia demover as nuvens negras que se aproximavam. A conversa já ia alta!

- Mas a sua família é muito rica… - Ripostava! E por mais que tentasse ultrapassar a questão, e dizer que não era bem assim e que eu não tinha nada a ver com a vida dos outros, a coisa estava feia.

- Perguntei à menina Candinha, que me disse conhecê-lo desde pequeno e que me deu informações sobre si! - rematava a mãe da Ana Rita. O caldo estava entornado! O que seria um mero almoço de convívio, estava a transformar-se num longo calvário, com informações, contra informações e espionagem pelo meio. A menina Candinha era Assistente Social em São Jorge e uma individualidade muito querida e respeitada no meio, de um carinho e de uma bondade sem limites. Na hora do almoço, o meu apetite pelo cozido, deu-me a volta ao estômago. A certa altura, já tinha consultado o relógio, vezes sem conta, e feito cálculos para o regresso. A tarde iria ser longa, penosa até que o autocarro retornasse a sua viagem de volta ao Funchal. E foi assim que terminou a longa odisseia de uma tarde em S. Jorge.

À pouco tempo, passei por aquelas bandas! Confesso que recordei alguns recantos, sítios e lugares. Pareceu-me que estava como se fosse ontem! O meu receio, era que alguém implicasse com os meus ténis novos, que alguém me convidasse a almoçar um cozido, ou me sussurrasse ao ouvido algo sobre a minha fortuna pessoal. De Gracinda, sei apenas que é uma mulher feliz e basta! Mas o silêncio da paisagem, o deserto da estrada, o largo da igreja sem ninguém à vista, veio trazer de novo à baila, aquele sábado. Apesar de toda aquela solidão, veio à minha memória, murmúrios de uma  romaria de gente a fazer um diagnóstico à minha pessoa, enquanto o silêncio se mantinha. Aquela atmosfera doía de solidão nas suas hortas amanhadas, as suas uvas tristes e descoloridas, as couves e as poucas roxas hortênsias que ladeavam a estrada.

O tempo, esse passou tão fugaz como o vento cruzado! Nunca se sabe de que quadrante sopra, só sabemos que é vento por que nos incomoda a face e a visão. Que nostalgia!           

domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM HOMEM DEBRUÇADO SOBRE O MAR



UM HOMEM DEBRUÇADO SOBRE O MAR
 O pequeno rochedo encostado à Rua Carvalho Araújo, tinha um pouco de tudo. Uma pequena habitação abarracada com restos de tábuas trazidas da praia ou de alguma obra, uma horta com alguns legumes, uma videira que no Verão permitia colher alguns cachos de uvas, fazer sombra e não permitia a olhares indiscretos que por ali passassem visionar o pequeno quintal. Os gatos e alguns cães emolduravam o terreno e davam a entender que ali vivia gente. De facto, um solitário homem passava o dia entre o seu reino de alguns metros e a íngreme escada que dava directamente aos negros calhaus da praia. Ali estava uma pequena canoa a remos onde em dias que o mar permitia, ia dar uma volta, entre a pequena baia que se destacava entre os rochedos da Pontinha e o Hotel Reid’s. Debruçado sobre o muro que delineava a artéria, eu gostava de espreitar tão curiosa habitação. O local era deslumbrante! Debruçado pela arriba rochosa, o mar despejava entre cada onda de espuma, o branco que cobria o basalto, dançando entre as espaçadas vagas ou em dias de calmaria, onde se apanhavam lapas e caramujos ou alguns caranguejos. Como poderia viver naquele minúsculo terreno, tendo como horizonte o imenso azul do mar durante o dia ou a negritude da noite? A Ilha dos Amores mantinha a sua distância, mesmo ali ao lado, entre turistas aventureiros que nadavam até se empoleirarem nas suas rochas.
O homem cavava e regava as verduras entre a longa videira e a pimpineleira que estendendo os seus braços, permitia algum recato. Na minha imaginação, pensava quão  feliz poderia ser aquele humilde homem ao ter o mar sempre à sua porta.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

OS REFÚGIOS DA TORRINHA



Em algumas quintas no Caminho da Torrinha, nas fazendas em socalcos cobertas de bananeiras, existiam uns esconderijos camuflados com mato, troncos e folhagem diversa, refúgios subterrâneos de forma circular. Os estranhos “poços” segundo diziam eram antigos esconderijos feitos pela população, para que em caso de ameaça pudessem recolherem-se em segurança. Confesso que sempre foi um mistério para mim, o seu estado de abandono, como se tivesse um propósito de deixar em completo esquecimento os referidos poços. Não sei se actualmente, com a demolição de muitas das quintas e a sua substituição por prédios e condomínios particulares, os mesmos ainda se encontram. Provavelmente nunca se saberá o propósito da sua edificação. Se uns especulavam ser da época das invasões de piratas vindos do Magrebe, ou de corsários franceses, haveriam outros que indicavam ser mais provável ser dos tempos da Primeira Grande Guerra. Havia quem dissesse que a sua última utilização teria sido aquando do famoso ataque do submarino alemão à cidade do Funchal, a população tenha tomado providências para que em caso de ataque, estes refúgios tornar-se-iam um lugar seguro para as famílias.. Nunca consegui tirar a limpo a questão. Recentemente veio à minha memória  o espaço de pequenos bunkers feitos de pedras sobrepostas e proteção em madeira, em que os adultos faziam tenção de constantemente chamarem-me a atenção para que não me aproximasse e não caísse dentro dos famosos refúgios a que eu associava a piratas qual Sandokan de espada em punho esventrando as folhas verdes das bananeiras

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O POVO E O REI

O POVO E O REI OU O SÍNDROMA DA MARINHA GRANDE

A recente mensagem expressa na RTP sobre o falecimento do "Pantera Negra" por um cidadão deste pais em que expõe a sua opinião sobre Eusébio da Silva Ferreira, afirmando ser um grande futebolista mas com  pouca cultura e amante de whiskie, demonstrou uma falta de charme e de educação por todos evidenciados.
Quanto a mim, esse mero cidadão humilhou milhares de cidadãos nacionais que com a sua 4ª. Classe, a sua honestidade e o seu esforço, deram muito mais ao país do que o vulgo cidadão em causa. O seu diploma da Sorbonne e os seus títulos “honoris causa” não chegam à simplicidade, momentos de glória e devoção que Eusébio deu a este país. A respeito de cultura é tudo muito relativo, pois os seus anos passados em França não conseguiram disfarçar o seu mau francês e o seu horrível sotaque. Dei comigo a pensar o por quê da sua atitude mesquinha e hipócrita num momento em que Portugal e o seu povo prestava tão grande homenagem de despedida ao seu Rei. No caso presente, foi o povo que na sua simplicidade lhe atribuiu o titulo de “King”, por ser o que melhor se adequava à sua grandeza como jogador que tive o prazer de conhecer na minha infância. E Eusébio nunca teve vaidade. Quanto ao senhor já não se pode dizer o mesmo! O seu passado político, os seus irreparáveis erros na época de descolonização, e outros tantos ao longo do tempo que desempenhou cargos políticos, deixaram um rasto indelével que só o tempo e a sua história, irão dar razão.


  • Ou o senhor bebeu água mineral que se encontrava fora de prazo e fez-lhe mal ao cérebro;
  • Ou estaria com febre no momento em que fez o depoimento. Neste caso aconselho a ir para a caminha descansar, pedir à sua Maria que lhe faça uma boa poncha madeirense e, vai ver que amanhã estará mais lúcido;
  • Ou evidencia sinais galopantes de senilidade e, nesse caso perdoo-lhe o seu artigo;
  • Ou sentiu alguma inveja por o mesmo povo que o elegeu e o colocou em tão alto pedestal, tenha manifestado o seu carinho pelo cidadão Eusébio da Silva Ferreira, e  esse gesto o tenha afectado no subconsciente!


Agora consigo entender que o senhor mereceu bem a bofetada dada por um elemento desse tal povo aquando da sua passagem pela Marinha Grande. Pena não ter aprendido a respeitar  o tal “povão” que tanto o incomoda pelas baixas qualificações culturais. Quanto à minha pessoa aproveito para lhe informar que pertenço a essa tal classe de baixa qualificação, e que apesar de não ter títulos “honoris causa” oferecidos por amigos, pode crer que ainda lhe poderia ensinar a falar um pouco de francês com melhor sonoridade do que o seu reles, macarrónico e algarviado vocabulário.