sábado, 22 de fevereiro de 2014

VENTOS CRUZADOS

VENTOS CRUZADOS

Ana Rita, tinha um inexplicável encanto para mim! Era uma mulher organizada, honesta e muito limpa, aqueles atributos que qualquer jovem constatava serem primordiais para um relacionamento a dois feliz. Confesso que andava um pouco preso pelo beicinho. Era a sua simplicidade e o seu sorriso que me cativava. Mas para quê, tentar descrever uma coisa que não se consegue explicar quando se está apaixonado? O certo, é que após tanta insistência para que pudesse conhecer a sua família que vivia no Arco de S. Jorge, um sábado dei comigo a comprar um bilhete na velha garagem dos Autocarros de São Roque do Faial, ali para os lados do Jardim Municipal. Era uma odisseia, levantar bem cedo para chegar à hora do almoço a S. Jorge. O autocarro ia cheio. Pessoas acotovelavam-se em busca do melhor lugar para a longa travessia. Confesso que quando fez a primeira paragem no Poiso, sai para desentorpecer as pernas, apanhar ar e tomar um café. A Casa do Poiso, era um autêntico buliço. Empregados tratavam os clientes como se fossem gado, enquanto ponchas e cafés aguados, corriam a rodos. O Palinhos, um empregado anãozinho, despejava borras e água escura “tintada” em copos de vidro, emborcados a eito pelos muitos viajantes que se acercavam do polido balcão de madeira. Por fim, enquanto uns iam a caminho da casa de banho, outros encaminhavam-se para o autocarro, para continuar o doloroso calvário de curva e contra curva, descendo até ao Faial e subindo para Santana. Quando por fim, apareceu no horizonte a igreja de S. Jorge, local determinado para sair, dei comigo na presença de um formigueiro de familiares e amigos da menina prendada. Confesso que não me agradou nada, ser alvo de uma autentica manifestação de boas vindas, como se fosse um qualquer presidente, desses que passam a vida a abrir os braços, dar beijinhos em, criancinhas e prometer mundos e fundos. O meu sábado, estava agitado!
Depois, a curiosidade dos locais, virou-se para os meus ténis Adidas de cor azul ultramarino. Uns miúdos perguntavam-me se eu não tinha dinheiro para comprar sapatos, pois andava com uns de pano… aí comecei a ficar levemente irritado! Que diabo uns ténis Adidas não é propriamente feito de trapos. Depois de ser apresentado às altas individualidades da casa, de ter dado uma volta pelas fazendas e ouvir explicações dos mais velhos sobre as questões mais pertinentes da agricultura local, foi a vez da investida da mãe. Puxando-me para um canto do terreiro, foi direta ao assunto:

- Então, o senhor viveu em Lisboa? Deve ser muito rico! – Confesso que me sentia assaltado! Faltava-me o ar! Tinha dificuldade em expressar-me. Contudo, argumentei que vivia do meu modesto salário; que por acaso ainda dava para pagar à Empresa de Tabacos Madeirenses, uns escudos em maços de tabaco; gastar no snack A Flor, uns cafés, pagar algumas refeições no Restaurante A Rotunda ou uns aperitivos no Apolo. Depois ainda tinha o jornal “A Bola”, o “Cambio 16” e a "Newsweek" reservadas quinzenalmente, ou algumas revistas que comprava na Cabana do Jardim. Pouco restava no meu porta-moedas mensal. No entanto, não conseguia demover as nuvens negras que se aproximavam. A conversa já ia alta!

- Mas a sua família é muito rica… - Ripostava! E por mais que tentasse ultrapassar a questão, e dizer que não era bem assim e que eu não tinha nada a ver com a vida dos outros, a coisa estava feia.

- Perguntei à menina Candinha, que me disse conhecê-lo desde pequeno e que me deu informações sobre si! - rematava a mãe da Ana Rita. O caldo estava entornado! O que seria um mero almoço de convívio, estava a transformar-se num longo calvário, com informações, contra informações e espionagem pelo meio. A menina Candinha era Assistente Social em São Jorge e uma individualidade muito querida e respeitada no meio, de um carinho e de uma bondade sem limites. Na hora do almoço, o meu apetite pelo cozido, deu-me a volta ao estômago. A certa altura, já tinha consultado o relógio, vezes sem conta, e feito cálculos para o regresso. A tarde iria ser longa, penosa até que o autocarro retornasse a sua viagem de volta ao Funchal. E foi assim que terminou a longa odisseia de uma tarde em S. Jorge.

À pouco tempo, passei por aquelas bandas! Confesso que recordei alguns recantos, sítios e lugares. Pareceu-me que estava como se fosse ontem! O meu receio, era que alguém implicasse com os meus ténis novos, que alguém me convidasse a almoçar um cozido, ou me sussurrasse ao ouvido algo sobre a minha fortuna pessoal. De Gracinda, sei apenas que é uma mulher feliz e basta! Mas o silêncio da paisagem, o deserto da estrada, o largo da igreja sem ninguém à vista, veio trazer de novo à baila, aquele sábado. Apesar de toda aquela solidão, veio à minha memória, murmúrios de uma  romaria de gente a fazer um diagnóstico à minha pessoa, enquanto o silêncio se mantinha. Aquela atmosfera doía de solidão nas suas hortas amanhadas, as suas uvas tristes e descoloridas, as couves e as poucas roxas hortênsias que ladeavam a estrada.

O tempo, esse passou tão fugaz como o vento cruzado! Nunca se sabe de que quadrante sopra, só sabemos que é vento por que nos incomoda a face e a visão. Que nostalgia!           

domingo, 9 de fevereiro de 2014

UM HOMEM DEBRUÇADO SOBRE O MAR



UM HOMEM DEBRUÇADO SOBRE O MAR
 O pequeno rochedo encostado à Rua Carvalho Araújo, tinha um pouco de tudo. Uma pequena habitação abarracada com restos de tábuas trazidas da praia ou de alguma obra, uma horta com alguns legumes, uma videira que no Verão permitia colher alguns cachos de uvas, fazer sombra e não permitia a olhares indiscretos que por ali passassem visionar o pequeno quintal. Os gatos e alguns cães emolduravam o terreno e davam a entender que ali vivia gente. De facto, um solitário homem passava o dia entre o seu reino de alguns metros e a íngreme escada que dava directamente aos negros calhaus da praia. Ali estava uma pequena canoa a remos onde em dias que o mar permitia, ia dar uma volta, entre a pequena baia que se destacava entre os rochedos da Pontinha e o Hotel Reid’s. Debruçado sobre o muro que delineava a artéria, eu gostava de espreitar tão curiosa habitação. O local era deslumbrante! Debruçado pela arriba rochosa, o mar despejava entre cada onda de espuma, o branco que cobria o basalto, dançando entre as espaçadas vagas ou em dias de calmaria, onde se apanhavam lapas e caramujos ou alguns caranguejos. Como poderia viver naquele minúsculo terreno, tendo como horizonte o imenso azul do mar durante o dia ou a negritude da noite? A Ilha dos Amores mantinha a sua distância, mesmo ali ao lado, entre turistas aventureiros que nadavam até se empoleirarem nas suas rochas.
O homem cavava e regava as verduras entre a longa videira e a pimpineleira que estendendo os seus braços, permitia algum recato. Na minha imaginação, pensava quão  feliz poderia ser aquele humilde homem ao ter o mar sempre à sua porta.





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

OS REFÚGIOS DA TORRINHA



Em algumas quintas no Caminho da Torrinha, nas fazendas em socalcos cobertas de bananeiras, existiam uns esconderijos camuflados com mato, troncos e folhagem diversa, refúgios subterrâneos de forma circular. Os estranhos “poços” segundo diziam eram antigos esconderijos feitos pela população, para que em caso de ameaça pudessem recolherem-se em segurança. Confesso que sempre foi um mistério para mim, o seu estado de abandono, como se tivesse um propósito de deixar em completo esquecimento os referidos poços. Não sei se actualmente, com a demolição de muitas das quintas e a sua substituição por prédios e condomínios particulares, os mesmos ainda se encontram. Provavelmente nunca se saberá o propósito da sua edificação. Se uns especulavam ser da época das invasões de piratas vindos do Magrebe, ou de corsários franceses, haveriam outros que indicavam ser mais provável ser dos tempos da Primeira Grande Guerra. Havia quem dissesse que a sua última utilização teria sido aquando do famoso ataque do submarino alemão à cidade do Funchal, a população tenha tomado providências para que em caso de ataque, estes refúgios tornar-se-iam um lugar seguro para as famílias.. Nunca consegui tirar a limpo a questão. Recentemente veio à minha memória  o espaço de pequenos bunkers feitos de pedras sobrepostas e proteção em madeira, em que os adultos faziam tenção de constantemente chamarem-me a atenção para que não me aproximasse e não caísse dentro dos famosos refúgios a que eu associava a piratas qual Sandokan de espada em punho esventrando as folhas verdes das bananeiras