sexta-feira, 30 de maio de 2014

NO DIA DA CRIANÇA

Pouco muda! Mudam os tempos, as vontades! Os sonhos? Persistem! Nesta foto, meninas sem sonhos, sem infância, sem brinquedos pousam para a camera. Alguém que achando a pobreza extrema digna de gastar um clic, um negativo cheio de ternura de crianças madeirenses paradas no tempo. E contudo, se calcorrearmos o interior da sua alma, os mesmos sonhos persistem.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A MALA DE MARSELHA


Necessitava chegar naquela quarta-feira sem falta ao Funchal. No dia seguinte teria de estar já no serviço e como tal, só me restava ao contrário do que era habitual, conseguir um voo a todo o custo. Os voos do final da tarde estavam todos esgotados, mas excecionalmente surgiu um voo ao início da tarde.
Entro no avião! O longo corredor estava deserto. Passageiros seriam pouco mais de uma dezena. Optei por viajar no centro da aeronave num lugar à janela. Depois, enquanto colocava o cinto e me certificava da minha bagagem de mão, um passageiro com ar de andar meio perdido, após fazer uma panorâmica do interior, decidiu sentar-se a meu lado. Confesso que fiquei ligeiramente irritado, por não poder disfrutar de maior privacidade. Com um avião vazio, vai logo sentar-se a meu lado???  O homem acondiciona uma mala diplomática de cor negra, entre as pernas. A hospedeira passa a ronda para confirmar se tudo está dentro das normas de segurança. O avião inicia a marcha. Primeiro, lentamente! Depois,  à  medida que ganha confiança, vai contornando as riscas desenhadas no asfalto da pista. Por fim, posiciona-se na longa reta enquanto aguarda ordem de partida. Ouve-se um diálogo de fundo entre o comandante e a torre de controlo e, quase de imediato, o avião da Tap arranca, fazendo com que as minhas costas se colem à cadeira. Sobrevoa-se a cidade coberta por nuvens poluídas. O avião vai subindo, subindo até sentirmos o toque de que podemos libertar-nos do cinto. Olho o azul no horizonte e o homem a meu lado, tenta meter conversa. Primeiro, quase murmurando, meio monólogo entre dentes, vai dizendo que está de regresso à Madeira trinta anos depois… Trinta anos? Ripostei… isso é uma eternidade! Por fim à medida que ganha confiança, vai desbobinando que deixou Marselha e vai regressar à sua Calheta natal. Pretende investir num negócio, mas não sabe bem o quê! Tudo muito vago, quase sem sentido.
- Tenho muito dinheiro para investir! O que me aconselha? Confesso incomodado com o rumo da conversa. Digo-lhe que não tenho jeito para negócios!
A hospedeira vai distribuindo bebidas e bolos secos. O passageiro a meu lado, inclina-se para a mala diplomática, toca nos fechos de abertura, levanta a tampa, vira a maleta na minha direção. Dentro estão alinhadas centenas de notas de francos amarradas com cintas de papel. Declara-me o valor em causa e, au ainda mais incomodado com o que via, procuro elucidá-lo de que é um autêntico perigo, que pode ser assaltado a qualquer instante. Ele nem pestaneja! Diz que isso não o afeta, encostado a um dos cantos está uma pequena arma acondicionada.
Pergunto-me vezes sem conta por que raio teria de me calhar este “embrulho”. Depois, pede-me que lhe indique o melhor hotel do Funchal! Promete-me boleia para a cidade, enquanto vou insistindo que não necessito por que tenho um táxi reservado e pago para me levar a casa. Mas vai insistindo, insistindo, insistindo que paga a viagem até ao Funchal. Por fim decido-me a levá-lo no táxi que está `a minha espera. Dou indicações ao Senhor Macedo para que leve o passageiro ao Casino Park Hotel. O táxi parou à porta de casa e deu ordem para que não recebesse o valor da deslocação. Por fim já em casa, senti que tinha acabado o sofrimento daquele voo e da famosa mala cheia de francos que vinha de Marselha. Eu já pensava em máfia marselhesa, em tiroteios e emboscadas visto em filmes franceses de Jean Gabin.

Para meu espanto, dois ou três dias depois, vou encontrar o passageiro vindo de França, na Avenida Arriaga. Logo que me viu, agradeceu-me o excelente hotel. Tinha depositado o dinheiro num banco e andava a sondar um possível investimento. Nunca mais tive qualquer tipo de notícias, se foi bem ou mal sucedido, mas quando entro num avião vem logo à memória a cena da mala diplomática cheia de dinheiro e um revolver pronto a disparar.