terça-feira, 11 de novembro de 2014

O CÃO QUE ADORAVA AMORES DE BURRO

Na foto, Birte estava radiante com o Bobi depois duma grande banhoca...

Não adiantava dar-lhe banho! Num ápice, Bobi desaparecia no verdejante jardim. Bastava gritar-lhe:
- Bobi, banho!... Todo ele tremia de medo. Medo da água, da monumental esfrega e do duche à mangueirada que muito dificilmente conseguiria escapar. 

Logo depois do banho, escapulia-se para o pequeno relvado, arrastando-se nos canteiros de rosas. Nem valia a pena amerçá-lo com a cana da india ou enxotá-lo. Depois, aparecia com aquele cheiro nauseabundo, nariz enfarruscado de sementes negras e pontiagudas dos amores de burro. Adorava aquela erva pestilenta o que por vezes me obrigava a novo banho e a esfrega dupla.

Depois ou ficava preso com a coleira ou era certo e sabido que iria andar a vadiar pela fazenda exalando o pivete daquelas plantas.

Amores de burro Nome Científico: Bidens pilosa - Foto do blogue http://circulosagrado-essenciasflorais.blogspot.pt/2013/03/picao.html
Nomes Populares: Picão-preto, Amor-de-burro, Amor-seco, Carrapicho, Carrapicho-agulha, Carrapicho-cuambu, Carrapicho-de-agulha, Carrapicho-de-duas-pontas, Carrapicho-picão, Coambi, Cuambri, Cuambú, Erva-de-picão, Erva-picão, Erva-pilão, Fura-capa, Furacapa, Goambú, Macela-do-campo, Paconca, Picacho, Picacho-negro, Picão, Picão-do-campo, Pico-pico, Piolho-de-padre

sábado, 1 de novembro de 2014

MARIA PAULISTA

Maria não teve infância! Maria não teve adolescência!
Maria começou a trabalhar desde tenra idade. Primeiro, ajudando os pais nas lides caseiras na quinta. Para ela, os meninos do seu tamanho iam à escola aprender a ler e a escrever. Maria, ficava em casa, quando muito podia espreitar as imagens que os verdadeiros meninos traziam nos livros dentro da sacola. Ela tentava imaginar o conteúdo na junção das letras, transformadas em palavras. Depois, foi crescendo e com o tempo, os tostões nada valiam numa vida de nada. Já com dezasseis anos, saiu da sua ilha, deixou o seu Vale de Machico e como tantos outros, rumou às Terras de Vera Cruz. 
Cruzou o oceano e desembarcou em Santos. O porto de Santos era na época a principal entrada no imenso Brasil. Depois, quase sem saber como descobriu a imensa metrópole paulista. Acabou por encontrar Vila Isabel, um enclave dentro da cidade, um bairro que a acolheu sem entraves. Na sua modesta habitação, os anos foram passando, décadas de duro trabalho, salário baixo, longa agonia. O tempo escorrendo pelas calejadas mãos, nada trazia de novo à sua vida. 
Um dia, deu consigo a pensar que teria pouco tempo para viver. Com a mãe à beira dos oitenta anos, resolveu que teria de ver uma última vez a sua terra, aquela que apesar de tudo ainda lhe trazia doces lembranças de quando era pequena, o seu cantinho. Maria era pequeno em estatura, mas grande na alma. Passou aquele ano de 1978 deitando contas à vida. Trocou os seus cruzeiros por dólares no mercado negro, o fio de ouro com a libra Rainha Victória e privando-se, encolhendo o magro salário, resolveu viajar. Aproveitou uma excursão da igreja paroquial, onde muitos outros emigrantes tinham em mente o mesmo sonho, o mesmo desafio.

Certo dia de Junho, o telefone tocou. Do outro lado do fio, Maria com sotaque paulista tentava desesperadamente identificar-se no tempo. Eu não a conhecia, mas passei o ascultador à minha tia. Depois foram minutos de espanto, diálogos continuamente interrompidos, soluços e pequenas lágrimas de emoção e saudade. Pedia autorização para ficar na nossa casa por alguns dias, enquanto durasse a estadia na Madeira.
- Claro que sim! Com todo o gosto...

Fomos buscá-la ao aeroporto. Estou a revê-la nas minhas memórias. Um metro e meio de gente, mas uma força de viver imensa, determinada e simpática, desculpando-se que não queria ser incómoda mas somente tornar a  ver os que ainda estavam vivos. Foram cinco dias de encanto, de verdadeira lição de vida o que esta mulher nos deu. Maria queria voltar a ver o seu cantinho, os primos que mal se lembravam, reconhecer lugares no tempo como se fossem os últimos instantes na sua vida. Mas o tempo não parava, dizia que a mãe velhinha estava com uma vizinha que a ajudava na alimentação e medicação. 

Era hora de partir para Vila Isabel, para o carinho da mãe que a esperava. Prometia conta-lhe todos os pormenores, todas as conversas, todos os caminhos percorridos. No seu abraço de despedida, confidenciou que agora podia morrer , tinha realizado o seu último sonho ver pela última vez Machico. E como tinha valido a pena aquele momento mágico! Nunca mais soube de Maria, no entanto jamais a esquecerei a sua grandiosa generosidade de viver. 

Llanto-Aguaviva