segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

MARIA... GORETE

Um dia destes, dei comigo a pensar na influência das igrejas na vida das pessoas! Do mesmo modo de que as casas nos cativam, nos envolvem de saudade, de momentos ternos e familiares, o mesmo se passa com os templos; as ruas, as estações do ano ou ainda e mais complicado as próprias pessoas. É precisamente isso que irei exemplificar em pequenas histórias!


A Igreja de Santa Luzia, tanta saudade nas suas paredes e no seu adro.
Foto CAM


IGREJA DE SANTA LUZIA 
Funchal  - I


Ela vinha de vestidinho branco, sapatos brancos, meias brancas. Na cabeça, um pequeno véu rendilhado branco, nas suas pequeninas mãos um rosário de contas brancas e um livrinho de orações. 

Ao longo do adro da igreja de Santa Luzia, meninas rodeavam as suas catequistas, enquanto os meninos corriam e gritavam quando eram agarrados no jogo da apanhada. Os pais, mantinham o controlo dos seus rebentos, ora chamando a atenção para qualquer pormenor que tenha fugido à revista antes de sair de casa, ora pedindo silêncio. O sino, esse anunciava pelas longas badaladas que a hora da missa das crianças, estava para breve. Pequenos grupos iam agrupando-se à medida que em fila, entravam no recinto da igreja. 

Eu estava nervoso com a aproximação da primeira comunhão. Não continha em mim, a ansiedade e o nervosismo que o momento significava. Lá dentro, as meninas ficavam nos bancos corridos da frente, seguidos dos rapazes e só no último terço, os pais e restantes fieis. O padre Neves no altar, dava início à homilia. Eu olhava para a menina que estava no banco da frente. De joelhos, aproximei-me do seu rosto e sussurrando chamei-a: 

- Maria! Maria! - Ela nem ousou virar a cara ou responder ao meu chamamento, pelo que insisti; - Maria!... Então respondeu ao meu apelo, sorrindo. Aquele sorriso igual às imagens com anjos dos livros, das estampas de santos ou das pinturas das igrejas, e respondeu-me:

 - Não sou Maria... chamo-me Gorete!... Virando-me  as costas, manteve silêncio profundo até ao final da missa. 

Procurei-a de novo quando se levantou do banco e já caminhava na direção da porta principal. Aqueles olhos amendoados e doces, sorriu-me, repetindo: 

- Não me chamo Maria... sou Gorete! Pelo tom da sua voz, senti que parecia ofendida pelo meu erro grosseiro.

- Desculpa, eu pensava que todas as meninas tinham Maria no nome... como é que adivinhava que eras Gorete?... 

Seguia-a já cá fora no amplo adro de pedra negra e enormes plátanos. Enfrentei-a quando das minhas mãos segurava uma pequena flor amarela, um "dente de leão". Ela, desviou o seu olhar na direção do chão e seguiu rumo aos pais, enquanto ficava especado, paralisado pelo erro de a chamar de Maria. Um turbilhão de ideias sem nexo, ecoava vezes sem conta dentro da minha cabeça e dava resposta ao pensamento.
- Mas, como é que ia adivinhar que ela não era Maria.......
- Gorete?... Que raio de nome... E eu a pensar que as meninas eram todas Marias....

Parado, junto à grade de ferro que separa as duas partes do adro, remexia o botão do meu casaco de malha! Gorete.... Gorete.... Segui para casa que a hora do almoço já anunciava pela badalada do relógio da Sé. 


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

AS PÍLULAS DO DR. ROSS

As gavetas da velha cómoda estavam cheias de objectos preciosos capazes de contagiar pequenos e graúdos. Eram caixas em madeira de frutos secos de Évora; pedras trazidas do vulcão do Vesúvio; cromos; moedas da monarquia; aparos de canetas; compassos sem peças; um cão de fila dos Açores em madeira; bonecas de porcelana e papel maché do início do século XX e muitos almanaques das Missões, entre os quais havia um que me dava cabo da cabeça... o famoso Almanaque do Dr. Ross. Fazia-se anunciar como as pílulas de vida que curavam tudo e todos. Desse Almanaque incluía um livrinho miniatura (na imagem) com a história do "País de Liliput" o famoso gigante aprisionado pelos Liliputianos. 
A capa do citado Almanaque, eram profusamente decorada e colorida com imagens, onde incluía um círculo mágico com um horóscopo, dividido em dezenas de triângulos. A cada uma, correspondia números, uma espécie de roda da sorte ou de um alvo onde se atiram pequenas setas. O pequeno livro estava com a capa plastificada, e apresentava sinais de muito uso ao longo dos tempos dentro da velha cómoda. Entre rolos, pentes, artigos de manicure, era alvo da cobiça das crianças ávidas de quererem saber o futuro numa simples roda. Depois, tínhamos de fechar os olhos, e com o polegar dar voltas e mais voltas até parar num dos espaços. Os números que iam saindo do circulo correspondiam a um labirinto de perguntas e respostas, até estarmos completamente saciados da sorte que nos tinha calhado na solução final. Fazia-nos lembrar uma velha cartomante tentando adivinhar as voltas da vida. Todos delirávamos ou não com a resposta final, aquela que realmente importava. Havia crianças que levavam a peito, casamentos e viagens, felicidade, dinheiro etc., tudo graças aos "milagres" de um senhor Ross, que se dizia doutor com ares de charlatão ao curar tudo o que havia neste mundo e ainda por cima, nos amarrava ao futuro para sempre. O famoso livrinho esfumou-se, talvez cansado de pregar felicidade em doses de simples pílulas num frasquinho esguio de vidro. Mais tarde, vim a conhecer na montra da Botica Inglesa, um velhinho que graças à suas habilidades e força, dava voltas e mais voltas numa trave de ginásio, graças aos milagres do alho. Era o outro doutor Rogoff! Só que eu saiba, as pílulas do Dr. Rogoff não traziam um livrinho com todas as instruções sobre o nosso futuro...

O EDIFICIO GIRASSOL



  
EDIFÍCIO GIRASSOL


O edifício Girassol fervilhava de jovens estudantes. Embora não tivesse nenhuma das características modernas para servir como escola, pois não fora concebido de raiz para esse efeito, mas sim como escritórios, o facto de haver necessidade de albergar um número muito grande de estudantes liceais após o 25 de Abril, optara-se por transformar um espaço bem no centro da cidade para esse fim. O resultado era um emaranhado de plásticos e vidros insonorização pouco eficaz para dar aulas. O excesso de vidro as altas temperaturas, a localização junto ao Mercado dos Lavradores, com toda a confusão de trânsito e barulho, causavam problemas na concentração dos alunos e dificuldades acrescidas aos professores afónicos. A parte positiva era situar-se junto ao edifício mãe o Liceu Jaime Moniz, sendo esta opção o mal menor. Às horas do final da manhã e da tarde, grupos de estudantes caminhavam pelas principais artérias funchalenses, procurando um transporta de regresso a casa ou um espaço onde pudessem conviver. Para trás ficavam as matérias, quando o Apolo, o Café Funchal ou a Coral, eram bem mais importantes para arejar a mente. De livros em cima das mesas, era vê-los discutindo os últimos vídeo-clips ou namoriscando, enquanto se cravava um cigarro ao parceiro ou se bebia um café deslavado. Ainda não havia net, nem telemóveis com sons irritantes e quando se queria telefonar íamos aos correios ou a uma cabine de rua, desde que tivéssemos a correspondente moedinha que nem sempre estava ao alcance da nossa paupérrima carteira.




JECA TATUZINHO - UMA DELÍCIA

"Numa casa de sapé

Lá na beira do caminho

com dois filhos e a "muié"

Mora o Jeca Tatuzinho.

No terreiro uma galinha

um galo velho e um leitão

e o quintal sem plantação

Jeca vive descansando

Nunca tem disposição

Passa o dia se espreguiçando

Diz que pro trabalho

Não tem vocação.

Numa tarde que chovia

Um doutor por lá passou

Vendo Jeca que sofria

Um remédio receitou

E lhe disse: meu amigo,

Não ande mais de pé no chão:

Sua doença é amarelão

Jeca comprou sapato

Prá família e prá a toda a criação

Dava gosto a gente "vê"

galinha de botina

e galo de botinão.

Quem passar pelo caminho

Fica logo admirado

Já não tem mais o ranchinho

No lugar tem um sobrado

Hoje em dia, o Tatuzinho

É o maior dos "fazendeiros"

Tem saúde e tem dinheiro

Sua história é uma lição

Prá quem anda de pé no chão

Sapato no pé
prá não "entrá" os "bichinho"
É a receita do
Jeca Tatuzinho".

Monteiro Lobato

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

JOBIM - 20 ANOS DEPOIS

António Carlos Jobim, já tem a sua merecida estátua! Trata-se de 20 anos após a sua morte, homenagear o grande compositor brasileiro e nada melhor do que o calçadão da bela praia de Ipanema onde na companhia de Vinicius tantos momentos inesquecíveis passaram. E direi eu, se a bela Heloisa por lá passar, com certeza irá dar uma "olhada". Que venham muitos Jobins apaixonados pela boa música brasileira.
Foto O GLOBO

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

CARICATURAS


CARICATURAS


De caneta em punho
Olhar sério e distante
Passava a manhã
A desenhar caricaturas. Procurava defeitos,
Traços característicos nos rostos deambulantes
Sonolentos pela alvorada seminua.

Riscava e riscava sem fim
O homem que vendia bananas
Junto à posta da Indiana. Chapéu de abas largas, longas suíças
Ou a mulher atónita ao movimento de carros, que parecia tomar
Balanço para atravessar a rua.
Inflexível, entre a agonia duma beata mal apagada, o homem
Riscava e riscava para a posteridade, traços de vida.


ESPERA (À MARTA CAIRES)

ESPERA

Estudei o teu rosto
Entre chávenas de café,
Intervalos, doses de cigarros
Poemas escondidos
Na esquina do caderno amarrotado.
Puxo do meu Ronson prateado e a longa
Chama, incendeia-me de esperança.
- Quem me dera escrever assim!...
Transpor para o papel quadriculado
Teoremas sem significado,
Doses de versos em inglês
Roubados ao Leonard Cohen.
E enquanto espraiava o meu olhar
Pela rua esguia, a tua sombra negra e fugidia,
Se acerca da porta do liceu.
E dir-te-ei, e dir-me-ás
- Estavas à minha espera?...



A CONCHA

“A CONCHA”

A rua escura dobrava-se
Pelo peso das imperiais
Tremoços amarelos, reluzentes.
Balcão rebaixado do snack
Entre jogadas e fintas, escorriam
copos de cerveja, espuma alva.

- Quem se levantar dos redondos bancos!... Falhava
A jogada, o remate ou o golo anulado.
A Concha era uma universidade, donde sai 
as bifanas e os pregos, batatas fritas em palitos
A fumegar… e quem vai ao mar perde o lugar!