quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A VOLTA AO MUNDO NO FINAL DO MÊS

No final do mês, quando lá em casa os adultos recebiam o ordenado, tinham por norma fazer a ronda às principais livrarias em busca das novidades literárias. Primeiro passavam pela Papelaria do Colégio, depois seguiam até à Condessa, descia-se a Rua dos Ferreiros e namorava-se a montra da Livraria dos Ferreiros e a sua imensidão de títulos expostos, desde a sua montra, ao balcão de madeira no interior e a longas vitrines a abarrotar de livros. Depois, nada melhor do que espreitar o Pátio e se houvesse pouco dinheiro, desvendar um exemplar amarelecido e em segunda mão no Rei dos Livros, ali mesmo no topo da Avenida Zarco. Tudo terminava na laranjada e no queque de laranja da Felisberta, a melhor loja que uma criança poderia desejar na época onde ainda não havia shopping centers nem tretas de plástico, embrulhos de donuts besuntados de gordura, massa ensebada boa para dar as porcos na época. Mas aquela volta dos tristes no final do mês, parecia a volta ao mundo do Julio Verne, num balão de oxigénio!  

PRIMA MARTA, A BIBLIOTECÁRIA

A Biblioteca era ampla! Três grandes alas viradas para a Praça do Município incorporadas no edifício da Câmara Municipal do Funchal. A panoramica do espaço era deslumbrante! Ao final da tarde, O Sol entrava de rompante pelas diversas salas, onde os leitores de diversas idades, manuseavam livros e jornais. Duas bilbiotecárias procuravam dar resposta aos pedidos, ora anotando os códigos nas lombadas dos exemplares ou tentanto que os livros não se espalhassem sem controlo, em cima das largas mesas de apoio. 
Não se podia requisitar mais de cinco volumes, mas sabia que quando a prima Marta estava de serviço, havia sempre excepções à regra, e a sua bondade fazia sempre "vista grossa" deixando passar 10 ou 15 volumes para ler em casa. Eu lia sofregamente Enid Blyton e os seus livros de aventuras dos "5". Na época ler livros para crianças em lingua portuguesa não era fácil! Embora a Editora Verbo acabasse de lançar uma série de titulos inovadores para os mais jovens. Depois seguiam-se a imensidade de obras de Júlio Verne, onde passava horas no terraço de casa e por vezes noites inteiras a ler inimterruptamente até ao último parágrafo as aventuras à volta do mundo, a viagem à Lua etc.etc.. Marta sorria quando lhe entregava a talão da requisição e mantinha comigo longas conversas de elogio por ser um leitor tão acérrimo. 
Outras vezes, tinha de vasculhar nas longas prateleiras títulos que ainda restassem sem ser do meu conhecimento literário. Tinha em meu poder um pequeno caderno escolar onde anotava e classificava titulos e autores para que não acabasse por requisitar de novo o mesmo exemplar. Eram nessas tardes pachorrentas em que me perdia a olhar o movimento da praça, por entre as janelas, a beleza das sumaumas em flor, o movimento da praça de taxis entre o canto esquerdo que fazia gaveto com a Rua dos Ferreiros e a obssessão da Papelaria Condessa.
Marte repetia sempre a mesma frase quando me encontrava em quaquer ponto da cidade ou no seu trabalho, elogiando sem fim que estava muito crescido, como se tivesse aumentado a minha altura em meio metro. Lá em casa, habia um lambrim da porta do quarto de costura, cheia de riscos e datas que acompanhavam a evolução da minha altura. Risquinhos a lápis como se fosse um indicador de um presidiário conntando os dias de clausura ou a evolução da temperatura de um qualquer termómetro. 
A certa altura, passei a utilizar com maior frequência a sala onde estavam outros titulos para mim desconhecidos. Os romances começaram a proliferar na minha seleção. Descobria novos autores e se era certo que Marta procurava aconselhar-me nessa evolução na minha adolescência, comecei a ver o mundo com outros olhos. Lembro-me que descobri pela primeira vez "Mar Morto" de Jorge Amado, embora continuasse a preferia as aventuras ou livros de navegadores solitários, exploradores e botânicos, os últimos passos na ciência etc. Certo que a minha paixão era ser piloto de barra! Era essa a minha verdadeira loucura. Passar horas a olhar a lancha com casco negro e grandes letras brancas com a sigla PILOTOS. Eu próprio tive muitos dissabores ao exigir que me comprassem uma peça de fazenda para fazer umas calças de ganga à medida e uma camisa azul igual aos pilotos de barra. Depois, sonhava até quase adormecer de tédio imaginando-me a subir as imensas escadas de corda com que os mesmos pilotos trepavam para entrarem no portaló dos navios. Deveria ser fascinante trepar as escadas daqueles paquetes, cada um diferente do anterior. 
Era quando Marta me abanava o braço e dizia que a Biblioteca iria fechar! Agarrava nos meus sacos de rede e carregava um mundo de titulos aos ombros rumo a casa. Tinha sorte em ter a prima Marta por perto para me ajudar a explorar os quatro cantos do planeta recheado de aventura, romance e muita emoção. 
Obrigado Marta!  

terça-feira, 3 de novembro de 2015

KLAIRE


Klaire fica estática para aquela geringonça que de uma caixa de madeira, tem o poder de captar para a posteridade a sua posse. Agarra na vasourinha perante o flash ou Blitz que incomoda os seus olhos. Dos vastos louros caracóis sobressai o laçarote. E, ficou na imagem... 
Fotógrafo esse terá sido Adolf Nahme em Bgm Smidtstrasse, 27 na mítica cidade de Bremerhaven  

QUOTIDIANO CITADINO

Nas fotografias da Madeira, há sempre um policia que "fica na chapa". Este, toma nota de algo ou multa alguém. As floristas passam a vida a posar para as inúmeras camaras. As crianças, essas já cumpriram mais um dia escolar. A Rua do Aljube mostra toda a azáfama de um tempo que já passou, mas que não resisto em mostrar estes anos 60', até por que gosto desta foto e me faz recordar a minha infância.  

DEUS E OS DEMÓNIOS

Os politicos da nossa praça agora deram para a blasfémia religiosa. 
Aconteceu este fim de semana no Algarve, com o novo ministro da Administração Interna a declarar publicamente nos "períodos de provação que Deus nos dá" e da "fúria demoníaca" que o desastre causado pela chuva torrencial foi um sinal disso mesmo. 
Na mesma semana, uma ministra declarou que "rezava para que Deus não consentisse que politicos pouco recomendáveis pudessem governar Portugal". Confesso que a sua cara bolachuda, talvez Deus tenha dó das suas blasfémias e lhe recomende alguns "pais-nossos e atos de contrição" mas esta anjinha deveria ser excomungada das lides politicas. Faz-se de tudo para cair em graça aos cidadãos menos esclarecidos, vale de tudo sem respeito nem pelos que os elegeram ou não e muito menos por aqueles que tendo a sua convição religiosa se vêem confrontados com este tipo de idiotice saloia. Valha-nos Santa Bárbara!!!   

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

SONHOS CANINOS



Manhã cedo! Na plataforma ferroviária, a azáfama de passageiros era grande. Uns a caminho de mais um dia de trabalho outros já em férias rumo à praia. O dia anunciava-se bem quente e enquanto aguarda o próximo comboio, via chegar crianças e acompanhantes. Dois miúdos com baldes e pás de plástico olhavam um cão estendido entre os bancos corridos, dormitando indolente. Então ele disse para a irmã:
- Olha aquele cão a dormir… Ela ripostou:
- Não está a dormir! Está a sonhar!
Ele observou mais perto o animal e respondeu-lhe:
- Achas que os cães sonham?
Ela respondeu-lhe de imediato:
 - Claro que sonham!


sábado, 5 de setembro de 2015

CONVITE - NOVO LIVRO DE BERTA HELENA

Eis um novo trabalho da jornalista e escritora madeirense BERTA HELENA. Uma oportunidade para conhecer este livro e a sua pessoa no lançamento dia 11 na sede da Junta de Freguesia de Gaula.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O COMANDANTE QUE GOSTAVA DE CARMINA BURANA

O COMANDANTE QUE GOSTAVA DE CARMINA BURANA

Eu estava de visita ao veleiro. A hora de fecho de visita já tinha terminado, embora teimosamente recusasse a abandonar aquele mar de leite em que o navio imóvel ao balanço das ondas, parecia adormecido. Só dei conta que estava alguém ao meu lado ao ser interrompido nas minhas divagações.
- Estão pregando aos peixinhos…? Disse-me do alto dos seus quase dois metros de estatura. Reconheci que o comandante estava inspirado e, rematei de imediato.
- Só Santo António tinha esse dom… - respondi! Mas por vezes os peixes ouvem-nos e compreendem-nos melhor do que entre os humanos.
Após uma ligeira troca de palavras, a sua curiosidade adensava-se e não resisti ao convite para descer ao salão. Lá dentro, sentada num cadeirão estava a sua mulher que me foi apresentada. Continuava imóvel e só o som da aparelhagem me devolveu à realidade.
Ouvia Carmina Burana, com o volume estremecendo o cavername da nave. Só quando o CD chegou ao fim e após os aplausos do público que parecia mesmo ali ao lado num qualquer camarote do Scala, me dirigiu a palavra. Então gosta de Carmina Burana? Confesso que ia dizer-lhe que preferia Nabucco e o coro dos escravos, de Verdi. Mas contive-me! O comandante esse andava radiante e como que hipnotizado, lançava no ar de novo o recomeço do disco tentando acompanhar as vozes que saiam das colunas. Fiquei sem me mexer, sentado, ouvindo Carmina Burana até ao fim. Sem pestanejar, sem bocejar, sem conseguir pregar aos peixinhos.            


sábado, 18 de julho de 2015

UMA CAIXA CHEIA DE POESIA

UMA CAIXA CHEIA DE POESIA


A caixa de cartão tinha estampada uma famosa marca de camisas. Quando removia a tampa, as inúmeras fotografias empilhadas, não tinham nem sequência, tema ou ordem cronológica. Umas, eram de tamanho reduzido. Minúsculas até, enquanto outras eram enormes, quase do tamanho da própria caixa. Quase todas a preto e branco, viradas com a parte impressa para cima ou com o espaço sem qualquer nota anexa.   Quando queria mostrar algo, simplesmente metia a mão e revirava "ao calhas” até redescobrir aquele retrato abandonado no tempo. Por vezes, apetecia-me dar de novo vida àquele momentos da sua vida, mas por outro lado, ela entendia que não valia a pena, tinha muito mais piada andar à procura, “refundiar” a caixa de camisas, como se fosse uma criança a querer  montar um imenso puzzle. Achava que as fotografias eram passado, incómodo como o passar do tempo, pleno de memórias, de sonhos e desilusões. Naquela caixa estavam décadas, nascimentos e casamentos, sorrisos e tristezas que ao tocar naqueles rectângulos mágicos mexiam com os sentimentos. Tudo se resumia a uma simples caixa e a tampa selava o próprio tempo. Até que um dia, ao consultar velhas fotos, dei comigo a ler o reverso das mesmas. Escritas a lápis, estavam sonetos de Camões, versos de Espanca, sonetos de Pessoa, em letras indelével torneada como era a sua caligrafia de menina. Então soltou-se-lhe a língua, dizia que conforme a ocasião, se deliciava a escrever na parte de trás das fotografias o que lhe vinha à cabeça. Momentos de fraqueza, momentos da sua vida solitária. Apercebia-me nas palavras vazias, inodoras às suas primaveras num silêncio profundo e triste. 

- Fecha a caixa por favor! Não quero que se percam! - , dizia-me. Eu fazia-lhe a vontade. 

Agora, posso abri-la... De vez em quando dá-me vontade reavivá-las, de ler os seus poemas escritos a grafite quase sumida como se tudo dentro da caixa de cartão pedisse para deixá-la em paz. Fiz essa vontade, tornando a tapá-la com cuidado!

DORME QUE EU VELO SEDUTORA IMAGEM - ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam
António Lobo Antunes Crónica publicada na VISÃO 1100, de 3 de abril
12:17 | Quinta feira, 10 de Abril de 2014
A vocação artística tem um forte componente genético que, em mim, é evidente: chegou-me direitinho do meu avô. Não é que lesse muito: para ser sincero nunca o vi ler livro nenhum, embora houvesse em casa meia dúzia de romances brasileiros, a terra de onde veio, Alencar, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Machado, Pompeia, que jamais saíram de uma estantezeca lá ao fundo, mas recitava à gente, seus netos, poesia de qualidade, que muito fez para me entusiasmar pela possibilidade de transmissão das emoções através das palavras. Pedíamos-lhe, trémulos de entusiasmo
- Ó avó recite lá
e ele, aumentando na cadeira

Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.

Diz-lhe um amigo: - Que louco para que queres isso tu?
- É para alegrar um pouco o triste olho do cu.

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam, velocidade acompanhada de um
- Francamente
escandalizado, o que prova como podem ser diversas as reações à beleza. A fim de tentar a unanimidade o meu avô iniciava, de imediato, um excerto do grande lírico do século dezanove, Tomás Ribeiro

Dorme que eu velo sedutora imagem
grata miragem que no ermo vi

que as agulhas pareciam aprovar, se não fosse o caso de o meu avô introduzir aqui o seu cunho tão pessoal, que torcia um tudo nada a estrofe:

Enquanto dormes uma dor me ataca
vou fazer caca pensando em ti

e, em resposta, os
- Francamente
se multiplicarem, acompanhados de discursos acerca da vulnerabilidade das crianças e o perigo de futuros deletérios, de bebida e pecado, para as pobres crianças que éramos, para além de nos afastar da religião e do santo respeito pelas coisas sagradas como, por exemplo, quando íamos pela rua com ele, passava um grupo de freiras, nas suas vestimentas de andorinhas fúnebres, com  o crucifixo ao pescoço, o meu avô, sonoro

As Irmãs da Caridade
têm um buraco no cu
que lhes fez o padre cura
com a chave do baú

e a família, em escândalo, a pedir perdão ao Santíssimo, enquanto o meu avô, enorme, plantado no passeio, fumava ao mesmo tempo a boquilha e um sorriso, mal sonhando o futuro que o esperava, a arder, sem remissão, no inferno. No meu entender não lhe passavam pela cabeça as consequências, por vezes graves, da Arte. A título de exemplo, e gosto da expressão a título de exemplo que me aproxima da elegância formal dos nossos dirigentes, uma das filhas teve, finalmente, o primeiro, ia a escrever rebento, foi por pouco, o primeiro crianço e levou-o ao pai que, na sua ideia, ia vibrar de contentamento com mais aquela vergôntea da sua árvore. O meu avô estudou-o com atenção
- E como se chama ele?
a minha tia respondeu, com natural e legítimo orgulho
- Francisco António
O meu avô quedou-se paralisado na cadeira, a remoer memórias do seu Pará distante, com a família à espera da reação
(as reações do meu avô, em geral, eram inesperadas)
que tardou mas veio. O meu avô pôs-se de pé num pulo, com a cara cheia de infância, e fez tremer as paredes vociferando a seguinte cantilena

Francisco António da Costa Braga
nosso amigo e protector
para proteger os seus artistas
mandou fazer uma chapelaria a vapor

e, após uma pequena pausa, mais forte ainda
- Póróróró vapor.

Durante toda essa tarde, de cinco em cinco minutos, o meu avô berrava
- Póróróró vapor

até que lhe tiraram o Francisco António da frente. Mesmo assim um eco estupefacto
- Francisco António não lembra ao diabo
e, num fio
- Póróróró vapor
Durante anos, até à sua morte, quando eu tinha dezoito, volta e meia piscava-lhe o olho, inclinava-me para ele, segredava
- Póróróró vapor
e, por um bocado, palavra de honra que nos sentíamos felizes. Experimentem.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O MENINO NO SAPATINHO - MIA COUTO

Pessoalmente gosto muito da escrita de Mia Couto e achei interessante divulgar este pequeno texto

Templo Cultural Delfos






Posted: 25 Jun 2015 08:01 AM PDT
Capa do Livro "O menino no sapatinho", de Mia Couto
ilustrações Danuta Wojciechowska
Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito que todos seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples fresta de claridade.
De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento — assim pediria apenas os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava, enquanto contemplava a diminuta criatura. Olhar de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?
Ao menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia‑se de sua tristeza pelas lágrimas. Mas estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no teto e ali se grutavam, missangas tremeluzentes.
Ela pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha. Na realidade, não falava: assobiava, feita uma ave. Dizia que o filho não tinha entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração. Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão subtis, incapazes mesmo de existir.
Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido. A senhora não se importava com os dizquedizeres. Ela mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor nem cheiro.
A mãe só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava.
O marido, descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um fiorrapo, despachagargalos, entorna‑fundos. Do bar para o quarto, de casa para a cervejaria.
Pois, aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E cujo era o esquerdo do único par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar de um só pé. Só na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se apercebia de ter pés, dois na mesma direção.
Capa do Livro "O menino no sapatinho", de Mia Couto
ilustrações Danuta Wojciechowska
Em casa, na quentura da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga desirmandada lhe fazia de cobertor. O frio estreitasse e a mulher se levantava de noite para repuxar a trança dos atacadores. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção, ela avisava os demais e demasiados:
— Cuidado, já dentrei o menino no sapato.
Que ninguém, por descuido, o calçasse. Muito‑muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o mais esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse da vislembrança dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:
— Então, ando para aqui improvisar um coxinho?
— É seu filho, pois não?
— O diabo que te descarregue!
E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria para um chinelado?
— Sim — respondeu a mulher. — Eu já lhe dei os meus chinelos.
Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber: a pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.
— Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.
Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:
— Veja o seu filho, parece o Jesuzinho empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.
Ainda o filho estava melhor que Cristo — ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:
— Cá se fazem, cá se apagam!
O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem‑se do vindouro. A mãe, estarrecida, fosse o fim de todos os mundos:
— Vai o quê fazer?
— Vou é desfazer.
Ela prometia‑lhe um tempo, na espera que o bebé graudasse. Mas o assunto azedava e até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoídos ainda, continuaram espreitando o improvisado berço. Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.
Até que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu‑se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira. Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na frente autorizando o frio.
Capa do Livro "O menino no sapatinho", de Mia Couto
ilustrações Danuta Wojciechowska
Na sagrada antenoite, a mulher fez como aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar.
No escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram. Despontavam as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.
Acordou cedo e foi direta ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De relance, ainda notou que lá no teto já não brilhavam as lágrimas do seu menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.
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:: O menino no sapatinho - Mia Couto. [Ilustrações Danuta Wojciechowska], 1ª ed., Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 2013, 32p.
:: Na berma de nenhuma estrada e outros contos [contos].  São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 11-15.

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Capa do Livro "O menino no sapatinho", de Mia Couto
ilustrações Danuta Wojciechowska
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© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

O PORTO DO FUNCHAL EM 1961


A imagem mostra as obras de ampliação do porto do Funchal, com o navio CARVALHO ARAÚJO da Insulana atracado e o veleiro DANMARK(?).

quarta-feira, 17 de junho de 2015

SUBINDO O QUEBRA-COSTAS

QUEBRA-COSTAS

Subo lentamente o Quebra-Costas
A noite abafada traz os sons duma criança que chora. Um cão ladra sem cessar
E os passos conquistam cada degrau, cansados de caminhar
Uma barata voa em círculos, anunciando calor. Atinjo a Rua das Cruzes e logo à frente
O Miradouro. Vozes sussurram! Namorados na penumbra, abraçam-se… Apertos do coração.
Navios iluminam a vastidão do oceano e aquele Lua Nova, debruçada para os lados da Montanha.
Sentado no banco de pedra, viajo pelo Mundo. Aquelas ilhas no Pacífico, a Amazónia, o iate que alcança o Cabo Horn.
A noite anuncia sons de despedida. O navio solta amarras e o apito profundo rasga a madrugada. O luzeiro desaparece na Ponta do Garajau.

Os namorados, esses continuam! Longos beijos de amantes, penso eu!

sexta-feira, 29 de maio de 2015

MAR DE JACARANDÁS

Resultado de imagem para jacarandás em flor
Nos últimos anos, tem vindo a aumentar os entusiastas desta belíssima árvore. Jornalistas têm anunciado nas redes sociais e na imprensa escrita, a beleza da sua cor e o fascínio de algumas artérias de Lisboa, como se os jacarandás tivessem sido plantados à pouco tempo. O que terá acontecido é que a sensibilização para a renovação dos espaços verdes das grandes cidades, a sua apelativa cor roxa é um chamariz para os transeuntes nacionais e estrangeiros que ficam embasbacados com a sua beleza. Não fujo à regra, pois o centro do Funchal tem na Arriaga o exemplo do que acabo de escrever. Chamo-lhe Mar de Jacarandás à imensidão das suas perfumadas flores. 

terça-feira, 26 de maio de 2015

BEST-SELLER EM PORTUGAL

Segundo informação dos editores e livreiros nacionais, os livros que mais se vendem em Portugal são edições para colorir...  
Conclui-se, pois que:
- Ou estamos virados para a arte;
- Ou sentimos a nostalgia da infância,
- Ou não sabemos ler! 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

EXPOSIÇÃO DE AGUARELAS



Segundo informação da edição do Diário de 

Notícias de hoje, a exposição de aguarelas do 

pintor Fernando Lemos Gomes, será naugurada 

amanhã pelas 18h30 no Espaço InfoartShare on print

O MAIS ANTIGO CARRO COM MATRICULA DA MADEIRA

O último número da Revista Mais - suplemento do Diário de Noticias, publica na sua capa a foto do Adler pertença do artista madeirense Fernando Lemos Gomes e a história de um carro icónico da Madeira.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

REID'S SHOW 2015 - EXPOSIÇÃO

O Hotel Reid's realiza de novo o encontro de automóveis antigos. Do trabalho artístico do artista madeirense Fernando Lemos Gomes, podemos ver o veículo mais antigo da Madeira, um Adler que veio de Lisboa para a Madeira, para estar presente na exposição. Quanto ao artista, poderá ser apreciada a exposição de pintura de temática automóvel, a realizar na Delegação de Turismo da Madeira, na Avenida Arriaga. A não perder...

sexta-feira, 10 de abril de 2015

CALÇADA E HOTEL DE SANTA CLARA



Poucos saberão que no último edificio do lado direito da Calçada de Santa Clara, o edifício "cortado" já foi  entre outras coisas, hotel. Como edificio património do Estado, estiveram ali entre outros, o Instituto de Assistência à Familia (IFAS) antes de se anexar à Segurança Social e o Auxilio Maternal do Funchal. Foi ali que iniciei a minha atividade profissional em 1976. Do lado contrário, pode ver-se o espaço do Convento de Santa Clara e, no canto inferior direito a chamada "Casa da Linha" pertença do cabo submarino inglês. Note-se que a Calçada mantém no centro da via, uma calçada arredondada em pedra de calhau em forma de degraus, tal como existiam nas principais artérias inclinadas da cidade. Lembro-me de uma das últimas, o Quebra-Costas.

terça-feira, 24 de março de 2015

HERBERTO HELDER

A Infância de Herberto HelderNo princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra

Tolentino Mendonça

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O ESPÓLIO DE ANTÓNIO ARAGÃO

Na última semana, veio à baila na imprensa regional, a noticia de que o espólio do artista madeirense, iria a leilão. Desconheço quais as razões para que os seus familiares, quisessem "desfazer-se" de tão vasto e importante material. O que soube, foi a indiferença das principais instituições da Madeira em adquirir algumas obras do referido artista. Penso que a Madeira ficou mais pobre, culturalmente falando. Se é certo que os tempos são de contenção económica, essa dita contenção não se verifica noutros sectores em que há sempre uma solução que é como quem diz"dinheiro fresco" para gastos.      

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

PELO POISO, SE POISA

O autocarro subia vagarosamente a encosta. Já se sentia no ar, aquele friozinho de Abril, aquela aragem que entranhava no corpo. Depois de contornar a fechada curva à esquerda, passado que era o Largo do Monte, de entrarem os últimos passageiros com destino à Costa Norte da ilha, o tom cinzento do nevoeiro, tapava-nos a vista e reduzia a distância do horizonte visível. As árvores passavam pela janela do veículo a menor velocidade, à medida que o esforço do motor dava sinais de velhice. Hortências teimavam em florir à berma da estrada. De resto, só os pinheiros e os eucaliptos , esqueléticas e alongadas varas, dominavam a paisagem, acompanhando as curvas e contra curvas do caminho alcatroado. Por fim, o carro tomava fôlego nas pequenas rectas e ao longe a estalagem do Piso, anunciava a próxima paragem obrigatória. Os passageiros mais inquietos levantavam-se dos assentos, procurando ocupar o corredor do veículo, enquanto outros levemente enjoados, em silêncio procuravam refúgio nos bancos. Por fim, o motor chiou de cansaço e imobilizou-se como que também ele, abençoasse a breve paragem. Homens desciam os três degraus metálicos e organizavam-se em procurar refúgio numa bebida revigorante que pusesse em ordem as sôfregas gargantas. Confesso que não tinha a mínima pressa. Fui inclusive, dos últimos a abandonar o autocarro, a caminho do bar, levando a tenda e o restante equipamento que me faria falta, sempre sob controlo e, fazendo os possíveis para passar incólume aos encontrões e ao olhar dos curiosos.
Cá fora, o tempo não dava tréguas! Estávamos na Semana Santa, altura ideal para o primeiro acampamento do ano, embora sempre imprevisível, aproveitando a pausa das aulas e tentando fugir à época enfadonha que se aproximava.
Dentro do edifício, o longo balcão de madeira envernizada, um homem com pouco mais de meio metro, procurando acompanhar os pedidos dos clientes, saltitava como se fosse um qualquer malabarista circense, desdobrando-se em idas em vindas no interior do limitado espaço onde empregados, ora gesticulando, ora gritando, davam de beber aos passageiros. Palinhos, era o nome de tão liliputiana figura, era alvo principal dos pedidos.
. Palinhos, dá-me um café! Mais uma poncha… uma laranjada… um maço de tabaço…
- Quanto é???? Dê-me o troco! Falta mais um café… Uff, confesso que me divertia a ver toda  a  azáfama, enquanto que os que não conseguiam chegar ao balcão, tentavam empurrar os que já estavam servidos. Mas havia que um pouco agressivo, pois o autocarro não esperava pelos atrasados.
Por fim, as vozes tornaram-se mais escassas! O sossego e a monotonia estavam de volta ao pequeno bar, e em mantinha-me imóvel a um canto da sala, quase indiferente ao espaço e ao momento. Aproximei-me do balcão, e quase em segredo perguntei se faziam uma açorda? Pediram-me que aguardasse um pouco e dos fundos da cozinha, veio a resposta afirmativa. Sentei-me numa mesa, enquanto o prato fumegante traziam a reconfortante açorda com um ovo e uma malagueta. Procurei ganhar forças, perante a intempérie que desabava lá fora. São Pedro em fúria, destinava-me chuva e granizo a potes, mas eu tinha que manter o meu destino e caminhar até ao topo do Pico do Areeiro, descer as inclinadas veredas e subir ligeiramente até ao topo do Pico Ruivo, antes do anoitecer.    

CAM 

  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

É CARNAVAL...

Diz o povo que no Carnaval, ninguém leva a mal... Após ver AJJ no desfile carnavalesco um jornalista perguntou ao presidente do Governo regional se este estava de acrodo que não se pagasse a dívida?
Resposta pronta de AJJ:
- Mas não fui eu que fiz a dívida, quem a fez foi o povo!!!...
Palavras sábias, sem dúvida. No Carnaval ninguém leva a mal... e se levar, vá conformando-se em pagar.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O GATO "GOURMET"

O GATO “GOURMET”


Ele aparecia sempre quando estávamos a jantar. Primeiro, fazia-se notar com a sua presença, miando insistentemente até que abríssemos a porta da varanda. Depois, entrava que nem um foguete, pesquisando com o seu faro os aromas que saíam da pequena cozinha. Por fim, eu abria uma lata de atum e misturava com restos de arroz, ou de comidas que ficavam de outras refeições, colocava na parte de fora do terraço do apartamento dos Barreiros. Aproximava-se da malga metálica, procurando os pedaços de peixe, contornando e empurrando o arroz. Só depois de se capacitar de que já não havia atum, dava meia volta e desaparecia por entre os terrenos de bananeiras. Eram assim todos os dias e cumpria meticulosamente o mesmo trajecto, a mesma insolente miadeira. Por vezes, aventurava-se pela sala, aproveitando a carpete para se espreguiçar ou afiar as garras, até intervir com uma sapatada não a fosse estragar. Outras ocasiões, tirava-lhe fotografias e o flash da máquina nem o incomodava minimamente. Até os gatos são exigentes nos nossos dias.      

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A CAMACHEIRA

Café Relógio - Camacha

No teu alvo rosto
Sobressaem  duas pétalas rubras
Ar de Camacheira, sorriso fácil
Flor da vida. Nas covinhas da tua face
o Sol com seus raios, beija-as.
Desafiados no tempo, tardes
passadas, estendidas. Olhamo-nos, 
sabemos tantos segredos
partilhados em sussurros e medos.
Largo da Igreja, procuramos temas
para  conversar, olhamos os canteiros floridos,
mas não encontro palavras, só duros silêncios
tédio de uma tarde de Verão. Sorrimos,
horizonte distante e de dentro do Café Relógio
conversas e mais palavras sem sentido
bebericando sidras, escrevendo poemas 
em guardanapos de papel. 
Como bate o teu coração, senhor do mundo
sem culpa ou perdão
só a sidra no meu copo, acalenta e desatina
toda a minha razão.

domingo, 11 de janeiro de 2015

MÃE, QUERO VER O IMPERADOR!


Igreja de Nª. Srª. do Monte e túmulo do Imperador D. Carlos 
(Fotos CAM)

FUNCHAL - 3


Mãe, leva-me ao Monte...
Mãe, quero ver o Imperador... E a tanta insistência levou-me pela mão, como se tivesse medo de me perder no labirinto verde da paisagem, nos jardins do Éden, nas íngremes escadas da igreja apontando o caminho do Céu, entre a confusão de turistas e paroquianos seguindo os estridentes sinos que teimam em tocar.
Mãe, leva-me ao Monte... Quero ver o Imperador... E as minhas pernas tremendo, caminham e caminham sem fim por entre canteiros de bucho, por entre assucenas brancas, por entre... e a minha mão apertando a tua, tremia de medo do barulho dos sinos, dos carreiros de cestos, dos foguetes que estalavam no ar. Das minhas palavras, corriam silêncios ao entrar na igreja, onde velhinhas bichanavam orações corridas em longos terços já gastos e sem fim.
E eu olhava o sorriso disfarçado que tu me sussurravas ao ouvido.
Mãe quero ver o Imperador... Quero ver o Imperador!
- Chiiu!... Bico calado! Quando acabar a missa, vamos visitar o Imperador!

CASTIÇAIS DA SÉ

Interior da Sé Catedral do Funchal
FUNCHAL - 2

CASTIÇAIS DA SÉ

Velhos castiçais negros
Onde velas brilham. Pequeninas chamas dançam 
alminhas dos que partiram.
Passo o tempo mirando a cera que em lágrimas deslizam
talvez chorando em vão. 
Velhos castiçais de ferro, árvores de Natal iluminadas
Quanta dor, quantos desejos reprimidos
nas suas mágoas. E de joelhos, rezando à imagem
devota, espelha o brilho dos teus olhos, chorando
gotas douradas.
Afinal, de que serve sofrer assim, se nos transformamos em nada?!
E nos velhos castiçais negros as pequenas velas, esmorecendo 
até morrer, dão-nos  brilhantes chamas refletidas 
nos votos de quem nos ama.