quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O GATO "GOURMET"

O GATO “GOURMET”


Ele aparecia sempre quando estávamos a jantar. Primeiro, fazia-se notar com a sua presença, miando insistentemente até que abríssemos a porta da varanda. Depois, entrava que nem um foguete, pesquisando com o seu faro os aromas que saíam da pequena cozinha. Por fim, eu abria uma lata de atum e misturava com restos de arroz, ou de comidas que ficavam de outras refeições, colocava na parte de fora do terraço do apartamento dos Barreiros. Aproximava-se da malga metálica, procurando os pedaços de peixe, contornando e empurrando o arroz. Só depois de se capacitar de que já não havia atum, dava meia volta e desaparecia por entre os terrenos de bananeiras. Eram assim todos os dias e cumpria meticulosamente o mesmo trajecto, a mesma insolente miadeira. Por vezes, aventurava-se pela sala, aproveitando a carpete para se espreguiçar ou afiar as garras, até intervir com uma sapatada não a fosse estragar. Outras ocasiões, tirava-lhe fotografias e o flash da máquina nem o incomodava minimamente. Até os gatos são exigentes nos nossos dias.      

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A CAMACHEIRA

Café Relógio - Camacha

No teu alvo rosto
Sobressaem  duas pétalas rubras
Ar de Camacheira, sorriso fácil
Flor da vida. Nas covinhas da tua face
o Sol com seus raios, beija-as.
Desafiados no tempo, tardes
passadas, estendidas. Olhamo-nos, 
sabemos tantos segredos
partilhados em sussurros e medos.
Largo da Igreja, procuramos temas
para  conversar, olhamos os canteiros floridos,
mas não encontro palavras, só duros silêncios
tédio de uma tarde de Verão. Sorrimos,
horizonte distante e de dentro do Café Relógio
conversas e mais palavras sem sentido
bebericando sidras, escrevendo poemas 
em guardanapos de papel. 
Como bate o teu coração, senhor do mundo
sem culpa ou perdão
só a sidra no meu copo, acalenta e desatina
toda a minha razão.

domingo, 11 de janeiro de 2015

MÃE, QUERO VER O IMPERADOR!


Igreja de Nª. Srª. do Monte e túmulo do Imperador D. Carlos 
(Fotos CAM)

FUNCHAL - 3


Mãe, leva-me ao Monte...
Mãe, quero ver o Imperador... E a tanta insistência levou-me pela mão, como se tivesse medo de me perder no labirinto verde da paisagem, nos jardins do Éden, nas íngremes escadas da igreja apontando o caminho do Céu, entre a confusão de turistas e paroquianos seguindo os estridentes sinos que teimam em tocar.
Mãe, leva-me ao Monte... Quero ver o Imperador... E as minhas pernas tremendo, caminham e caminham sem fim por entre canteiros de bucho, por entre assucenas brancas, por entre... e a minha mão apertando a tua, tremia de medo do barulho dos sinos, dos carreiros de cestos, dos foguetes que estalavam no ar. Das minhas palavras, corriam silêncios ao entrar na igreja, onde velhinhas bichanavam orações corridas em longos terços já gastos e sem fim.
E eu olhava o sorriso disfarçado que tu me sussurravas ao ouvido.
Mãe quero ver o Imperador... Quero ver o Imperador!
- Chiiu!... Bico calado! Quando acabar a missa, vamos visitar o Imperador!

CASTIÇAIS DA SÉ

Interior da Sé Catedral do Funchal
FUNCHAL - 2

CASTIÇAIS DA SÉ

Velhos castiçais negros
Onde velas brilham. Pequeninas chamas dançam 
alminhas dos que partiram.
Passo o tempo mirando a cera que em lágrimas deslizam
talvez chorando em vão. 
Velhos castiçais de ferro, árvores de Natal iluminadas
Quanta dor, quantos desejos reprimidos
nas suas mágoas. E de joelhos, rezando à imagem
devota, espelha o brilho dos teus olhos, chorando
gotas douradas.
Afinal, de que serve sofrer assim, se nos transformamos em nada?!
E nos velhos castiçais negros as pequenas velas, esmorecendo 
até morrer, dão-nos  brilhantes chamas refletidas 
nos votos de quem nos ama.