sábado, 18 de julho de 2015

UMA CAIXA CHEIA DE POESIA

UMA CAIXA CHEIA DE POESIA


A caixa de cartão tinha estampada uma famosa marca de camisas. Quando removia a tampa, as inúmeras fotografias empilhadas, não tinham nem sequência, tema ou ordem cronológica. Umas, eram de tamanho reduzido. Minúsculas até, enquanto outras eram enormes, quase do tamanho da própria caixa. Quase todas a preto e branco, viradas com a parte impressa para cima ou com o espaço sem qualquer nota anexa.   Quando queria mostrar algo, simplesmente metia a mão e revirava "ao calhas” até redescobrir aquele retrato abandonado no tempo. Por vezes, apetecia-me dar de novo vida àquele momentos da sua vida, mas por outro lado, ela entendia que não valia a pena, tinha muito mais piada andar à procura, “refundiar” a caixa de camisas, como se fosse uma criança a querer  montar um imenso puzzle. Achava que as fotografias eram passado, incómodo como o passar do tempo, pleno de memórias, de sonhos e desilusões. Naquela caixa estavam décadas, nascimentos e casamentos, sorrisos e tristezas que ao tocar naqueles rectângulos mágicos mexiam com os sentimentos. Tudo se resumia a uma simples caixa e a tampa selava o próprio tempo. Até que um dia, ao consultar velhas fotos, dei comigo a ler o reverso das mesmas. Escritas a lápis, estavam sonetos de Camões, versos de Espanca, sonetos de Pessoa, em letras indelével torneada como era a sua caligrafia de menina. Então soltou-se-lhe a língua, dizia que conforme a ocasião, se deliciava a escrever na parte de trás das fotografias o que lhe vinha à cabeça. Momentos de fraqueza, momentos da sua vida solitária. Apercebia-me nas palavras vazias, inodoras às suas primaveras num silêncio profundo e triste. 

- Fecha a caixa por favor! Não quero que se percam! - , dizia-me. Eu fazia-lhe a vontade. 

Agora, posso abri-la... De vez em quando dá-me vontade reavivá-las, de ler os seus poemas escritos a grafite quase sumida como se tudo dentro da caixa de cartão pedisse para deixá-la em paz. Fiz essa vontade, tornando a tapá-la com cuidado!

DORME QUE EU VELO SEDUTORA IMAGEM - ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam
António Lobo Antunes Crónica publicada na VISÃO 1100, de 3 de abril
12:17 | Quinta feira, 10 de Abril de 2014
A vocação artística tem um forte componente genético que, em mim, é evidente: chegou-me direitinho do meu avô. Não é que lesse muito: para ser sincero nunca o vi ler livro nenhum, embora houvesse em casa meia dúzia de romances brasileiros, a terra de onde veio, Alencar, Monteiro Lobato, Aluísio Azevedo, Machado, Pompeia, que jamais saíram de uma estantezeca lá ao fundo, mas recitava à gente, seus netos, poesia de qualidade, que muito fez para me entusiasmar pela possibilidade de transmissão das emoções através das palavras. Pedíamos-lhe, trémulos de entusiasmo
- Ó avó recite lá
e ele, aumentando na cadeira

Um brasileiro mui rico
querendo espantar o mundo
mandou fazer um penico
com uma paisagem no fundo.

Diz-lhe um amigo: - Que louco para que queres isso tu?
- É para alegrar um pouco o triste olho do cu.

Nós, os netos, rejubilávamos com a subtileza disto. A avaliar pelo aumento da velocidade das agulhas de tricot as minhas tias reprovavam, velocidade acompanhada de um
- Francamente
escandalizado, o que prova como podem ser diversas as reações à beleza. A fim de tentar a unanimidade o meu avô iniciava, de imediato, um excerto do grande lírico do século dezanove, Tomás Ribeiro

Dorme que eu velo sedutora imagem
grata miragem que no ermo vi

que as agulhas pareciam aprovar, se não fosse o caso de o meu avô introduzir aqui o seu cunho tão pessoal, que torcia um tudo nada a estrofe:

Enquanto dormes uma dor me ataca
vou fazer caca pensando em ti

e, em resposta, os
- Francamente
se multiplicarem, acompanhados de discursos acerca da vulnerabilidade das crianças e o perigo de futuros deletérios, de bebida e pecado, para as pobres crianças que éramos, para além de nos afastar da religião e do santo respeito pelas coisas sagradas como, por exemplo, quando íamos pela rua com ele, passava um grupo de freiras, nas suas vestimentas de andorinhas fúnebres, com  o crucifixo ao pescoço, o meu avô, sonoro

As Irmãs da Caridade
têm um buraco no cu
que lhes fez o padre cura
com a chave do baú

e a família, em escândalo, a pedir perdão ao Santíssimo, enquanto o meu avô, enorme, plantado no passeio, fumava ao mesmo tempo a boquilha e um sorriso, mal sonhando o futuro que o esperava, a arder, sem remissão, no inferno. No meu entender não lhe passavam pela cabeça as consequências, por vezes graves, da Arte. A título de exemplo, e gosto da expressão a título de exemplo que me aproxima da elegância formal dos nossos dirigentes, uma das filhas teve, finalmente, o primeiro, ia a escrever rebento, foi por pouco, o primeiro crianço e levou-o ao pai que, na sua ideia, ia vibrar de contentamento com mais aquela vergôntea da sua árvore. O meu avô estudou-o com atenção
- E como se chama ele?
a minha tia respondeu, com natural e legítimo orgulho
- Francisco António
O meu avô quedou-se paralisado na cadeira, a remoer memórias do seu Pará distante, com a família à espera da reação
(as reações do meu avô, em geral, eram inesperadas)
que tardou mas veio. O meu avô pôs-se de pé num pulo, com a cara cheia de infância, e fez tremer as paredes vociferando a seguinte cantilena

Francisco António da Costa Braga
nosso amigo e protector
para proteger os seus artistas
mandou fazer uma chapelaria a vapor

e, após uma pequena pausa, mais forte ainda
- Póróróró vapor.

Durante toda essa tarde, de cinco em cinco minutos, o meu avô berrava
- Póróróró vapor

até que lhe tiraram o Francisco António da frente. Mesmo assim um eco estupefacto
- Francisco António não lembra ao diabo
e, num fio
- Póróróró vapor
Durante anos, até à sua morte, quando eu tinha dezoito, volta e meia piscava-lhe o olho, inclinava-me para ele, segredava
- Póróróró vapor
e, por um bocado, palavra de honra que nos sentíamos felizes. Experimentem.