quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A VOLTA AO MUNDO NO FINAL DO MÊS

No final do mês, quando lá em casa os adultos recebiam o ordenado, tinham por norma fazer a ronda às principais livrarias em busca das novidades literárias. Primeiro passavam pela Papelaria do Colégio, depois seguiam até à Condessa, descia-se a Rua dos Ferreiros e namorava-se a montra da Livraria dos Ferreiros e a sua imensidão de títulos expostos, desde a sua montra, ao balcão de madeira no interior e a longas vitrines a abarrotar de livros. Depois, nada melhor do que espreitar o Pátio e se houvesse pouco dinheiro, desvendar um exemplar amarelecido e em segunda mão no Rei dos Livros, ali mesmo no topo da Avenida Zarco. Tudo terminava na laranjada e no queque de laranja da Felisberta, a melhor loja que uma criança poderia desejar na época onde ainda não havia shopping centers nem tretas de plástico, embrulhos de donuts besuntados de gordura, massa ensebada boa para dar as porcos na época. Mas aquela volta dos tristes no final do mês, parecia a volta ao mundo do Julio Verne, num balão de oxigénio!  

PRIMA MARTA, A BIBLIOTECÁRIA

A Biblioteca era ampla! Três grandes alas viradas para a Praça do Município incorporadas no edifício da Câmara Municipal do Funchal. A panoramica do espaço era deslumbrante! Ao final da tarde, O Sol entrava de rompante pelas diversas salas, onde os leitores de diversas idades, manuseavam livros e jornais. Duas bilbiotecárias procuravam dar resposta aos pedidos, ora anotando os códigos nas lombadas dos exemplares ou tentanto que os livros não se espalhassem sem controlo, em cima das largas mesas de apoio. 
Não se podia requisitar mais de cinco volumes, mas sabia que quando a prima Marta estava de serviço, havia sempre excepções à regra, e a sua bondade fazia sempre "vista grossa" deixando passar 10 ou 15 volumes para ler em casa. Eu lia sofregamente Enid Blyton e os seus livros de aventuras dos "5". Na época ler livros para crianças em lingua portuguesa não era fácil! Embora a Editora Verbo acabasse de lançar uma série de titulos inovadores para os mais jovens. Depois seguiam-se a imensidade de obras de Júlio Verne, onde passava horas no terraço de casa e por vezes noites inteiras a ler inimterruptamente até ao último parágrafo as aventuras à volta do mundo, a viagem à Lua etc.etc.. Marta sorria quando lhe entregava a talão da requisição e mantinha comigo longas conversas de elogio por ser um leitor tão acérrimo. 
Outras vezes, tinha de vasculhar nas longas prateleiras títulos que ainda restassem sem ser do meu conhecimento literário. Tinha em meu poder um pequeno caderno escolar onde anotava e classificava titulos e autores para que não acabasse por requisitar de novo o mesmo exemplar. Eram nessas tardes pachorrentas em que me perdia a olhar o movimento da praça, por entre as janelas, a beleza das sumaumas em flor, o movimento da praça de taxis entre o canto esquerdo que fazia gaveto com a Rua dos Ferreiros e a obssessão da Papelaria Condessa.
Marte repetia sempre a mesma frase quando me encontrava em quaquer ponto da cidade ou no seu trabalho, elogiando sem fim que estava muito crescido, como se tivesse aumentado a minha altura em meio metro. Lá em casa, habia um lambrim da porta do quarto de costura, cheia de riscos e datas que acompanhavam a evolução da minha altura. Risquinhos a lápis como se fosse um indicador de um presidiário conntando os dias de clausura ou a evolução da temperatura de um qualquer termómetro. 
A certa altura, passei a utilizar com maior frequência a sala onde estavam outros titulos para mim desconhecidos. Os romances começaram a proliferar na minha seleção. Descobria novos autores e se era certo que Marta procurava aconselhar-me nessa evolução na minha adolescência, comecei a ver o mundo com outros olhos. Lembro-me que descobri pela primeira vez "Mar Morto" de Jorge Amado, embora continuasse a preferia as aventuras ou livros de navegadores solitários, exploradores e botânicos, os últimos passos na ciência etc. Certo que a minha paixão era ser piloto de barra! Era essa a minha verdadeira loucura. Passar horas a olhar a lancha com casco negro e grandes letras brancas com a sigla PILOTOS. Eu próprio tive muitos dissabores ao exigir que me comprassem uma peça de fazenda para fazer umas calças de ganga à medida e uma camisa azul igual aos pilotos de barra. Depois, sonhava até quase adormecer de tédio imaginando-me a subir as imensas escadas de corda com que os mesmos pilotos trepavam para entrarem no portaló dos navios. Deveria ser fascinante trepar as escadas daqueles paquetes, cada um diferente do anterior. 
Era quando Marta me abanava o braço e dizia que a Biblioteca iria fechar! Agarrava nos meus sacos de rede e carregava um mundo de titulos aos ombros rumo a casa. Tinha sorte em ter a prima Marta por perto para me ajudar a explorar os quatro cantos do planeta recheado de aventura, romance e muita emoção. 
Obrigado Marta!