quinta-feira, 20 de julho de 2017

A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA-CHUVA - Parte II




A MENINA SOMBRINHA E O SENHOR GUARDA-CHUVA

- Que antipático o Senhor Guarda-chuva! Passa a vida a desejar chuva, vento forte para estragar as minhas queridas flores, deitar ao chão os vasos de orquídeas, destruir as pétalas das minhas perfumadas rosas. Hum! Não passa de um convencido a mostrar aos outros que o seu guarda-chuva é o mais encantador do mundo. Detesto, detesto o Senhor Guarda-chuva! 

Ora certo dia, lá pelos fins do verão, o seu vizinho deu conta que o jardim da menina sombrinha estava a secar. As flores bonitas e perfumadas apareciam caídas e com uma cor castanha amarelada. As suas rosas não passavam de espetos com espinhos, os cravos perderam a cor vermelha e os seus jasmins tombados sob a terra pareciam rogar que as ajudassem no seu suplício. Enchendo-se de coragem e ao final da tardinha, quando o céu ficava já sem brilho, e as estrelas corriam uma atrás das outras para ver quem brilhava mais, foi bater de mansinho à sua porta.

- Menina sombrinha? Menina sombrinha? Do outro lado, a vizinha respondeu:

- Quem é? Quem me chama?

- Sou eu o seu vizinho Senhor Guarda-chuva! Por favor, abra  que lhe quero falar!…

Ela andou de um lado para outro, atrapalhada como se o momento fosse inoportuno, resmungando consigo mesma:

- Francamente Senhor Guarda-chuva! Que ideia essa de me vir falar a uma hora destas? E agora que faço eu? Dizia em voz baixinha. Abro!... Não abro!... É mesmo intratável… Mas por fim, após tantas idas e recuos, resolveu abrir a porta.

- Que quer vizinho?
- Ora, menina sombrinha queria ajudá-la com o seu jardim. Reparei da janela da minha casa que está tudo a ficar seco. As flores estão queimadas e as plantas suplicam água. Poderia fazer com que durante a noite, caísse umas gotinhas de água nas suas plantas. Iriam ficar de novo coloridas, os   campos, floridos e perfumados,  tão a seu gosto. O que acha da minha ideia?

Ela ficou sem fala! Pensou, pensou, e de tanto pensar a sua cabecinha parecia o catavento que estava no cimo do telhado da casa, quando bate os ventos fortes e as tempestades. No seu coração, algo lhe dizia que afinal o seu vizinho não era tão má pessoa, como realmente julgava. Até teria boas intenções dando um pouco da sua chuva pelos campos, serras e lagos.  
Decidiu aceitar a ajuda do Senhor Guarda-chuva.

Logo nessa noite, uma chuva miudinha, caiu dos céus e pela manhã ao primeiro raiar do dia. Então da janela da sua casa, viu que as gotinhas de água tinham feito um verdadeiro milagre. O seu jardim estava de novo encantador, as plantas sorriam ao vento espalhando o seu perfume e os seus vasos da janela, pareciam querer beijá-la de agradecimento. Ao lado, o senhor de olhar severo e com cara de poucos amigos, espreitava.

Que encantadora é aquela menina sempre sorrindo e cantando, como se o mundo fosse só felicidade. Então, passou-lhe uma coisa pela cabeça e decidiu cumprimentá-la precisamente na hora em que ela dançava à volta das suas rosas.
- Muito bom dia, menina! Vejo que a minha chuva foi benéfica para as belas flores do seu jardim!

Ela sorriu, um sorriso meio envergonhado e agradeceu inclinando levemente a sua cabeça.

Obrigada! Fico muito agradecida pelo seu gesto. Realmente, hoje estão com outra vida, renasceram de novo. Inclinou a sua alva sombrinha de renda resguardando o seu rosto.

O vizinho propôs darem um passeio pelo campo, mas ela arranjou mil e uma desculpas que não podia viver sem o seu chapéu de estimação e que eram incompatíveis. Quando um estava à janela, o outro não poderia estar   na outra ao mesmo tempo. O que iriam as pessoas pensarem?

Então ele teve a ideia de lhe propor - Por que não, deixar em casa a sua sombrinha e eu, o meu guarda-chuva?

Poderíamos ambos usar um chapéu… ninguém iria reparar qual o tempo que iria fazer!


Ela achou boa ideia e ambos foram dar um passeio pelos campos. Ela, com um chapéu de palha coberto de margaridas. Ele com um chapéu alto próprio do seu estatuto de vaidoso.


Segundo se consta, parece que ele lhe pediu em casamento e ambos são vistos muitas vezes juntos na sua linda casinha de madeira.


Não sei se já repararam naqueles relógios de cuco. É precisamente numa casa rodeada de um lindo jardim que ainda hoje podemos ver a menina, perdão a senhora sombrinha em dias de bom tempo e o Senhor guarda- chuva nos dias em que vai chover. De resto parecem continuar a viver felizes como nunca! Espreitem, por favor!
  
20/07/2017

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