segunda-feira, 31 de julho de 2017

AZUL ELZELINA EHLERS

Agora que se encontrava reformada, levantava-se bem cedo e desfrutava do seu pequeno quintal com vista para o Mar do Norte. Abria o guarda-sol com riscas coloridas, sentava-se na sua mesa de ferro pintada de branco imaculado, tirava a sua caixa metálica de aguarelas, os pinceis e as folhas de papel Canson. Depois, deixava-se embalar pelas ondas de espuma, pelos sonhos de Hemingway, de lutas de marinheiros, de viagens tropicais em navios de cruzeiros. Da sua casa triangular a lembrar as casa típicas de Santana, via o movimento no porto, as pontes móveis que ora subiam ora desciam, acompanhando o tráfego marítimo. E desenhava navios belos como o “France” ou o “Queen Elizabeth” com minúcia ou aguadas sempre muito coloridas. Queria a própria vida sempre colorida, confidenciava-me várias vezes. Eu acreditava na sua palavra de maruja, quando aportava a Bremerhaven, sempre Bremerhaven Stadt am Meer. Tinha curiosidade em saber da minha predilecção pelos faróis da costa, e a Ilha de Sylt ou de Helgoland, enquanto pedia-lhe para pintar “Funchais”, navios do passado, âncoras e cabos. E das folhas A3, navegavam e navegavam entre ondas revoltas, pintas de azul cobalto, azul ultramarino, sempre aquele azul anilado entre vagas e mais vagas. Um dia, pôs-se a caminho! Ou melhor, embarcou num Queen, atravessou Atlânticos para cá e para lá, desfrutando o que lhe restava da vida, como se a vida dependesse dos portos por onde passava. Depois resolveu descobrir Lisboa e na mesmo noite, queria ver a Torre de Belém, em diversas horas do dia, os tons coloridos do Tejo, as velas brancas dos iates, e partia de novo. Voltava à sua cidade do mar, ancorava como navegadora solitária ao cais do seu quintal e entre telas e navios, deixava-nos atónitos para sempre.  

Elzelina continua viajando, cruzando oceanos de azul. Obrigado pelos "Funchais" coloridos de espuma. 


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