quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA - Parte 2

Esta fotografia mostra as oficinas do antigo IFAS. Estas, situavam-se na parte interior da Rua do Castanheiro, num vasto pátio circundante dos prédios das Ruas Câmara Pestana, Rua das Pretas e Nova de São Pedro.  
Foto retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira"

Eram assim todos os santos dias! Logo pela manhã, entravam dezenas e dezenas de operários atravessando um pequeno túnel entre a entrada principal e o local de trabalho. Dentro do túnel mal iluminado, estava a porta de pequeno gabinete, talvez mais parecido com uma cabine de controlo dos empregados, onde um encarregado verificava as fichas de presença. Depois os homens para o lado esquerdo (precisamente o mesmo lado onde foi tirada a fotografia anexa) entrava nas esconsas instalações mal iluminadas onde do teto de ripas de madeira, estavam penduradas luzes "alumia mortos". Operários tratavam o vime, molhavam vezes sem conta para que não partisse. aparavam os nós e passavam numa pequena máquina que descascava em tiras. Aqui o vime estava pronto para "encher" garrafas; cestas, pequenos baús, cestos para proteger garrafas de vinho, etc... Do lado oposto, mulheres de todas as idades, bordavam, passavam a ferro tratavam de fazer bolsas em forma de meia-lua. Haviam também casais que se viam forçados à separação, como se fossem desconhecidos dentro do local de trabalho.
Pelas cinco e meia, quando um pequeno apito anunciava o fim da jornada, saíam do túnel e desembocavam na Rua do Castanheiro. Era um imensidão que descendo a referida artéria, se cruzava entre si. Os tais casais desciam dando a mão, jovens raparigas acompanhadas de namorados, idosos que se arrastavam, uns que coxeavam, outros sem um braço. ao chegarem junto à Papelaria do Colégio, separavam-se uns para a esquerda em busca do autocarro de São Gonçalo, (naquela época, os autocarros de São Gonçalo tinham o seu terminus junto ao actual Palácio da Justiça) outros caminhavam rumo a casa. Fazia-me impressão em especial um casal que morava lá para os lados da Boa Nova. Ele com um bordão parecia remar e a mulher completamente cega, amparava-se como podia tentando guiar-se no atravessar as passadeiras ou esperando na paragem. Era a tristeza do Castanheiro! Saindo de tocas, os cidadãos menos afortunados que não tinham apoios do Estado, mas tinham um reles trabalho, que não não tinham reformas, mas conseguiam ter algo para comer, viviam como podiam sem lamentações, de olhos encovados olhando o basalto do chão.
E continuo a ter visões perseguindo-me no tempo.   

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA NA RUA DO CASTANHEIRO - Parte I

Rua do Castanheiro, antigas instalações da Comissão Distrital de Assistência da Madeira e IFAS, Instituto da Família e Acção Social da Madeira. Actualmente neste edifício recuperado encontra-se um hotel.
Fotografia retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira".


A Rua do Castanheiro era uma artéria funchalense "sui generis"! Nos anos 60' do século passado, a Rua tinha como principal característica, do seu lado esquerdo até ao cruzamento da Rua dos Netos e Rua Nova de São Pedro, pequenos refúgios a que não posso chamar de quintais, antes pequenos pátios empedrados que serviam de "refúgio" ao estacionamento de veículos, de pequenas oficinas, casas de bordados e de vimes. Do lado contrário, o comprido muro que circundava o quartel militar colado à Igreja do Colégio.

Era muitas vezes logo pela manhã que ficava na varanda, a ver todo aquele movimento. Conseguia espreitar o que se passava na parada. Os soldados marchavam e contornavam o recinto, vezes sem fim. De vez em quando um graduado batia nos soldados rasos, obrigando-os a acertar o passo, chamando nomes ou ameaçando-os. Confesso que apesar da minha pouca idade, ficava um pouco enervado ao ver chicotear quem não cumpria zelosamente ordens superiores. Depois, agrupamentos marchando sem parar, saíam pela porta superior, onde entravam e saíam veículos militares. Camiões com equipamentos, transportando soldados aconchegados como sardinhas em lata, rumo a outros locais. Outros saíam, desciam a Rua do Castanheiro, a Avenida Zarco e seguiam em "manobras" até à Avenida do Mar ou ao Palácio de São Lourenço. Depois, haviam as tradicionais paradas militares em dias de juramento de bandeira, geralmente destinadas ao Largo do Colégio, local privilegiado com direito a palanque, onde diversas entidades davam o seu "amém", o apoio do regime, as altas individualidades da época,  faziam juras e mais juras com a "benção" de um qualquer bispo que prometendo o paraíso, encomendava-os para a Guerra Colonial. Eram horas amargas, com o destino marcado num qualquer navio da Companhia Colonial de Navegação e/ou Nacional. No Cais da Pontinha, soldados faziam as suas despedidas sempre muito rápidas aos familiares, tudo sob a supervisão de superiores, de Pides e Polícia Militar. E eu assisti a muitos casos... Mas o mais dramático e traumático, foi ter assistido a jovens que se atiravam borda fora completamente desesperados, tentando a tudo o custo fugir ao controlo.                

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

O DIA QUE NUNCA DEVIA TER EXISTIDO

Hiroshima 

Ontem, passaram 72 anos após a deflagração da primeira bomba nuclear. Assisti a uma parte das comemorações diretamente da NHK a televisão japonesa. Alguns discursos, pedidos de preces pelas vítimas e longos documentários. Este dia, deveria ser relembrado em todos os países como o dia que nunca deveria ter existido, o dia em que os homens deixaram de ser humanos, o dia que é o mais vergonhoso da sua história. Para além de muitas opiniões, assisti a uma entrevista com o bisneto do presidente Truman, condenando o lançamento da bomba nuclear, japoneses antigos sobreviventes que dialogavam com americanos e vice-versa tanto no Japão como na América. Junto ao Memorial, crianças brincavam, adultos contemplavam as ruínas causadas pela devastação ou circundavam o jardim, onde placas identificavam fases do desastre. No Museu das vítimas do Holocausto, fotos duras e comoventes, mostravam cenas impressionantes. Uma jovem sobressaía numa fotografia. Tinha, no seu pouco tempo de vida que lhe restou, feito dezenas de origamis, símbolos da amizade e da paz entre os povos. Uma lição de vida!
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