terça-feira, 29 de agosto de 2017

A LONGA MARCHA NA RUA DO CASTANHEIRO - Parte I

Rua do Castanheiro, antigas instalações da Comissão Distrital de Assistência da Madeira e IFAS, Instituto da Família e Acção Social da Madeira. Actualmente neste edifício recuperado encontra-se um hotel.
Fotografia retirada do livro "A História da Segurança Social na Madeira".


A Rua do Castanheiro era uma artéria funchalense "sui generis"! Nos anos 60' do século passado, a Rua tinha como principal característica, do seu lado esquerdo até ao cruzamento da Rua dos Netos e Rua Nova de São Pedro, pequenos refúgios a que não posso chamar de quintais, antes pequenos pátios empedrados que serviam de "refúgio" ao estacionamento de veículos, de pequenas oficinas, casas de bordados e de vimes. Do lado contrário, o comprido muro que circundava o quartel militar colado à Igreja do Colégio.

Era muitas vezes logo pela manhã que ficava na varanda, a ver todo aquele movimento. Conseguia espreitar o que se passava na parada. Os soldados marchavam e contornavam o recinto, vezes sem fim. De vez em quando um graduado batia nos soldados rasos, obrigando-os a acertar o passo, chamando nomes ou ameaçando-os. Confesso que apesar da minha pouca idade, ficava um pouco enervado ao ver chicotear quem não cumpria zelosamente ordens superiores. Depois, agrupamentos marchando sem parar, saíam pela porta superior, onde entravam e saíam veículos militares. Camiões com equipamentos, transportando soldados aconchegados como sardinhas em lata, rumo a outros locais. Outros saíam, desciam a Rua do Castanheiro, a Avenida Zarco e seguiam em "manobras" até à Avenida do Mar ou ao Palácio de São Lourenço. Depois, haviam as tradicionais paradas militares em dias de juramento de bandeira, geralmente destinadas ao Largo do Colégio, local privilegiado com direito a palanque, onde diversas entidades davam o seu "amém", o apoio do regime, as altas individualidades da época,  faziam juras e mais juras com a "benção" de um qualquer bispo que prometendo o paraíso, encomendava-os para a Guerra Colonial. Eram horas amargas, com o destino marcado num qualquer navio da Companhia Colonial de Navegação e/ou Nacional. No Cais da Pontinha, soldados faziam as suas despedidas sempre muito rápidas aos familiares, tudo sob a supervisão de superiores, de Pides e Polícia Militar. E eu assisti a muitos casos... Mas o mais dramático e traumático, foi ter assistido a jovens que se atiravam borda fora completamente desesperados, tentando a tudo o custo fugir ao controlo.                

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